::::::::::::::::::::::::::::Ana Haddad:::::::::::::
Por que Georges Seféris está esquecido?

Para muitos a resposta parece óbvia, ou seja, para quem realmente lê ou é apaixonado por poesia. O poético sempre disse a verdade, eis a grande questão. E quem não tem medo da verdade? Ela dói. Fundo. Lembremos, uma vez mais: quem eram os mestres da verdade na Grécia Arcaica? Os poetas. Não nos esqueçamos das lúcidas reflexões de Marcel Detienne, a respeito da função dos poetas na Grécia Arcaica:

Funcionário de la soberania o elogiador de la nobleza guerrera , el poeta es siempre um ‘Maestro de Verdad’. Su ‘Verdad’ es uma ‘Verdad’ asertórica: nadie la pone em duda, nadie la prueba. ‘Verdad fundamentalmente diferente de nuestra concepción tradicional, Alétheia no es la concordancia de la proposición com su objeto, tampoco la concordância de um juicio con otros juicios; no se opone a la ‘mentira’; lo  ‘falso’ no se yergue cara a cara lo ‘verdadero’. La única oposición significativa es la de Alétheia y Lethé. En este nível de pensamiento, si el poeta está verdadeiramente inspirado, si su verbo se funda sobre un don de vidência, su palabra tiende a identificarse con la ‘Verdad”.(1)

Georges Seféris nasceu em Esmirna (1900) na Turquia, quando este espaço  ainda pertencia à Grécia. Morreu, em Atenas, no ano de 1971. Se por um lado teve algumas facilidades, como nascer em um belo berço cultural em todos os níveis, visto que seus pais possuíam uma situação relativamente privilegiada, por um outro foi perseguido, a vida inteira, pelo exílio e  por questões de opções profissionais, forçado a uma espécie de eterno nomadismo.

Seféris, a rigor, quase nunca fixou uma moradia. Por ser um diplomata, além de escritor, morou em diversos países. Além disso, suas mudanças quase sempre se deram em virtude de necessidades diplomáticas muito tensas, visto que a Grécia, especialmente, durante o século XX atravessou momentos de grandes tensões quer do ponto de vista externo, quer do interno. No meio de graves conflitos Seféris conseguiu construir uma carreira, bastante sólida, a de escritor.

Infelizmente, ainda há quem pense, que uma carreira de escritor se construa, apenas, na base da inspiração. Pura inverdade. Seféris decidamente queria ser um poeta, um escritor. E cumpriu com dignidade aquilo a que se propôs. Não porque ganhou o Nobel ou foi aclamado por diversas academias do mundo inteiro. Mas porque sua poesia pesada e profunda sempre desvia a percepção comum para algo a mais que só a boa literatura possibilita. Desvios marginais, nunca trilhados. Sensibilidade proporcional ao seu grau de reflexão.Nomeações  em seu sentido mais profundo. Eis algumas das bases da escritura, tanto da prosa quanto da poesia, de Seféris.

Apresentamos uma parte de um dos poemas do escritor grego que, em nossa perspectiva, é um dos mais profundos, construído, tendo por base, diversos pilares de tempo-memória.
        
Stratis, o marujo descreve um homem 

                            I
Mas  que tem esse homem?
Por toda a tarde  (ontem, anteontem e hoje)
Permaneceu de olhos fixos numa chama.
À noitinha, chocou-se contra mim, que descia a escada.
Disse-me:
“O corpo morre, a água se turva, a alma
Hesita
E o vento esquece, esquece sempre,
Mas a chama não muda.”
Disse-me ainda:
“Vê, a mulher que amo partiu talvez para o outro mundo;
Não é por isso que tenho o ar tão abandonado.
Tento juntar-me a uma chama
Porque a chama não muda.”
Depois ele contou-me a história de sua vida.

                   CRIANÇA
Quando comecei a crescer, as árvores me incomodavam. Por que
      sorri? Isso o faz pensar talvez na primavera, tão dura  para
      as criancinhas?
Gostava muito das folhas verdes;
Se aprendi alguma coisa, foi porque também era verde a ousa
       em minha carteira.
As raízes das árvores me incomodavam quando vinham, no calor
        do inverno, enrolar-se em volta de meu corpo.
Não tinha outros sonhos quando era criança.
Foi assim que conheci meu corpo.

 
         ADOLESCENTE

Certo verão – eu tinha dezesseis anos – uma voz estrangeira
     cantou em meus ouvidos.
Era, lembro-me bem, à beira-mar, entre os regos vermelhos e a
      Carcaça de um barco abandonado na areia, tal um esqueleto.
Quis aproximar-me dessa voz, colando o ouvido na areia.
A voz desapareceu
Mas uma estrela cadente
Como se pela primeira vez eu visse uma estrela cadente e nos meus
       lábios o sal da vaga.
Naquela noite, as raízes das árvores não voltaram mais.
Na manhã seguinte, uma viagem abriu suas folhas em mim e se
      Fechou como um livro de imagens.
Eu quis todas as noites ir à praia
Aprender primeiro a praia e partir depois para o largo.
No terceiro dia, amei uma jovem numa colina;
Ela morava numa casinha branca feito capela de montanha, tinha
       a mãe velhinha à janela, óculos abaixados para o tricô, sem-
       pré calada,
Um vaso de manjericão, um vaso de craveiros.
Chamava-se, parece, Vasso, Frosso ou Bílio.
Assim esqueci o mar.
Numa segunda-feira de outubro
Encontrei um jarro quebrado diante da casa branca
Vasso (para simplificar) estava de roupa negra, os cabelos desfei-
       tos, os olhos vermelhos.
E como a interrogasse, disse-me:
“Ela morreu, o doutor disse que ela morreu porque não estran-
        gulamos o galo negro nos alicerces...Onde encontrar um galo
        negro por aqui...Só animais de casa, e a criação,
        vendem toda já crescida no mercado...”
Eu não imaginava assim a tristeza e a morte.
Parti e voltei para o mar.
De noite, na ponte do São Nicolau,
Sonhei que uma oliveira muito velha chorava.

                   RAPAZ

Viajei um ano com o capitão Odisséia.
Eu estava feliz.
Nos bons dias, encontrei um lugar para mim, na proa, perto da
        Sereia;
Cantei seus lábios vermelhos enquanto olhava os peixes voadores.
Com mau tempo, enfurnava-me num canto do porão com o ca-
        chorro de bordo para me manter aquecido.
No fim do ano, vi minaretes, certa manhã.
E o portão me disse:
“Eis Santa Sofia. Vou te levar esta noite à casa das mulheres.”
Assim conheci eu as mulheres que usam só roupa de baixo,
As mulheres que a gente escolhe, isso mesmo, essas.
Era um lugar estranho
Um pátio com duas nogueiras, uma latada, um poço,
E a parede, em volta, guarnecida de vidros partidos.
Um veio d’água cantava:”No fio de minha vida”.
Então, pela primeira vez, eu vi um coração
Atravessado pela flecha bem conhecida
Desenhado a carvão no muro.
Vi as folhas da latada amarelecidas,
Caídas ao chão,
Coladas à calçada, à lama sórdida,
Fiz um movimento para voltar ao barco.
Mas o mestre de bordo me agarrou pelo colete, jogou-me no poço:
A água tépida e tanta vida, em volta, na minha  pele...
Depois a jovem me disse, brincando distraidamente com o seio
         direito:
  “Eu sou de Rodes, fizeram-me noiva aos treze anos por cem vin-
         téns.”
O veio d’água cantava: “No fio de minha vida.”
Lembrei-me do jarro quebrado na tarde fresca e pensei
“Ela também morreu um dia, como será que morreu?”
Disse-lhe apenas:
“Cuidado, não estragues teu seio, ele te ajuda a viver...”
À noite, no barco, não pude aproximar-me da Sereia. Tinha ver-
        gonha.

 

                            HOMEM

    Desde então vi, muitas paisagens novas: campos verdes onde o céu e a terra, o homem e a semente se misturam numa irresistível umidade; plátanos e abetos; lagos de visões amolgadas e cisnes imortais (pois haviam perdido a voz), cenários que desdobravam meu companheiro voluntário – esse comediante vagabundo – soprando num longo búzio que lhe havia estragado os lábios e estruía com seu grito agudo a trombeta de Jericó tudo que eu chegava a construir. Vi também um velho quadro que muita gente admirava, numa sala de teto baixo. Representava a ressurreição de Lázaro. Não me lembro mais do Cristo nem de Lázaro: somente num canto, o desgosto pintado num rosto que olhava o milagre como se o cheirasse. Tentava proteger a boca com a ponta de um grande tecido que lhe caía dos cabelos. Esse senhor da Renascença ensinou-me a não esperar grande coisa do Julgamento Final...
Diziam-nos: vencereis, quando vos submeterdes.
Submetemo-nos e encontramos a cinza.
Diziam-nos, vencereis quando amardes.
Amamos e encontramos a cinza.
Diziam-nos, vencereis quando abandonardes vossa vida.
Abandonamos nossa vida e encontramos a cinza.

         Encontramos a cinza. Resta-nos apenas reencontrar nossa vida agora que nada mais temos. Suponho aquele que reencontrará a vida, apesar de tantos papéis, de tantas lutas, e sentimentos, e ensinamentos, será alguém como vós e como eu, com uma memória justa um pouco mais tenaz. Para nós é difícil, lembrarmos ainda o que nos deram. Aquele não se recordará senão daquilo que ganhou por cada um de seus dons. Que pode recordar uma chama? Se ela se recorda um pouco menos do que deve, extingue-se. Se ela pudesse ensinar-nos, enquanto brilha, a se lembrar com justeza! Eu acabei. Se outrem pelo menos pudesse começar onde acabei! Há momentos em que tenho a impressão de haver tocado o extremo e de que todas as coisas estão em seu lugar, prontas para cantar em coro. A máquina a ponto de funcionar. Posso imaginá-la, viva, em movimento, incrivelmente nova. Mas resta um obstáculo ínfimo, um grão de areia que diminui, diminui sem nunca entretanto reduzir-se a nada. Não sei o que devo dizer nem o que devo fazer. Tal obstáculo surge-me às vezes como um ponto de lágrima incrustrado numa engrenagem da orquestra e que a reduz ao silêncio enquanto não se dissolve. E tenho o intolerável sentimento de que toda a vida que me resta por viver não bastará para abolir essa gota em minha alma. E assalta-me o pensamento de que esse instante obstinado seria o último a se render, se me queimassem vivo.
        
         Quem  nos poderia ajudar? Uma vez – eu trabalhava ainda em barcos – eu me encontrei, num meio-dia de julho, sozinho numa ilha, doente sob o sol. A brisa leve do mar despertava em mim ternos pensamentos, quando vieram sentar-se um pouco afastados uma mulher jovem, de roupa transparente que deixava adivinhar seu corpo de corça, delgado e firme, e um homem silencioso, que a olhava nos olhos, a certa distância. Ele falava uma língua que eu não compreendia. Ela o chamava Jim. Mas suas palavras eram sem peso e seus olhares, imóveis e confundidos, deixavam seus olhos cegos. Penso sempre neles: são os únicos seres encontrados em minha vida que não tinham a expressão rapace ou acuada que têm todos os outros. A expressão que os alinha na multidão de lobos  ou na dos cordeiros. Tornei a encontrá-los no mesmo dia  numa dessas pequenas capelas das ilhas que descobrimos sempre ao acaso para perdê-las quando nos vamos delas. Mantinham-se a mesma distância, depois aproximaram-se e se beijaram. A mulher tornou-se uma imagem incerta e se apagou, tão pequena era ela...Sabiam eles que estavam livres dos laços do mundo?

         É tempo de partir. Conheço um pinheiro que se inclina sobre o mar. Ao meio-dia, oferece ao corpo fatigado uma sombra medida como nossa vida, e à noitinha, através de suas agulhas, o vento entoa um canto estranho como almas que houvessem abolido a morte na hora de se tornarem pele e lábios. Uma vez, passei toda a noite em vigília sob essa árvore. Pela madrugada estava novo como se acabasse de sair do estaleiro.
.........Se só pudéssemos viver assim! Pouco importa. (2)

Como declara Estela Guedes “o nome verdadeiro não é, para o poeta, o do cartão de identidade, sim o que escolheu para si.” (3)  O poema em questão vem a partir da perspectiva de Stratis, personagem presente em outros poemas de Seféris. Desdobramento do escritor, que se reflete não simplesmente como causa/efeito, mas um desdobramento natural, diríamos assim, de um dos maiores dramas do povo grego, em vários níveis, assim como o de Seféris: a preocupação com a identidade. Quem somos nós? Quem sou eu? Sempre condenado a um eterno exílio e a conviver sempre fora de minha terra, de minha gente, de minha cultura? Por que  somos tão “invadidos”?

Por intermédio de Stratis, um marinheiro, Seféris é um verdadeiro porta-voz de angústias. Joga-nos situações do passado do marujo como se  fossem camadas ora sobrepostas, ora justapostas de uma memória individual que não pode ficar apagada. Stratis é a  memória do próprio poeta, de suas dores e agudas angústias, que  se junta ao seu povo para cantar as misérias materiais de seu país acrescidas das misérias  próprias do ser humano. É a miséria humana que interessa a Seféris. Nada mais. Em seu âmago. Em sua essencialidade. O agudo fundo do ser. Ele busca os elementos do incompartilhável para torná-los visíveis. Eis um dos maiores problemas daqueles que são dignos de escrever poesia.

Na verdade, o poeta busca uma correspondência entre o seu passado, o de seu povo e da humanidade  em geral. A dor passada em comum, assim como os dramas do presente.

        Nas palavras da poetisa:

O homem é um ser de linguagem, todo o seu afecto, saber e história residem nela. Por isso, ao interrogar a palavra, é o mundo e a vida que questiona. E também por isso a liberdade reclamada para a palavra é a liberdade do ser, e não apenas a de ser proferida ou impressa. Porque o universo é sentido como linguagem, a poesia tem nele um referente e um interlocutor, e ao poeta, o primeiro  tema que se lhe impõe é o da palavra. É assim que se estabelece, entre a Natureza, e entre a linguagem e o homem, a maior de todas as correspondências.(4)

O elemento da Natureza, predominante, aliás em outros textos do autor, é o mar. Imenso e cheio de mistérios transporta-o, também, para outros pontos de memória. O mar é uma imagem recorrente. Mas por quê? Um dos motivos seria o grau de significação da presença marítima  para a  civilização grega em geral. Sabe-se que a Grécia é incompleta sem suas ilhas. A parte continental  vai ao encontro de  centenas de ilhas. É uma questão espacial, geográfica, de suma importância. Mesmo porque cada ilha possui sua história, suas memórias. Memórias tristes ou, muitas vezes, alegres. Ilhas que abrigaram presos políticos no século XX. Poetas que foram calados pela repressão durante as guerras civis pelas quais passou o país. Seféris não fez uma  literatura engajada, no mau sentido da palavra, como queriam os radicais de esquerda. Fez, sim, da literatura, da poesia, um verdadeiro canal de libertação e de verdade para ele e para o seu povo. Ou melhor dizendo: para todos os oprimidos e marginalizados, tal é a universalidade de Seféris.  

Referências Bibliográficas

BAPTISTA, Ana Maria Haddad. Tempo-memória, São Paulo, Arké, 2007.

BEATON, Roderick. George Seferis: waiting for the Angel, a Biography. Londres, Yale University Press, 2003.

GUEDES, Maria Estela. A Poesia na Óptica da Óptica, Lisboa, Apenas, 2008.

SEFÉRIS, Giorgos. Poemas: Giorgos Seféris- seleção, introdução, tradução direta do grego e notas de José Paulo Paes. São Paulo, Nova Alexandria, 1995.
______________. Complete Poems. Traduzido, editado e introduzido por Edmund Keeley e Philip Sherrard. Londres, Princeton University Press, 1995.
______________. Pages de Journal: 1925-1971. Tradução diretamente do grego, apresentação  e notas de Denis Kohler. Paris, Mercure de France, 1988.
______________. Poiímata. Atenas, Icaros, 2004.

Notas
(1) Los maestros de verdad en la Grecia arcaica, p. 76.

(2)Tradução diretamente do grego efetuada por Darcy Damaceno. Foi cotejada, por nós, com o texto original, em grego, de Seféris  e com a tradução de José Paulo Paes.

(3) A Poesia na Óptica da Óptica, p.41.

(4) Maria Estela Guedes, A Poesia na Óptica da Óptica, p. 18.

Ana Maria Haddad Baptista. Professora e pesquisadora do Programa de Estudos Pós-Graduados em História da Ciência da PUC/SP.
 

 

 

 




 



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