ANTÓNIO JUSTO...

Caim e Abel - Duas faces da mesma realidade

Nasci berrando, cresci falando para morrer gritando. Pela palavra me torno e por ela me transformo!  

Obrigado José! Obrigado Saramago, pela discussão que provocaste. Num mundo extremamente contraditório e dialéctico, por mais que se afirmem as teses e as antíteses nunca se chegará à síntese, ou não fôssemos nós seres humanos e não fosse a vida processo! 

No meio da refrega constato um facto: quer ateus quer teistas precisam de Deus para se definirem.  

Encontramo-nos todos sobre o mesmo tapete ao serviço da vida! Por vezes, alguns, em confronto com um mundo feito de injustiças, projectam as suas frustrações e desilusões num Deus mudo e inexistente enquanto que outros, irmãos na desilusão, não se conformam com a realidade do presente projectando-a numa realidade futura. Ambas as posições não se encontram à altura do pensar bíblico. Ambos fogem de si mesmos e da realidade envolvente! Em vez de encararmos a realidade e a transformarmos atiramos tiros para o ar e guerreamo-nos, tal como no caso de Caim. 

Caim e Abel são duas faces da mesma medalha que é cada um de nós! 

O problema é que ateus e teistas virem em militantes, dado seu credo se tornar parte da própria identidade expressa, sem a perspectiva do outro! Por outro lado quem cala não conta.  

Infelizmente cada qual defende apenas o reino dos seus interesses não havendo espaço para uma cultura de pensar justo! A perspectiva de Caim terá de integrar nela a perspectiva de Abel e Abel terá de reconhecer nele a perspectiva de Caim. Querer ter a razão final é tornar-se só Caim. 

Todos os crentes, quer creiam em Deus ou não, não conseguem abdicar da sua crença ateia ou religiosa em processo. Problema se tornaria se a uma tese apresentada por Saramago não fosse possível a antítese duma dialéctica construtiva interessada numa síntese muito embora passageira! Problema é também o facto do senhor Saramago ter apresentado a sua compreensão da Bíblia como se esta fosse a compreensão por excelência, atitude a que nem o Vaticano se atreve!  

É natural que cristãos e judeus possam reagir e tentar explicar outras maneiras de compreender os 73 livros da Bíblia. Assim seria lógica e aceitável a tentativa destes por explicar outras leituras da Bíblia numa dialéctica que lhe é própria. Era necessário compreender que na Bíblia e especificamente na história de Caim e Abel, se encontra documentada a dialéctica entre a cultura pastoril e a cultura sedentária, entre a cultura do campo e a das cidades, que hoje como ontem é bem actual, tal como outrora em Caim e Abel. Como sempre, na luta entre a província e a cidade há interesses muito concretos a defender. Veja-se a afirmação macrocefálica da capital contra o regionalismo... 

Saramago tal como Caim não aceita a mundivisão do seu irmão Abel. A imagem de Deus que Saramago ataca é naturalmente a sua. Querer reduzir a realidade bíblica a infantilismos e cai na contradição de negar Deus e ao mesmo tempo o responsabilizar pelo mal dando-lhe o atributo de "filho da puta", como se vê em Saramago página 82 do seu livro.  

Este mimo e outros queriam provocar relação, e naturalmente quem reage é logo apelidado de reaccionário. Quem ele quer atingir não será naturalmente Deus mas os filhos do tal "filho da p." que, muito naturalmente, não serão melhores que o seu Deus a destruir!  

Que em cada cultura, nos antagonismos que lhe são próprios e até benéficos, esteja presente Caim e Abel em disputa, é muito natural e benéfico, o problema é não nos darmos conta de que somos os dois na mesma pessoa e não notarmos o papel que representamos em cada momento em que falamos ou agimos (Caim ou Abel)! Quem mata Abel torna-se assino de si mesmo tal como quem mata Caim, dado os dois serem o reverso de si mesmo e das sociedades.   

Naturalmente que quem vai à missa de Saramago não goste de outras missas e vice-versa. Desumano seria se não nos respeitássemos uns aos outros, conscientes de que todos andamos encostados a algo que não queremos reconhecer… É a nossa liberdade de escravos, mas esta escravidão pode tornar-se libertadora!  

Ao fogo do inferno sucede-se o fogo das palavras e dos próprios interesses. A agressão é também uma maneira de libertar a consciência, como nos ensina Caim! A continuarmos assim não haverá infernos para uns e paraísos para outros, mas sim, democraticamente, inferno para todos! Salvem-se os nossos maiorais, os nossos Belzebuses, porque esses gozam de imunidade!  

Quem faz a guerra não pode lavar-se nas águas da inocência.  

Naturalmente que Saramago sabia muito bem que quem ataca não é vingativo, vingativo tornam-se os outros. A divindade Nobel ofendida exige o louvor aos seus devotos. No fim há muita beatice ateia e crente ao serviço dos respectivos dogmatismos e da própria seriedade.  

Um outro facto: A grandeza dos que se distinguem precisa da pequenez dos que os fazem!... 

De lamentar seria que se formassem grupos incompatíveis, dum lado súbditos ateístas, e, do outro, súbditos teístas: uns contra os outros na defesa da própria devoção. 

Quem diz o que quer ouve o que não quer.... Importante é que todos são pessoas honradas, muito embora assumindo umas vezes o papel de Caim outras o de Abel!

ANTÓNIO da Cunha Duarte JUSTO . Nasceu em Várzea-Arouca (Portugal). E-mail: a.c.justo@t-online.de.

Professor de Língua e Cultura Portuguesas, professor de Ética, delegado da disciplina de português na Universidade de Kassel .

PUBLICAÇÕES  

- Chefe Redactor de Gemeinsam, revista trimestral do Conselho de Estrangeiros de Kassel em alemão com secções em português, italiano, turco, françês, grego, editada pela cidade de Kassel, tiragem 5. 000 exemplares.

- Editor da Brochura bilingue: "Pontes Para um Futuro Comum – Brücken in eine gemeinsame Zukunft", editada na Caritas, Kassel

- Editor de "O Farol" , jornal de carácter escolar e social em colaboração com alunos, pais e portugueses das cidades de Bad Wildungen, Hessisch Lichtenau, Kassel, Bad Arolsen e Diemelstadt( de 1981 a 1985)

- Editor de „Boletim da Fracção Portuguesa no Conselho de Estrangeiros de Kassel (1984)

- Autor da Brochura „Kommunalwahlrecht für Ausländer – Argumente“ editada pela Câmara Municipal de Kassel, Fevereiro de 1987.

- Co-autor da Brochura „Ausländerbeiräte in Hessen - Aufgaben und Organisation“, editada pela AGAH e Hessische Landeszentral für politische Bildung, Wiesbaden, 1988.

Colaborador de vários jornais e do programa de rádio semanal de português de Hamburgo.

http://blog.comunidades.net/justo

 http://antonio-justo.blogspot.com/

 

 

 




 



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