ANTÓNIO CABRITA
RECOMEÇAR

Costumava povoar os filmes alheios

com pássaros, rios, acácias vermelhas –

espantava-me que reagissem como um deus

que conta pelos dedos. Um dia acordei

sem provisões - até o luto precisa de irrigação

 

constante – e então parti com uma maleta

de palavras desconjuntadas. Palavras que clamam

por cura como andas por pés. Em Moçambique,

um turbilhão de abelhas desgarrado de colmeia,

vi o que convinha: pedras soltas, ariscas,

 

onde a víbora pode plantar raízes.

É lugar que mede a eficácia das palavras

pelo corte do soldador na chapa. A luz

de Lisboa - for exemple - sendo

mais brilhante, não é doméstica.

 

Esta ao fenecer, lembra um jacente

que habita connosco. Pode não ser

bonito mas é algo que se compartilha.

Russos é o que não falta. E pastores,

que repetem convictos “o sol nasceu”

 

antes de reclamar dízima, espórtula. Aqui,

pavões, até ver, nasceram afogados.

Recomeço a povoar os romances alheios

de pássaros, rios, acácias vermelhas -

volto a estar dentro do que me é exterior.

de “Piripiri Suite”
António Cabrita nasceu no Pragal a 16 de Janeiro de 1959. Em 1979 publicou Oblíqua Visão de um Cristal num Gomo de Laranja ou Perene o Sangue que Arrebata os Anjos Vingadores. Parte considerável da sua obra poética está reunida em Arte Negra, livro de 2000 publicado pela Editora Fenda. Crítico de cinema e crítico literário no Expresso, António Cabrita é também editor das edições Íman, director da revista Construções Portuárias, autor de contos e argumentos para cinema.
 
 
 
 

 

 

 




 



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