ANTÓNIO CABRITA
A CARTA PÓSTUMA

As notas acotovelam-se-lhe nos dedos

ou brotam convulsas, uma a uma,

como pálpebras que se viram para fora.

Não há pianista igual ao Monk, mãe,

poeta de mais rútila afasia. Fora-me emprestado

o cd há 15 minutos e lia as notas de produção

deste Criss-Cross, gizado em cinco sessões,

no distante ano em que eu afeiçoava carpo,

falanginha e falangeta ao meu primeiro avião

de lata, quando a Maria João me telefonou:

que te desvaneceras, sem sofrimento. Sem

sofrimento, como a retina ensimesmada

ao cimo do escadote, ou o escaravelho

que assenta o dorso no chão e teima em furar

com as patas a barriga dos cirros.

Cheguei a casa, depeniquei no caril

de amendoim, a cismar, e agora,

como contar à tua neta que não te tornará

a ganhar à batalha naval? Ela abordou-me,

apreensiva: sabias que o Monstro (o da Bela)

é analfabeto? As partidas que se pregam

aos Monstros! Uma oportunidade perdida

para falar-lhe da iliteracia com que as palavras vãs

nos soldam à morte? Uma pontada refugiou-me

no escritório, sonâmbulo, os olhos despenhados

nos hibiscos brancos e vermelhos que polvilham

os quintais dos bairro universitário.

O Thelonius Monk – vês, até o nome é singular –

começou a premir as teclas na sua forma paródica

de desmantelar o sentimento de uma flor

(há gente assim, que prefere desenrolar

um mapa de piratas ao descasque da emoção).

Depois telefonou a Bélinha, que me confiou:

após a operação, sobre um corpo mirrado

como a colmeia que encarquilha ao fogo,

içava-se um rosto, o olhar, o verbo lúcidos.

Era tudo o que ansiava saber e desatámos

aos soluços, como o ataque do piano

na melodia de Tea for Two.

de “Piripiri Suite”
António Cabrita nasceu no Pragal a 16 de Janeiro de 1959. Em 1979 publicou Oblíqua Visão de um Cristal num Gomo de Laranja ou Perene o Sangue que Arrebata os Anjos Vingadores. Parte considerável da sua obra poética está reunida em Arte Negra, livro de 2000 publicado pela Editora Fenda. Crítico de cinema e crítico literário no Expresso, António Cabrita é também editor das edições Íman, director da revista Construções Portuárias, autor de contos e argumentos para cinema.
 
 
 
 

 

 

 




 



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