ANTÓNIO CABRITA
PERCOLAÇÃO DO TEMPO 

Em Lalibela (“as abelhas aceitam a sua soberania”),

a meio do túnel que liga Beth Markal a Beth Maryan,

igrejas escavadas na rocha, abaixo do solo,

o guia etíope tocou-me delicadamente a palma da mão

e ciciou, “fica comigo!”. Com o queixo apontou

 

o realizador (apressado, sempre apressado) que galgava

na frente,“deixa-o seguir”, e indicou-me uma abertura

lateral que desembocaria numa cavidade secreta.

Fora o cói revelado no sonho do rei Lalibela,

quando entreviu a Jerusalém Celeste? Desentendi,

 

não aproveitando a fuga que sigilosamente se abria.

Volvidos oito anos, em Maputo, na pastelaria

Primavera, um antro que jamais terá resgate, releio

Eliade, no fito de explicar aos alunos as modelizações

do tempo, e vem-me num clarão a incisa natureza

 

do convite, o seu desatendido retorno. Deserto

por sair da sombra do Divino, do Sonho cinzelado

naquela rocha, o guia – frágil trama que respira –

quis seguir um rio que nada tem de Eterno. E no cerne

húmido e ascético do Invisível, propunha-me

 

o descanso de sábado. Queria perder-se, perder-me

no rito nupcial, por um lampejo de caçada e a paz

que se segue. Tinha a beleza de um pastor da Arcádia,

um design italiano, eu é que desviado por uma feição

vegetariana de ser lhe desbaratei o ensejo.

de “Piripiri Suite”
António Cabrita nasceu no Pragal a 16 de Janeiro de 1959. Em 1979 publicou Oblíqua Visão de um Cristal num Gomo de Laranja ou Perene o Sangue que Arrebata os Anjos Vingadores. Parte considerável da sua obra poética está reunida em Arte Negra, livro de 2000 publicado pela Editora Fenda. Crítico de cinema e crítico literário no Expresso, António Cabrita é também editor das edições Íman, director da revista Construções Portuárias, autor de contos e argumentos para cinema.
 
 
 
 

 

 

 




 



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