CUNHA DE LEIRADELLA

A SOLIDÃO DA VERDADE

ROMANCE

III PARTE - A SOLIDÃO DA VERDADE

Trinta

Nasci em Belo Horizonte. Na tarde do dia 31 de julho de 1991, às 2 horas, 18 minutos e 27 segundos, exatamente. Mas não conheço a cidade, nem ela me conhece. As solas dos meus sapatos conhecem muito mais o chão que pisam do que eu conheço as ruas por onde ando. Se morasse no Polo Sul ou na China seria igual. O lugar é apenas um lugar e eu sou apenas um detalhe. Mas sem conexão. Eu não vivo em Belo Horizonte. Apenas estou em Belo Horizonte. A cidade à minha volta é só um monturo de coisas e de ruídos e eu não consigo penetrá-la. As ruas por onde ando não têm fim e as pessoas com quem cruzo também não param, nem me vêem. Desta cidade só conheço os caminhos e as paradas das minhas vias-sacras. O resto, são apenas coisas e ruídos. Por isso, se morasse no Polo Sul ou na China seria igual. Apenas o meu quarto seria outro.

O meu quarto. A merda do meu quarto. Trinta metros quadrados de nada e quadros nas paredes, e uma janela e uma porta. E um banheiro. Mas só trinta metros quadrados de nada e quadros nas paredes, e uma janela e uma porta. E um banheiro. Por mais que olhe à volta e queira integrar este espaço, ou ser integrado por ele, nada aqui me completa. As paredes e o teto não me abrigam, nem protegem, e a janela é apenas um buraco. Do outro lado, o monturo de coisas permanece e os ruídos só me ferem os ouvidos.

Às vezes, quando me debruço no parapeito e olho para baixo, vejo outros Eduardos nas calçadas e tenho um desejo imenso de encontrá-los. Mas não consigo. A janela continua sendo apenas um buraco na parede e os Eduardos não param, nem me olham. Estão sempre do lado de lá e eu estou sempre do lado de cá. E, se abro a porta e os procuro nos corredores, nada muda também. Eles continuam do lado de lá e não param, nem me olham, e eu continuo do lado de cá e não consigo alcançá-los. E não tenho, sequer, um ponto de referência. Para além do buraco da parede, só as coisas da cidade e os ruídos. Para além da porta, só os corredores do hotel e o silêncio. E aqui dentro só o som da televisão e o assobio da água do chuveiro, enquanto espero adormecer ou tomo banho. Mais nada. Nasci em Belo Horizonte, mas ainda não sei como viver nesta cidade.

Neste momento, Andréa está na Recepção e pode estar atendendo um hóspede que acaba de chegar ou outro que está fechando a conta e tem pressa de sair, ou está desocupada e conversa com as colegas ou com o Sr. Ferraz, ou fuma um cigarro na sala dos telefones. Sei que está no hotel porque a apanhei em casa de manhã, e são três horas da tarde e ela só sai às seis, junto comigo. Mas não sei mais nada. Não sei se quero continuar assim ou mudar, ou acabar com tudo de uma vez. Não sei nada. Não sei se chove ou se faz sol, ou, sequer, se D. Beth veio trabalhar.

Não quero estar aqui, mas também não queria estar na minha sala. Andréa não estaria comigo e não adiantaria passar na Recepção e olhá-la, e não poder ficar junto dela. Por isso, subi e deitei-me. Mas não consegui ficar deitado. Andréa não subiu comigo e o colchão não era o colo dela. Sentei e peguei uma revista, mas também não adiantou. As palavras eram hieróglifos e as fotos borrões fantasmagóricos. Ou, então, era o meu cérebro que não raciocinava e os meus olhos que não viam. Não sei. Não sei nada. Nem sei se estou bem ou se estou mal, ou se tudo isto é só outro pesadelo.

Olho pelo buraco da parede e vejo que não chove, e que tudo está como sempre tem estado. E então sei que não é só mais outro pesadelo. Lá em baixo, os outros Eduardos continuam andando nas calçadas e eu continuo aqui em cima, olhando para eles. Mas só olhando. Entre nós não há nenhum elo e o vazio que me cerca, cerca tudo.

Olho o relógio e os ponteiros riem e colam-se no mostrador, e eu sei que só verei Andréa quando eles me deixarem. Mesmo que os quebre ou jogue fora, o tempo é mais deles do que meu. Eles não sentem.

Deito na cama e olho o teto, e lembro de quando era menino e deitava nos abrigos dos pastores e as pedras me abrigavam e protegiam, e o teto olha para mim e ri às gargalhadas. Fecho os olhos e não vejo as carantonhas, mas as gargalhadas continuam e tenho certeza que os ponteiros fazem coro e o tempo também ri.

Faz três dias que estou mais neste quarto do que na minha sala ou em qualquer outro lugar. Apanho Andréa em casa de manhã e levo-a à noite, mas nunca estamos juntos. Não paramos mais na Praça do Papa e, mesmo quando jantamos no Dona Derna, não me sinto junto dela. Andréa não pega mais na minha mão, nem me deita no colo. Mas não pergunto por quê. Agora, até a verdade me dá medo.

Não faço mais a inspeção diária do hotel. Sei que os gerentes das áreas e os chefes dos setores já estranharam, mas não me importo. Não me aproximo de ninguém e só converso quando as pessoas me procuram. D. Beth continua trazendo chá de camomila e senta na minha sala e procura distrair-me, mas não consigo escutá-la. Apesar de não sair da minha sala, D. Beth, agora, não está mais do meu lado. Está do lado deles. Daqueles muitos Eduardos que andam por aí. Subindo e descendo as ladeiras deste monturo de coisas e de ruídos, que todos chamam Belo Horizonte e que eu não consigo penetrar.

Quinta-feira o Dr. Jarbas fez questão de examinar-me. Concordei. Mas só para não desapontá-lo. Fez um exame completo e disse que eu devia descansar, e receitou Anafranil e Frontal. Não tomei. Não tomei, nem tomarei. Não preciso de remédios. Não estou bem, nem estou calmo, mas sei a causa, e não vai ser Anafranil, nem Frontal, que vão cuidar de mim. O casamento está marcado para o dia 1º de fevereiro e Andréa diz que está feliz. Mas eu não estou e sei por quê. Não quero ir a Portugal e Andréa diz que faz questão de conhecer as minhas terras.

Já demos entrada nos papéis e pedimos os passaportes. Andréa assinou o pedido de demissão e tudo se consumou. Vamos casar e vamos passar a lua-de-mel em Portugal. Andréa diz que está feliz e eu também devia estar. Mas não estou. Infelizmente, não estou. Quero dizer-lhe que não posso ir a Portugal e não sei como falar. Tenho medo que ela não entenda e vá embora.

Por isso, quando penso que Andréa faz tanta questão de conhecer as minhas terras, os dias que faltam se transformam num segundo e me sufocam. Sei que é horrível estar assim, mas não consigo mudar. Infelizmente, sou assim. E isso me sufoca ainda mais. Não posso perder Andréa e não quero ver a minha mãe, e não sei como conciliar as duas coisas.

A notícia do casamento espalhou-se no hotel ainda naquele domingo e logo começaram os parabéns. Quando voltei da casa de Andréa, D. Cristina e D. Célia, as recepcionistas da tarde, já sabiam e vieram cumprimentar-me. Depois vieram os outros e, segunda-feira, a minha sala encheu de gente. D. Beth e o Sr. Ferraz, e todos os gerentes, vieram de manhã cedo, e D. Beth abriu a lista dos presentes. O Sr. Ferraz deixou um aviso na Portaria de Serviço, convidando todo mundo para um chá-de-panela que a Recepção vai oferecer para Andréa, sábado que vem, na casa dele. E, para meu espanto, ontem recebi um telex da Matriz, também desejando felicidades. Agradeci e pedi autorização para ocupar mais dois apartamentos. A Matriz concordou e, hoje de manhã, empacotei as fitas de vídeo e, quando fui buscar Andréa, joguei-as num terreno baldio, em Mangabeiras. Ainda não estou bem, nem estou calmo, mas jogar fora aquelas fitas fez-me bem. Pelo menos, provou que ainda posso decidir. Devia decidir mais. Sei que devia decidir mais. Mas, pelo menos, desta vez não me omiti. Se continuar assim, quem sabe ainda posso tomar outras decisões?

Não sei. Gostaria de saber, mas não sei o que ainda poderá acontecer. Daquele domingo para cá muitas decisões foram tomadas e muitas coisas foram feitas. Mas eu não decidi nada, nem fiz coisa alguma. A não ser jogar fora as fitas de vídeo, nada mais fiz, nem decidi. Andréa decidiu tudo e isso me preocupa. Não porque ela decidiu. As providências eram necessárias e alguém tinha que decidir. O que me preocupa são as minhas omissões. Mesmo que tudo corra bem não sei se terei condições de superar as seqüelas dos meus silêncios. Sei que não devia pensar nisto, mas penso. Andréa decidiu as nossas vidas e eu não sei se poderei viver a minha, do jeito que ficou.

A palavra mãe sempre teve uma conotação especial para mim. A minha mãe nunca foi a minha mãe. Por isso, nunca quis conhecer a mãe de Andréa. Mas, felizmente, nada do que eu temia aconteceu. D. Mina, só naquele sábado soube que se chamava D. Mina, não me lembrou a minha mãe.

Recebeu-me como se já fosse da família e, quando eu disse que estava pedindo Andréa em casamento, abraçou-me e disse que estava tão feliz como se a noiva fosse ela. E quando Andréa disse que a nossa lua-de-mel seria passada em Portugal, D. Mina ficou tão satisfeita e falou tanto que nem tive coragem de dizer que não iria. Fiquei mudo, paralisado com a notícia, e omiti-me. D. Mina serviu um licor de araçá feito em casa e fez um brinde, e disse que tinha certeza que nós íamos ser muito felizes. Andréa abraçou-me e beijou-me e sentou-me no sofá, e sentou-se no meu colo. D. Mina encheu os cálices outra vez e começou a falar no enxoval. Nem escutei. Os seios de Andréa encostavam no meu peito, mas nem sentia o calor deles. Estava oco, vazio, como se tivesse voltado ao cinema Candelária e a espuma ainda cobrisse os seios das mulheres. Não. Não iria a Portugal. Agora, não podia mais ver a minha mãe. Iria com Andréa ao fim do mundo, mas não iria a Portugal. Tinha matado todos os fantasmas e não queria revivê-los.

Mas não tive coragem de falar. Sabia que era o momento certo e que talvez não houvesse mais nenhum, e não falei. A lembrança dos seios da moça do Parque Municipal apavorava-me e, se Andréa me deixasse, nada mais me restaria. Por isso, não falei. Fechei os olhos e pedi a Deus que me ajudasse, e, quando Andréa perguntou por que estava tão calado não soube o que dizer. A garganta apertava e os ouvidos zumbiam, e parecia que só havia espuma à minha volta. Mas Andréa insistiu e tive que falar. E falei. Mas não disse o que devia. Abri a boca e a espuma entrou pela garganta e os seios da moça do Parque Municipal balançaram na minha frente, e só consegui dizer que estava tudo bem e que o enxoval seria por minha conta. Andréa abraçou-me e beijou-me, e disse que o enxoval era o de menos. Eu também sabia que o enxoval era o de menos. O importante seria não me ter omitido e ter dito que não iria a Portugal. Foi mais uma omissão. Mas, infelizmente, não foi a última. Por isso, agora, estou assim.

D. Mina serviu mais licor e disse que tinha certeza que Andréa ia ser muito feliz, casando com um homem como eu. Talvez fosse verdade. Mas eu também queria ser feliz. E não era. A garganta apertava cada vez mais e os ouvidos pareciam colméias de besouros, e a espuma sufocava-me. Tinha que sair dali. Agora que o meu futuro estava decidido, aquela sala era pior do que o meu quarto. Mas D. Mina não parava de falar e eu tinha medo de sair. Tinha certeza que a moça do Parque Municipal me esperava na calçada. E fiquei. Engolindo espuma e tremendo, e escutando D. Mina falar nos padrinhos e nos convidados, e nos arranjos da igreja.

Não sei quanto tempo D. Mina falou. Mas a minha boca já amargava de tanto fumo, quando Andréa, finalmente, decidiu como casar. Casaríamos na Igreja de São Mateus, lá mesmo no Anchieta, sem convidados, a não ser os colegas do hotel. Não disse nada, mas concordei com Andréa. Se também tivesse 19 anos, também não gostaria que me vissem casar com uma mulher 38 anos mais velha do que eu. Principalmente, se não gostasse dela.

D. Mina não gostou da decisão de Andréa, mas conformou-se. Serviu mais licor e perguntou se eu já tinha avisado a minha mãe. Mãe era sempre mãe, e sempre se preocupava com os filhos. Não respondi. D. Mina jamais entenderia. Acendi outro cigarro e Andréa respondeu. Chegaríamos sem avisar. Era melhor. Assim poderíamos ver como andava a fazenda, antes que alguém soubesse da chegada. Era a última oportunidade que tinha de dizer que não iria. Mas o medo de perder Andréa emudeceu-me. E omiti-me mais uma vez.

Por isso, a idéia do casamento me sufoca. Casado, terei que ir a Portugal e terei que ver a minha mãe. Sei que os fantasmas estão mortos e que não há mais seios com espuma, nem mulheres mortas, sem rosto e sem cabelo. Mas não sei se a minha memória sabe disso. Eu sei, mas não sei se ela sabe. E mesmo que a minha memória também saiba, a moça do Parque Municipal ainda pode cruzar comigo em qualquer esquina, a qualquer hora.

Felizmente, ainda faltam 49 dias para entrarmos na Igreja de São Mateus e 51 para tomarmos o avião para Lisboa. E 53 para chegarmos na minha casa e eu ficar na frente da minha mãe. Mais de mil horas, milhões de segundos, bilhões de porrilhões. Tempo suficiente para tudo acontecer. Até para esquecer e não pensar. Principalmente, não pensar. Porque, se pensar, nada mais me restará senão voltar às vias-sacras e aos cinemas, e à merda do meu quarto. E à Casa dos Contos e aos conhaques, e às Andréas que inventar.

D. Beth faz tudo para que me sinta bem. Tenho certeza que foi ela que pediu ao Dr. Jarbas aquele exame. Mas não posso fazer nada. A realidade é o que é e eu não posso mudá-la. Ou caso com Andréa e me arrisco a ir a Portugal, ou digo que não vou e me arrisco a ficar só. Ou então não me omito e faço o que tem que ser feito, e não sei o que poderá acontecer, ou continuo me omitindo e não faço o que tem que ser feito, e também não sei o que poderá acontecer. Ou, ou. Sempre ou, ou. A merda é esta.

Quando penso nisto, enquanto D. Beth me traz chá de camomila e diz que a vida é assim mesmo, mas que, depois da tempestade sempre vem a calmaria, e traz mais chá e chama o Sr. Ferraz, e ele me conta dos hóspedes que mandam flores para Andréa e a convidam para sair, e ela não aceita e diz que está noiva e vai casar, ou enquanto olho pelo buraco da parede e vejo os outros Eduardos passando nas calçadas e os invejo, a conclusão a que chego é uma só e não há mais o que fazer. Se algum dia me conheci e pensei saber o que queria, agora não sei mais quem sou, nem o que quero.

Andréa vai ficar junto de mim. Mas se Andréa vai ficar junto de mim, e é isso que mais quero, então por que é que estou assim e digo que não sei mais quem sou, nem o que quero? Será que a felicidade me assusta tanto que nem consigo ser feliz, ou será que preferia estar como estava porque teria sempre uma desculpa? Não sei. Sinceramente, não sei, e isso me assusta. A única coisa que sei é que não quero ir a Portugal. A minha mãe, agora, chama-se Andréa. Andréa Marcondes Campanella.

O hotel está lotado. Chegaram hoje quatro grupos de turistas, a caminho de Ouro Preto e Mariana, e o hotel parece uma igreja em dia de casamento. Todo mundo se abraça e diz que está feliz, mas todos estão ansiosos por sair. Os elevadores sobem e descem cheios e todos riem e gritam e anotam telefones e endereços, e prometem visitas e encontros, como se acreditassem, realmente, no que dizem. Vista de dentro do hotel, Belo Horizonte parece mesmo uma festa de família. Todos têm pressa de sair, mas ninguém quer ser o pioneiro. O importante é mostrar como estão bem. Só eu não consigo. Não estou bem e sei que não estou, e também sei que não posso melhorar.

Subi com alguns hóspedes no elevador, mas não conversei com nenhum. Não iria adiantar. Não sei mentir. Mas, depois, sozinho na merda deste quarto, arrependi-me. Se tivesse conversado, quem sabe eles também me abraçariam e diriam que nunca se tinham sentido tão felizes e eu também diria que nunca me tinha sentido tão feliz? E, de tanto dizer que nunca me tinha sentido tão feliz, quem sabe eu me sentiria mesmo feliz e não olharia mais a merda do relógio e a merda do buraco da parede, nem pensaria em tudo isto? A merda é que não consigo fingir e, muito menos, acreditar no meu próprio fingimento. Mesmo quando estava feliz não conseguia ser feliz. Ou tinha medo de voltar a ficar só, ou tinha medo de morrer.

Olho outra vez pelo buraco da parede e vejo que tudo permanece. Nada muda. Até as nuvens são as mesmas. Se, pelo menos, estivesse do outro lado da praça... Se estivesse do outro lado da praça, só estaria do outro lado da praça, puta que pariu. Ao invés dos edifícios, veria a fachada do hotel, e só o lugar e o campo de visão seriam outros. Eu seria o mesmo. Aqui ou no outro lado da praça nada dentro de mim vai mudar e eu serei sempre o mesmo túnel. Sem retrocesso e sem luz do outro lado. Mesmo que fosse só um trem desgovernado que viesse contra mim.

Invejo Andréa. Sei que é terrível dizer isto, mas é um fato. Invejo Andréa. Mas não é só Andréa que eu invejo. Invejo todos os que conseguem acreditar. Seja no que for. Quem acredita é feliz. Quando olha à volta e não há mais nada, nem saída, ainda poderá olhar para cima e encontrar alguma coisa. Quem não acredita está só. Quando olha à volta e não há mais nada, nem saída, só poderá olhar para dentro de si mesmo e nada encontrará. Andréa acredita e eu a invejo por isso. E gostaria de ser como ela. Mas não sou. Infelizmente, não sou. Às vezes, peço a Deus que me ajude, mas sei que só peço por ter medo. Andréa não. Andréa acredita que é filha de Iansã e é, realmente, filha de Iansã.

Se fosse como Andréa, tenho certeza, ainda poderia ser feliz. Pelo menos, não estaria neste quarto, pensando em tudo isto. E me revoltando contra o tempo. Que, ou é muito e me angustia pelo excesso, ou é pouco e me angustia pela falta. Se fosse como Andréa, tenho certeza, não seria só ou, ou. Seria eu.

São cinco horas e Andréa está na Recepção, e eu tenho certeza que olha o relógio e pensa, já só falta uma hora, e fica feliz por faltar tão pouco tempo. São as mesmas cinco horas e eu estou aqui e olho o relógio e penso, ainda falta uma hora, e sei que, numa hora, tudo pode acontecer. Andréa não poder sair às seis e eu ter que esperar ainda mais, ou ela sair às seis e não querer estar comigo. Ou ela morrer, ou eu morrer.

Sei que se vivesse neste quarto, ao invés de só estar aqui, esta janela não seria apenas um buraco na parede. Seria uma ligação e tudo seria diferente. Até os Eduardos que passam nas calçadas eu não quereria que parassem e me olhassem. Eu mesmo iria ao seu encontro. E, assim, talvez até Belo Horizonte deixasse de ser só um monturo de coisas e de ruídos. Mas eu não vivo neste quarto. Apenas estou aqui e a janela é só um buraco na parede. E que não me deixa opção. Ou olho por ela e nada muda, ou não olho e nada muda também.

Mas hoje é véspera de Natal e talvez alguma coisa ainda possa acontecer. Vou cear com Andréa, na casa dela, e talvez este Natal seja o primeiro Natal da minha vida. Nasci no dia 31 de julho de 1991 e o pai de Andréa está na Itália e o meu está morto, e não pode voltar da Espanha e estragar a nossa festa.

 
 

Cunha de Leiradella
Casa das Leiras
São Paio de Brunhais
4830-046 - Póvoa de Lanhoso
Portugal
Telefone: 253.943.773
E-mail: leiradella@sapo.pt

 
 

 

 

 

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