ANTÓNIO CABRITA
OUVINDO VINICIUS NO MIKUTI

1.

Acima do joelho a perna remata

em vê. E um rabo em prateleira

campeia nestas ruas, a quem falta

um Vinicius para radiografar

a pista do orvalho sobre a pele,

 

num achado de estalo, que anuncie

“As mais claras que me perdoem

mas beleza é fundamental!”.

Saboneteira não lhes falta e caprichadas

barriguinhas, como um molde

onde a carne pinga, cerosa e lenta,

prenunciando a generosa juba

de fêmeo leão moreno, a lura que

unha nos valentes pesadas baixas.

Abaixo do joelho a dança recomeça.

 
2.

O cigarro desce e sobe, ininterrupto.

A sua boca é o farol que incandesce

a espuma solitária e, momentaneamente,

lhe dá afago, a ternura do lume.

Nas últimas três vezes em que a fitei,

 

erguíamos o copo no mesmo desfastio.

Uma coincidência e não uma harmonia:

alga nova não suporta a oxidação madura,

unicamente se atrasou o seu encontro

e a ansiedade leva-a a ritmos alheios

 

aos seus. Mas brilha, numa proporção

que ainda não se conteve, e enrola o cigarro

nos dedos com a descuidada malícia

que torna os olhos que a crivam imitação

de pirilampos na cabeleira de Deus.

de “Piripiri Suite”
António Cabrita nasceu no Pragal a 16 de Janeiro de 1959. Em 1979 publicou Oblíqua Visão de um Cristal num Gomo de Laranja ou Perene o Sangue que Arrebata os Anjos Vingadores. Parte considerável da sua obra poética está reunida em Arte Negra, livro de 2000 publicado pela Editora Fenda. Crítico de cinema e crítico literário no Expresso, António Cabrita é também editor das edições Íman, director da revista Construções Portuárias, autor de contos e argumentos para cinema.
 
 
 
 

 

 

 




 



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