ANTÓNIO CABRITA

DEZ ANOS

1.

«O amor cria os peixes...»: não sei se li,

s’ouvi, s’anotei à margem do vento,

atravessando a avenida que me separava

do teu passo indolente e distraído,

como sempre, sob o fogo das acácias.

 

Tanto que o amor nos deu e tirou,

em dez anos de um vinco comum,

leve como o veludo no pêssego.

Peixes é a nossa especialidade. Algo

que flua e ria como o tenro cardume

 

que nos cavalga a vaga. Nos teus olhos

límpidos, temerosos, oriento a barbatana.

Na tua voz, que murmura: “espanta-me

que a vida nunca se detenha...” sei

que se refugia a alegria, o inominado.

2.

Ver-te-ei sempre como a criança

muda, à beira do vagalhão,

a que se levanta intacta de entre

as algas mas com a cabeça

raiada por um troço de mistério.

 

Lembro-me que tiritavas

como uma labareda à míngua

de riso, de um sopro fraterno -

é malária dizias, e a voz fugia-te.

E nos teus olhos adivinhava-se

 

a surpresa da primeira vez que viste

a rapina a planar. Intermitente

amante de charadas, em dez anos

deve ter-te custado nunca

jogarmos xadrez sob o bafo da lareira.

 

Sabes que adormeço a planejar o lance

da torre seguido de cavalo, e renuncias,

compassiva. O melhor é libarmos

aos deuses cruéis - entre nós

o passado nunca foi iminente.

 
 
de “Piripiri Suite”
António Cabrita nasceu no Pragal a 16 de Janeiro de 1959. Em 1979 publicou Oblíqua Visão de um Cristal num Gomo de Laranja ou Perene o Sangue que Arrebata os Anjos Vingadores. Parte considerável da sua obra poética está reunida em Arte Negra, livro de 2000 publicado pela Editora Fenda. Crítico de cinema e crítico literário no Expresso, António Cabrita é também editor das edições Íman, director da revista Construções Portuárias, autor de contos e argumentos para cinema.
 
 
 
 

 

 

 




 



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