DEBORAH PELLEGRINETTI ENTREVISTA BELKIS CUZA MALÉ
“Foram 50 anos perdidos num labirinto”

Para a escritora e poetisa cubana Belkis Cuza Malé, será difícil organizar uma Cuba democrática e livre de traumas e ódios

 Belkis Cuza Malé (1942), nascida na cidade de Guantánamo, em Cuba, estudou Humanidades na Universidad de Oriente de Havana. Foi casada com o poeta Heberto Padilla (1932-2000) e sofreu junto com ele perseguições por parte do governo comandado por Fidel Castro, depois do chamado caso Padilla, ocorrido em 1971, que significou o rompimento da lua-de-mel do regime com a intelectualidade de esquerda no mundo.

            Vencedor de um concurso nacional com o livro Fuera del juego, publicado em 1968, Padilla teve seus versos considerados contrarrevolucionários pelo regime, até que foi encarcerado em 1971. Foi torturado e obrigado a renegar suas críticas ao governo numa declaração pública dirigida à Unión de Escritores y Artistas Cubanos. Além disso, escrevia um romance que tinha por título En mi jardín pastan los héroes (1981), considerado uma referência jocosa a Fidel Castro, que é conhecido na ilha também como El Caballo (O Cavalo). Só conseguiu sair de Cuba em 1980, depois de uma campanha liderada pelo senador norte-americano Edward Kennedy.

            O episódio causou a reação de intelectuais, como Mario Vargas Llosa, Octavio Paz, Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, Marguerite Duras, Alberto Moravia, Pier Paolo Passolini, Alain Resnais e Juan Rulfo, todos condenando os métodos repressivos do regime. Já escritores como Julio Cortázar e Gabriel García Márquez preferiram uma atitude dúbia, sem romper com o regime cubano. Tradutor de Keats, Shelley, Blake e Eliot, Padilla é autor de uma notável obra poética e narrativa em que se destacam também títulos como Las rosas audaces, El justo tiempo humano, El hombre junto al mar e a autobiografia La mala memoria.

            Como o marido, a escritora e poetisa Belkis também sofreu perseguições e torturas, conseguindo deixar Cuba em 1979. Nos Estados Unidos, a escritora fundou e dirigiu desde 1982 o jornal literário Linden Lane Magazine, em Princeton, além de ter organizado o centro cultural Casa Azul em Fort Worth, Texas, onde residiu a partir de 1995. Há alguns meses, mudou-se para Miami, Flórida, onde pretende retomar a publicação do Linden Lane Magazine, interrompida por sua mudança.

Publicou os livros El viento en la pared (1962), Los alucinados (1963), Tiempos de sol (1963), Cartas a Ana Frank (1966), El clavel y la rosa: biografía de Juana Borrero (1984), Woman on the Front Lines (1987), Elvis: The Unquiet Grave or the True Story of Jon Burrows (1994), Juego de damas (2002) e La otra mejilla (2008).

De Miami, Belkis Cuza Malé
concedeu esta entrevista:

 

Que balanço você faz dos 50 anos da chamada revolução castrista?

Belkis Cuza-Malé -- São 50 anos perdidos em um labirinto, sem que ainda possamos saber como sair daquilo que destruiu a essência do país. Será muito difícil organizar novamente uma Cuba democrática e livre de traumas e de ódios. Foi isso que semeou a revolução. Algo desnecessário que poderíamos ter evitado, se não fosse por esse agente monstruoso da História chamado Fidel Castro.

Belkis Cuza Malé em Miami, em 2008

Que futuro pode esperar para Cuba agora com Raúl Castro no poder?

Belkis -- Nada novo no horizonte, embora faça 30 anos que deixei Cuba, até hoje, as coisas parecem ter se flexibilizado. No meu tempo, não se podia abrir a boca que se ia preso. Hoje, se insulta os governantes e se protesta. Isso, tudo bem, mas Raúl Castro não vai mudar muito, porque não quer e porque não pode. Nessa idade e acostumado a que façam sua vontade, sem se importar com nada referente ao povo, não é possível esperar muito.

No começo da revolução, você e seu esposo Heberto Padilla apoiaram o novo regime?

 Belkis -- Bom, Heberto simpatizava, como quase todo o povo, com as idéias de transformação que propunha a incipiente revolução, mas, desde o primeiro momento, acredito, compreendeu que a natureza autoritária de Fidel Castro, seu ódio aos EUA (onde Heberto tinha vivido os últimos cinco anos antes de voltar a Cuba) não iam trazer nada de bom para Cuba. Como intelectual e homem de pensamento muito claro sobre o que havia se sucedido com os países socialistas, Heberto viu o caminho que Cuba estava tomando e, por isso, se revelou completamente em seu livro Fuera del Juego. Eu, que havia desejado abandonar o país desde 1961, me senti presa em tudo aquilo, sem saber como sair dali, pelo que sempre expressava minhas críticas, inclusive trabalhando como jornalista na seção de literatura do jornal  Granma, de onde me demitiram em 1967.

Como ocorreu o caso Padilla en 1971?

Belkis -- Após Heberto ganhar o Prêmio de Poesía Julían del Casal, da Unión de Escritores, e uma vez publicado o livro, a situação foi piorando para nós, especialmente porque Heberto não se calava e, além disso, escrevia um romance En mi jardín pastan los héroes, onde se refletia seu ponto de vista sobre o país. Vivíamos rodeados de espiões da Segurança do Estado e com a chegada do escritor Jorge Edwards a Cuba, como representante do governo de Salvador Allende em Havana, as coisas se tornaram realmente perigosas para nós. Até que, em 20 de março de 1971, nosso apartamento de El Vedado foi assaltado pela Segurança do Estado e fomos presos. Heberto ficou detido na Segurança do Estado 37 dias, dos quais 14 completamente incomunicável, até que finalmente consegui vê-lo. Fiquei três dias sem comunicação,  fui praticamente torturada, pois mantida em um quarto frio. Também fui interrogada por um oficial armado que me acusava de tudo, sem que eu pudesse me defender. Fomos fichados como delinquentes, com uma placa pendurada no pescoço com um número. Meu número como prisioneira era 205308 e o de Heberto, 205307. Como vou me esquecer?

De 1972 a 1979, vocês foram vítimas de perseguições por parte do regime de Fidel Castro?

 Belkis -- Sim, vivíamos praticamente reclusos em nosso apartamento, sem que nossos antigos amigos nos visitassem. Apenas um grupo muito pequeno deles podia nos visitar. Herberto tinha que traduzir para o Instituto del Libro e eu seguia auxiliando a Unión de Escritores, onde trabalhava desde que me haviam demitido da redação do Granma, mas não me permitiam, então, que realizasse meu trabalho como redatora de La Gaceta de Cuba, senão teria que assinar minha hora de entrada e permanecer ali sentada, sem poder corrigir as provas de La Gaceta ou colaborar como escritora. Algo muito estúpido, mas, como sempre fui rebelde, optei por costurar uma colcha de retalhos na frente de meus companheiros de redação. Era uma espécie de Penélope, só que não descosia para não sobrar naquela linda coberta. Pena que eu não tenha uma foto de como ficou ao final. Também, como eu disse, a Segurança do Estado vinha quase semanalmente conversar conosco, perguntar coisas, como estávamos e procurar fazer com que tudo parecesse uma conversa entre amigos. Nosso telefone estava grampeado e ouviam até nossos suspiros. Também advertiam Heberto para não receber nenhum jornalista estrangeiro ou qualquer pessoa que fosse nos visitar. Era um assédio contínuo, até que escrevi uma carta a Fidel Castro denunciando o procedimento da Segurança do Estado para conosco. Supostamente, aquela era uma carta de queixa contra o próprio tirano porque ele e a Segurança do Estado eram a mesma coisa. Ele me respondeu e mandou me chamar a seu escritório, mas essa é parte da história que escrevo.

Como aconteceu seu exílio nos EUA?

Belkis -- Nada fácil, salvo pelo fato de ser uma opção de liberdade. Custou-me deixar de ver minha filha durante 18 anos, pois não a permitiram que saísse de Cuba. E, na verdade, seguimos de algum modo sendo pressionados. Salvo um pequeno grupo de amigos de Heberto, como Bob Silver, diretor do The New York Review of Books, Susan Sontag, Alexander Coleman e outros poucos, ninguém parecia se interessar por nós e as oportunidades para encontrar trabalho e ganhar bolsas ou prêmios eram escassas.

 Como foi a experiência com o jornal cultural Linden Lane Magazine?

 Belkis -- Linden Lane Magazine começou a ser publicado em março de 1982 e tinha continuado sem interrupção até há pouco tempo. Voltará a aparecer, se Deus quiser, em um mês.  Mas eu me mudei de Fort Worth para a Flórida, os meus computadores se quebraram durante a mudança, o que fez com que atrasasse a saída do jornal. São 27 anos e não é fácil.  Eu fiz o jornal todo sozinha, sem dinheiro, sem estímulos.  Mas me sinto satisfeita com meu trabalho e em ter resgatado essas vozes da literatura do exílio.

Depois da morte de Padilla em 2000, como tem sido sua vida? Mudou-se de Princeton para Fort Worth, Texas?

Belkis -- Não, me mudei para Fort Worth em 1995 e estive por lá até alguns meses atrás. Custou-me deixar Princeton e, agora, me custa deixar Fort Worth. Lá fundei La Casa Azul (Centro Cultural Cubano Heberto Padilla) e lá tenho minha casinha.  Este é o blog de LCA: http://www.lacasaazulcubana.blogspot.com.  Também temos um website, com um enlace para os números que estão na internet de Linden Lane Magazine:  http://www.lacasaazul.org. Em La Casa Azul, Heberto deixou a última conferência de sua vida, em 5 de julho de 2000. Em Fort Worth, escrevo uma coluna semanal  no jornal Panorama News, que encontra eco entre os leitores hispânicos da região.  Lá eu estive trabalhando muito ajudando como conselheira espiritual de meus clientes, o que hoje faço por telefone.

 Como estão os livros de Padilla? Foram republicados na Espanha? Padilla deixou livros por publicar?

 Belkis -- Não, não foram republicados, mas espero que sua obra completa apareça  rapidamente. Devo colocar em ordem todos seus papéis e fazer um volume com seus artigos literários, esses que foram publicados em El Nuevo Herald durante anos e em La Prensa de New York, ABC, de Madri, e outros lugares.  Também deixou um romancezinho que tenho sob meu poder e outros textos que também merecem ver a luz.

 E seus novos livros? Depois de El clavel y la rosa: biografía de  Juana Borrero (1984), foram publicados novos livros? De que trata o seu livro Juego de Damas?

Belkis --  Juego de damas é meu livro de poemas, escrito na mesma época de Fuera del Juego, e foi publicado em Cuba nos dias em que fomos detidos. O livro foi destruído e acusado de conter poemas antirrevolucionários e não voltou a ser visto até 2004, quando o crítico Carlos Espinosa o publicou por conta própria na Editora Término, na coleção Las Cuatro Estaciones.

 Você também pratica a arte da pintura nos Estados Unidos?

Belkis --   Pinto espontaneamente desde os anos sessenta, a raiz de investigar sobre a poeta e pintora Juana Borrero. Sigo pintando flores e animais, que podem ser vistos no meu blog: http://www.belkiscubanparadiseart.blogspot.com/

Vimos que você tem um blog de muita participação cultural. O que faz ainda nesse sentido?

Belkis --  Sim, este é meu blog pessoal: http://www.belkiscuzamale.blogspot.com.  Estou também escrevendo minhas memórias, tudo que Heberto não disse em seu livro, La mala memória (Barcelona, Plaza & Janes, 1989.  Meu livro se chamará La buena memoria. Já havia escrito muito há anos, preocupada em não esquecer  alguns detalhes, mas todos esses anos passei escrevendo. Tenho três romances, outros dois livros de poemas, um livro de entrevistas com mulheres cubanas e outros.  Sigo colaborando regularmente com El Nuevo Herald, de Miami, e estou tentando dar nova vida a La Casa Azul.  Também retomei as edições de Linden Lane Magazine, que já tem mais de 18 títulos publicados.

Deborah Pellegrinetti, jornalista brasileira, é tradutora.  

 
 
 

 




 



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