ANTÓNIO CABRITA
A CONDIÇÃO DO POEMA
Para o Francisco Noa

Não te desanime a sina de papagaio

preso ao poleiro de certas palavras vãs,

já pútridas, e de cadências clânicas,

num mundo devotado ao desapego.

Traças um mapa de ausências:

 

ao norte rareiam os albatrozes - quem

adivinha várzeas no subsolo das portagens,

licornes no esmaecido das gravuras,

se desertos já ruminam o Amazonas?

Em Maputo, onde o coração s’areja,

 

não falta a miséria. Em que desvelos

novos querias tu a língua, essa eterna

caloteira? Qual é o teu abrandamento

de onda? Disso depende o que vês.

Mesmo do poleiro onde ferves a 500º

 

Celsius. Não te desanime o desígnio

d’ave coada pelo agoiro. A voz que ‘tava

na cave é o tremor que te respira, a gaguez

em que embates no escuro, o halo - consorte

da morte - que te aguça os olhos.

de “Piripiri Suite”
António Cabrita nasceu no Pragal a 16 de Janeiro de 1959. Em 1979 publicou Oblíqua Visão de um Cristal num Gomo de Laranja ou Perene o Sangue que Arrebata os Anjos Vingadores. Parte considerável da sua obra poética está reunida em Arte Negra, livro de 2000 publicado pela Editora Fenda. Crítico de cinema e crítico literário no Expresso, António Cabrita é também editor das edições Íman, director da revista Construções Portuárias, autor de contos e argumentos para cinema.
 
 
 
 

 

 

 




 



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