António Oliveira
Eça de Queirós e a poesia

Relendo algumas passagens de Eça de Queirós, que tanto me ensina a ler e a escrever português «escorreito», deparei-me com a seguinte observação: «O cronista confunde tudo. Um poema moderno e o pé da imperatriz da China». Ora, embora eu não seja cronista de profissão, mas leitor de ocasião, a imagem sugestiva contida na tensão entre dois enunciados metafóricos (poema moderno e pé da imperatriz da China) avivou a minha memória involuntária numa espécie de «déjà vu» ou «déjà lu». E, perante tantos textos críticos lidos sobre poesia, queria assegurar-me de que muitos dos autores confundem, de facto, o poema moderno com o pé da imperatriz da China, ou seria eu um leitor «démodé». Por conseguinte, a curiosidade levou-me a procurar saber o que pensa o leitor Eça de Queirós da poesia e dos seus criadores.

Apesar de admirar os poetas franceses da sua época (Hugo, Baudelaire, Gautier…) - único céu para que os seus olhos se erguiam – Eça de Queirós nunca teve assim muito jeito para escrever poesia.

Durante a sua juventude, quando a fantasia procurava evasão no devaneio e o corpo demandava exuberância, tentou poetizar, mas sem a lira suficientemente afinada que o seu canto chegasse ao Parnaso. Aliás, como escreve Batalha Reis, ele teve sempre grande dificuldade em compreender e sentir os processos teóricos da metrificação. Nunca penetrou verdadeiramente nas antecâmaras da linguagem poética. Talvez, até, porque nunca quisera ser poeta! Ele, que gostava tanto dos prazeres da vida e do conforto, com certeza que não queria cair na pobreza, como o seu poeta lírico das Prosas Bárbaras. Por isso, procurou expiar os seus traumas poéticos nos versos gementes de tristeza e vibrantes de romantismo que os Artures Corvelos, os Alípios Abranhos e os Alencares se delambiam recitando a Elviras de vento. Hoje, seriam, sem dúvida, estrelas mediáticas.

Mas, nem por isso, o maior prosador de língua portuguesa se conteve de criticar, com o seu monolhar agudo e perspicaz, a situação precária da poesia portuguesa do seu tempo (do nosso tempo). Ao longo de toda a sua obra, podemos ler, aqui e ali, referências directas ou indirectas à falta de criatividade e de originalidade poética que grassava nas confrarias literárias do seu tempo. Mas é, principalmente em dois textos que ele aborda, com mais acuidade, essa questão: no primeiro texto de «Uma campanha alegre» e numa crónica das páginas de jornalismo. 

Começa por catalogar os poetas em dois grupos: os medíocres (ou das literaturas oficiais) e os poetas livres.

Os medíocres, com ornamentos superficiais na sua verborreia, agrupam-se em capelas literárias, para, aí, construírem pedestais e adorarem-se uns aos outros. Estes poetas dizem-nos que Elvira lhe dera um lírio numa noite de luar ou que o desespero lhe invadiu a alma, porque Elvira o deixou, ou ainda que, numa noite de luar, num caramanchão, recebe dos deuses a seguinte inspiração:

                                    «O homem canta na Terra
                                      E Cristo sorri nos Céus»

Estes senhores, comenta Eça de Queirós, vêm contar-nos as suas «descrençazinhas» ou as suas «exaltaçõezinhas». Estes poetas, que não são uma espécie em extinção, caro Mia Couto, acabam, mais dia, menos dia, no esquecimento. Estes, diríamos nós, abundam nos tempos que correm e são herdeiros da Musa Venal.  

Os poetas livres, esses, não aceitam patronatos, nem «arcebispados literários». (Não frequentam tertúlias, nem vão à televisão, não é assim, meu caro Eugénio?). Esses são profundamente originais à curiosidade popular, consolam os descrentes e os ermos esquecidos. Nunca tiveram fortuna nem foram ruidosos nem reluzentes, não entraram para as academias nem foram aplaudidos em saraus, mas transformaram o espírito numa obra fecunda deixando a «felicidade divina das consciências severas e soberbas». E porque são livres, estes poetas, não existem no tempo nem no espaço. Estes sim, são herdeiros de Orfeu.

No seu estilo irónico tão peculiar, dizia ainda o ilustre escritor que o estado da poesia de então era de uma falta de pudor tal que havia em certos livros de versos mais erotismo ofensivo do que em «alguns lupanares». E, num tom de leitor que se sente ludibriado, conclui: «a higiene não é só a regularização salutar do corpo, mas também da alma. Porque há-de ser permitido que um poeta, com as suas endechas podres, perturbe o pudor e a tranquilidade virgem publicando ideias desonestas?».

(Poderíamos dizer o mesmo de alguns cronistas e recensores que escrevem sobre esta «poesia de água doce»).

Mas, fiquem os nossos leitores tranquilizados! Estas ideias, sobre a poesia em Portugal, foram escritas há mais de cem anos!                                      

 

António Oliveira é Doutor em Ciências da Literatura pela Universidade do Minho.

 

 

 

 




 



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