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CUNHA
DE LEIRADELLA


O MEU CURRÍCULO

 

Ontem, eu tomei uma decisão importantíssima. A mais importante de toda a minha vida, realmente.

Trabalho há vinte anos numa das maiores companhias de seguros de Belo Horizonte e sempre me orgulhei do meu emprego. Comecei como auxiliar de serviços gerais, mas, com muito esforço e com muita força de vontade, subi todos os degraus. Hoje, sou o vice-contador. Acima de mim só tem o contador-chefe e o diretor administrativo-financeiro. Por isso, sou invejado por todos os colegas. Mas não me importo. Vinte anos de trabalho, subindo sempre, são a medida exata do meu valor e da minha capacidade.

Eu sou o tipo de profissional que sabe, exatamente, quanto vale. Por isso, a inveja dos meus colegas não me atinge. Antes pelo contrário, me instiga e me dá satisfação. Quanto mais eles me invejam, mais eu trabalho e mais seguro me sinto. E mais eles são obrigados a reconhecer o meu valor.

Ontem, como sempre, li o jornal no ônibus. Moro no bairro Dom Cabral e o tempo da viagem é a medida exata para chegar bem informado ao escritório. Gosto de andar sempre bem informado. Às vezes, por falta de uma pequena informação perde-se a maior das oportunidades. Por isso, faço questão de ler todas as notícias. Mesmo aquelas que nada têm a ver com a minha profissão.

Normalmente, termino a leitura cinco minutos antes de saltar. Mas, ontem, a Avenida Amazonas estava completamente engarrafada e, quando o ônibus conseguiu cruzar a Avenida do Contorno, só me faltava ler, mesmo, era o caderno dos anúncios. Nunca leio anúncios, assim como, também, nunca vejo televisão. Quando preciso comprar alguma coisa faço, pessoalmente, a minha pesquisa de preços. Para mim, e até que me provem o contrário, a propaganda só serve para enganar os incautos. Ou os tolos. Mas, ontem, não tive escolha. Aquele trânsito me obrigou a fazer uma coisa que nunca tinha feito. Ler o caderno dos anúncios.

E levei um choque. Realmente, um grande choque. Parte da primeira página parecia ter sido escrita para mim. Como já disse, nunca leio anúncios. Mas aquele era diferente. Não era nem anúncio. Era uma verdadeira intimação. Não é comum, em Belo Horizonte , dizer-se às pessoas VOCÊ, QUE É UM CHEFE. Normalmente, diz-se o contrário. Como dizem os meus colegas invejosos, embora a inveja deles não me atinja. E não me atinge porque eu sei que sou um chefe. Tenho plena consciência do meu valor. Por isso, sempre que tentam denegrir a minha imagem, a minha resposta é o desprezo. Mas, mesmo assim, aquele anúncio me chocou. Eu sou um chefe e sei que sou um chefe. Entretanto, faz muita diferença eu saber que sou um chefe e ler isso, escrito num jornal.

Por isso, li aquele anúncio. E li-o com a mesma atenção com que leio os artigos de fundo ou as opiniões das personalidades importantes. Uma seguradora estrangeira, já operando no Rio de Janeiro e em São Paulo , procurava um profissional capaz e seguramente habilitado para ocupar o cargo de gerente-administrativo da filial a ser instalada em Belo Horizonte. Pedia fossem enviados currículo e foto recente, URGENTE, para a portaria do jornal. O salário seria, não só compatível com o cargo, mas, também, e acima de tudo, compatível com a capacidade do candidato.

Fiquei impressionado, e digo impressionado para não dizer outra coisa, por dois motivos importantíssimos. Primeiro, pelo fato de quebrar, ainda que involuntariamente, um hábito de mais de vinte anos. Segundo, com o teor do próprio anúncio. Que, valha a verdade, me pareceu até premonitório. VOCÊ, QUE É UM CHEFE. Eu sou, realmente, um chefe. Não só de direito, dada a minha capacidade, mas também de fato, dado que chefio diversos auxiliares. Chefio quatro, incluindo o supervisor de patrimônio. E, no mês que vem, chefiarei mais dois. A telefonista da manhã e a da tarde.

Reli o anúncio, recortei-o com cuidado, e guardei-o na carteira. Sempre fui muito meticuloso e exigente. Mesmo comigo. Se um documento, por exemplo, tiver que ser arquivado na pasta A e a pasta A só puder ser consultada com a permissão do diretor, se ele não for trabalhar naquele dia, o documento não será arquivado naquele dia. Creio que este exemplo é suficiente para demonstrar os parâmetros do meu comportamento profissional e pessoal. Exatamente porque as normas existem é que devem ser cumpridas. Por isso, talvez, grande parte da emoção que senti naquele momento fosse proveniente do fato de saber que, apesar de ter chegado onde cheguei, aquele anúncio podia, ainda, modificar toda a minha vida.

E iniciei, então, a segunda etapa do processo. Analisar metódica e profundamente, como é do meu feitio e sempre fiz em todas as opções da minha vida, o resultado pretendido. Que eu era um chefe, ninguém podia duvidar. Os meus auxiliares eram a prova mais cabal da abrangência do meu cargo. E o fato de, a curtíssimo prazo, chefiar ainda mais dois, só reconfirmaria a veracidade da minha afirmação. Portanto, por este lado, nada a temer. Se eles queriam um chefe, eu era um chefe. E um chefe que sabia chefiar. Se não soubesse, se houvesse alguma dúvida quanto à minha capacidade, o diretor administrativo-financeiro não me teria chamado anteontem e não me teria dito, Senhor Eduardo, a partir do mês que vem o senhor vai chefiar mais dois auxiliares. A telefonista da manhã e a da tarde.

Tirei o anúncio da carteira e li-o mais uma vez. VOCÊ, QUE É UM CHEFE. Não havia nenhuma dúvida. Estava escrito. VOCÊ, QUE É UM CHEFE. Emocionado, fechei os olhos e olhei, por um instante, para dentro de mim mesmo. Se eu já era um chefe num escritório como o nosso, que chefe não seria num escritório que não tinha vergonha de dizer que os chefes eram chefes? Esta pergunta simples foi a resposta. O argumento decisivo. Apesar de nunca ter feito uma coisa igual em toda a minha vida, responderia àquele anúncio. E não iria desapontá-los. Se precisavam de um chefe, eu precisava só de um lugar onde pudesse comprovar, ainda mais, a minha capacidade de chefiar.

Finalmente, com mais de meia hora de atraso, e por que não dizer, muito emocionado, entrei no escritório. Sentei-me e, com todo o cuidado, tirei o anúncio da carteira e li-o mais uma vez. Inteiramente capacitado do teor e completamente decidido a responder, pensei na melhor forma de concretizar a nova etapa do processo. Estruturar o meu currículo. Analisei, cuidadosamente, todos os meus conhecimentos e verifiquei, não sem uma certa dose de orgulho, diga-se em prol da verdade, que a minha experiência ultrapassava, e muito, todos os parâmetros de um currículo. Diante desta conclusão objetiva, a solução também foi objetiva. Se quisesse, de fato, demonstrar quem eu era, teria que enviar, ao invés de um simples currículo, uma carta curricular. E, nela, colocar tudo que sabia e estava capacitado a fazer, e, também, a desenvolver, caso me fosse solicitado. Mas, tudo isto, exposto de uma forma direta, concisa, absolutamente incisiva e sem rodeios. A pessoa que me lesse tinha que me sentir logo na primeira frase. Como eu tinha sentido aquele VOCÊ, QUE É UM CHEFE. Na verdade, eu tinha que dizer na minha carta, e nos termos mais convincentes e mais exatos, o que, em vinte anos de carreira, e uma carreira brilhante e sempre ascendente, diga-se também em prol da verdade, eu tinha conseguido estudar e aprender.

Em vinte anos, quando a gente quer e se esforça, tudo se consegue. E eu, graças a Deus, sempre quis muito e sempre me esforcei. Embora, nos dias de hoje, a televisão tenha, praticamente, acabado com a vontade de estudar e de refletir, eu sempre achei que o saber não ocupa, nem tempo, nem espaço. Antes pelo contrário, nos faz ultrapassar essas barreiras. Por isso, quando vi que o anúncio era de uma companhia estrangeira, logo me lembrei que os estrangeiros, principalmente os americanos e os suíços, dão o máximo valor aos profissionais que se fazem por si mesmos. Lincoln e Guilherme Tell sempre foram os meus paradigmas mais perfeitos. Claro que as circunstâncias e os tempos são outros. Mas, guardadas as devidas diferenças, o que tinha sido a minha vida senão uma escada íngreme e da qual eu subira todos os degraus? Não começara como auxiliar de serviços gerais e não era, agora, o vice-contador?

Consciente da responsabilidade, escrevi durante toda a manhã. Pela primeira vez na minha vida roubava algumas horas de trabalho à minha empresa. Mas a grandeza da causa justificava, plenamente, a apropriação indébita daquelas horas, e a minha consciência de nada me acusou. Primeiro, delineei um rascunho com as idéias gerais. Depois, dei-lhe um formato mais adequado e iniciei a revisão do texto final. Comecei assim: EU SOU UM CHEFE. E, confesso, até sorri ao ler este começo. Foi um ato de verdadeira inspiração, reconheço. Se eles afirmavam VOCÊ, QUE É UM CHEFE , eu não podia deixar de confirmar EU SOU UM CHEFE. Terminada a revisão, mudei a fita da máquina, limpei os tipos, e comecei a datilografar. Em sete folhas ofício, sem timbre, condensei os meus vinte anos de trabalho, de estudo e de experiência profissional e pessoal. Quando assinei, e assinei propositalmente a tinta preta, para dar mais seriedade ao conteúdo, tive certeza de ter feito, realmente, um bom trabalho. Dificilmente apareceria outro candidato que pudesse dizer, como eu dizia, EU SOU UM CHEFE.

A minha vida sempre foi uma vida dedicada ao estudo e ao trabalho. Tirando seis meses de um casamento de nefastíssima memória, e digo nefastíssima, porque a minha esposa, enquanto eu me esforçava para consolidar a minha ascensão iniciante, ao invés de me incentivar e esperar o resultado, achou que eu a tinha enganado e foi embora. Mas não a culpo. Infelizmente, nem todos podem ser perseverantes. Apenas, se ela tivesse tido, já não digo a minha perseverança, mas só um pouco de paciência, hoje, ao invés de ser uma mulher adúltera, seria a esposa feliz de um vice-contador. Tirando esta queda, se é que se pode chamar queda a um simples e involuntário acidente de percurso, a única coisa que fiz na vida foi subir. E subi mais e muito mais rapidamente do que a maioria das pessoas. Em cento e cinqüenta milhões de brasileiros, quantos podem dizer que são, hoje, vice-contadores?

No intervalo do almoço tirei a foto, não como eu queria, é verdade, mas o prazo não me permitiu tirar uma mais perfeita, e fui entregar a carta no jornal. Por precaução, tomei um táxi e mandei seguir para a Savassi. Dei algumas voltas e olhei algumas vitrines, se algum dos meus colegas me visse na Savassi jamais iria imaginar que eu estava respondendo àquele anúncio, e, passada meia hora, tomei outro táxi e saltei na Avenida Afonso Pena. Sempre verificando se alguém me seguia, entrei na Rua Goiás e corri para a portaria do jornal.

Pode até parecer, e certamente é uma bobagem, mas quando voltei ao escritório, já me sentia um estranho ali dentro. Por mais que me concentrasse e olhasse os meus auxiliares, por mais que pensasse que, no mês seguinte, iria chefiar ainda mais dois, não conseguia trabalhar. Os meus sentidos se recusavam e, a única coisa que conseguia enxergar na minha frente, era uma sala só minha, toda acarpetada, com cortinas e ar condicionado, meia dúzia de telefones e uma secretária na ante-sala, e eu dirigindo tudo aquilo como um chefe de verdade.

Pouco antes de encerrar o expediente a telefonista me chamou. Tinha um senhor na recepção me procurando. Não imaginava quem fosse, mas não tinha importância. Não demoraria muito e ninguém mais me chamaria.

- Senhor Eduardo da Cunha Júnior?

- Sim.

O homem levantou-se e entregou-me um envelope.

- Mandaram entregar.

Nem perguntei quem. Já era um estranho ali dentro e tudo que pudesse acontecer não me diria mais respeito. Voltei para a minha mesa, sentei e olhei os colegas, ainda debruçados sobre papéis e mais papéis. Coitados. Aquela ia ser sempre a vida deles. Nenhum deles era um chefe. Num gesto maquinal, sem prestar mais atenção, abri o envelope. Tirei o conteúdo e deixei-o escorregar por entre os dedos, sem o menor interesse. Era o último envelope que abriria naquela mesa.

Eram sete folhas. Papel ofício, sem timbre, todas em branco. Só na última, a tinta preta, a minha assinatura era legível.

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Cunha de Leiradella
mailto:leiradella@sapo.pt

 

 

 

 


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