ANTÓNIO CABRITA
CAFÉ CONTINENTAL: AS MÃOS DE HITLER

Apontava os lança-chamas aos cajueiros e as aves

ziguezagueavam em esplêndidos números

de fogo. Ainda hoje, quinze anos depois,

lhe sorriem os olhos, se especifica o cheiro

daquela cinza vagabunda. Acorda este pirado

 

ao lado da minha ex-namorada? Que vês tu

no protozoário rudimentar, indaguei, indo

o marmanjo ‘verter águas’. É um polinizador

nato, com ele até os lençóis ficam molhados

retorquiu, magoada com ‘o meu preconceito’.

 

Pois então mete-os sobre as aves, sempre é

mortalha cristã, aconselhei. E num trago

melancólico (um MacGregor duvidoso),

cismei na inutilidade da beleza, no fascínio

com que Heidegger gabava as mãos de Hitler.

de “Piripiri Suite”
António Cabrita nasceu no Pragal a 16 de Janeiro de 1959. Em 1979 publicou Oblíqua Visão de um Cristal num Gomo de Laranja ou Perene o Sangue que Arrebata os Anjos Vingadores. Parte considerável da sua obra poética está reunida em Arte Negra, livro de 2000 publicado pela Editora Fenda. Crítico de cinema e crítico literário no Expresso, António Cabrita é também editor das edições Íman, director da revista Construções Portuárias, autor de contos e argumentos para cinema.
 
 
 
 

 

 

 




 



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