CUNHA DE LEIRADELLA

A SOLIDÃO DA VERDADE

ROMANCE

II PARTE - A SOLIDÃO

Vinte e nove

Ontem quem não quis ver Andréa fui eu. Era domingo e ela estava de folga, mas não tive vontade de encontrá-la. Não estava aborrecido, nem lembrava, sequer, daquela sexta-feira, dia 6. Apenas não quis estar com ela. Quis ficar só. Já tinha passado uma semana e estava tudo bem, e voltamos a sair todas as noites. Só não jantávamos mais na Casa dos Contos, nem na Brunella. Continuávamos indo para a Praça do Papa, mas, agora, jantávamos no Dona Derna. Começamos naquela sexta-feira e fazia uma semana que jantávamos lá todas as noites. Andréa achou bom termos trocado e eu também me habituei ao Dona Derna.

O desejo de ficar só não teve nenhum motivo, nem foi planejado. Simplesmente, apareceu. Mas tão de repente que nem me deu tempo de pensar. Há muito não saía sozinho, nem tinha vontade de sair. A presença de Andréa me bastava e, sair só, deixar de vê-la, era como se roubasse felicidade de mim mesmo. Mas o desejo foi tão inesperado que nem me deixou raciocinar. Naquele momento, ficar só não significou solidão. Antes pelo contrário, significou ficar sem medo. Ficar livre. Por isso, nem parei para pensar.

Levantei mais tarde. Eram pouco mais de sete horas e Andréa só me esperava às dez e meia. Preparei um banho de banheira e mergulhei na água morna. Estava tão bem e tão calmo que nem pensava. Cada gesto era como se fosse um gesto novo, descoberto no momento. Nada me incomodava. Nem os pensamentos, nem o tempo. Deitado na banheira, apenas deitava na banheira. E olhava o teto. Nunca tinha relaxado assim, deixando até de pensar. Principalmente em Andréa e no medo de perdê-la. Naquele momento, só com a cabeça fora da água e com os olhos vagando pelo teto do banheiro, nada existia à minha volta. Nem dentro de mim. Era como se eu estivesse dormindo e, ao mesmo tempo, também assistisse ao meu sono. E foi então que, de repente, sem motivo, nem aviso, o desejo de ficar só apareceu, e a idéia de ir à Casa dos Contos sem Andréa se cristalizou no pensamento.

Depois que conheci Andréa nunca mais saí sozinho e nunca imaginei que pudesse ter vontade. Andréa era o meu mundo e a presença dela a minha proteção. Todas as minhas referências datavam daquela quarta-feira, 31 de julho de 1991, e o ponto de partida era Andréa sentada na minha sala, na minha frente. Se me tivessem dito que, um dia, ainda teria vontade de ficar só, teria rido.

Por isso, nem raciocinei quando o desejo apareceu. Era uma idéia tão absurda, mas, ao mesmo tempo, tão deslumbrante, que me cegou. Foi como se, de repente, todas as paredes ruíssem e tudo ficasse livre à minha frente. E eu pudesse ir onde quisesse, sem medo de me perder e não encontrar o caminho do retorno. Foi a primeira vez que entendi a liberdade. Sempre pensei muito em liberdade, mas sempre tive medo de fazer uma opção. Mas ontem fiz. Não sei se ser livre é assim. Mas deve ser. De repente, me senti capaz de ter vontade e de mantê-la.

Foi um choque. Saí da banheira correndo e liguei para Andréa. Estava eufórico e queria que Andréa também participasse.

- Alô? Andréa?

- Quem deseja falar com ela?

Era a mãe. Andréa atendeu pouco depois.

- Oi. Sou eu. Tava dormindo.

- Desculpa, mas eu precisava te falar. Sabe o quê que eu descobri hoje? Descobri a liberdade.

- Eduardo...

Era difícil explicar, mas Andréa tinha que saber.

- É o seguinte. Hoje, nós não vamos almoçar. Nem jantar, entendeu?

Andréa não respondeu e a linha ficou muda.

- Alô? Andréa?

- Fala. Tou escutando.

- É só isso.

- Isso, o quê?

- Nós não vamos almoçar, nem jantar, hoje.

Nem pude terminar, Andréa desligou. Mas não tinha importância. Eu tinha certeza que ela compreenderia e me daria razão. Se era uma coisa boa para mim seria uma coisa boa para nós. Quanto melhor eu me sentisse melhor ambos nos sentiríamos. Terminei o banho e vesti-me, e nem fiz a inspeção diária do hotel.

Parei na porta e olhei a praça, e nem respondi quando o capitão-porteiro perguntou se eu ia levar o carro. Não sabia para onde ia, mas não estava preocupado. Qualquer lugar seria bom. Não tinha obrigação de gastar tempo, nem me faltava tempo. O tempo, agora, era apenas um pormenor. E o de menor importância. O importante era eu comigo mesmo. Andréa não estava ali, mas era eu que não queria. A opção era minha. Estava bem e estava calmo, e a consciência de estar assim me fazia sentir ainda melhor. Parecia até que era outro. E era mesmo.

Um ônibus passou e eu desci para a calçada, e comecei a caminhar. Fazia sol, mas o asfalto não fervia, nem as pessoas resfolegavam nem corriam, e até os carros e os ônibus se integravam na paisagem. Ou então era eu que me integrava. Desci a rua, indiferente ao peso dos edifícios e ao desconhecido das esquinas, como se fosse um turista ou um mendigo. Não tinha destino, nem hora, e só estava ali porque queria estar ali. Sabendo que aquele era o meu lugar e a minha vontade era só minha, e nada podia modificá-la.

Naquele momento, a Praça Afonso Arinos não era só a Praça Afonso Arinos. Era também o meu lugar e era bom estar ali. Mas, se estivesse em qualquer outro lugar, tenho certeza, também seria a mesma coisa. Naquele momento, qualquer lugar seria o meu lugar. Era como se Belo Horizonte tivesse ficado diferente, embora não estivesse diferente. Eu é que estava diferente.

Acendi um cigarro e puxei uma tragada, e até o fumo pareceu mais agradável. Em boa hora tinha trocado o Benson pelo Marlboro. Estava na esquina da Avenida Alvares Cabral com a Avenida Afonso Pena, e o Parque Municipal ficava do outro lado. Já o tinha visto muitas vezes das janelas do hotel, mas nunca tinha entrado. Olhei o relógio. Nove e dez. Joguei o cigarro na calçada e atravessei a Avenida Afonso Pena. Pessoas entravam e saíam do parque, com crianças e carrinhos, e compravam sacos de pipoca. Comprei um também e entrei. Nunca tinha comido pipoca. Nos cinemas onde eu ia não havia pipoqueiros. Mas senti-me ainda mais livre por fazer uma coisa que nunca tinha feito.

Parei na alameda da entrada e olhei as aléias marginadas de árvores e arbustos. Segui por uma, ao acaso, e desci, e parei junto do lago. Não gosto de mar, a planura sem fim me angustia, mas sempre gostei de rios e ribeiros. Na minha terra tinha muitos e eu gostava de sentar junto da água e olhar o fundo, e imaginar o que faria se fosse peixe. Se pudesse respirar dentro da água não me preocuparia com mais nada. Levaria a minha mãe e ninguém perguntaria quem nós éramos. Peixes não falam.

Comi a pipoca e acendi um cigarro, e esqueci o asfalto da cidade. Olhei a água e não consegui ver o fundo, mas havia peixes e patos nadando junto da mureta. Não senti vontade de ser um daqueles peixes. Estavam presos. Mas gostei de estar ali. No meio do lago tinha uma ilha com pombais, e os pombos esvoaçavam e pousavam nas entradas das casinholas. Joguei o cigarro no chão e subi pela encosta, e sentei junto de uma árvore. Lá em baixo, as crianças brincavam nas quadras de cimento e nos canteiros, e os adultos passeavam ou sentavam na relva. Encostei a cabeça no tronco e fechei os olhos, e deixei o corpo relaxar. Era bom estar ali. Não estava com Andréa, mas era como se estivesse. Mesmo estando só não estava mais só. Estava livre. A pouco e pouco o mormaço me rodeou e o corpo repousou. Adormeci.

- O senhor tem fogo?

Era uma moça com um cigarro na mão.

- O senhor tava dormindo? Desculpe, viu?

- Não. Não. Não tava, não.

A moça aproximou o cigarro. Acendi o isqueiro e ela curvou-se, e os seios apareceram. Não usava sutiã e os seios eram grandes, cheios, muito brancos e redondos, e a minha mão tremeu e ela teve que segurar o meu pulso. Com o gesto, os seios abanaram e a minha garganta contraiu-se. A moça puxou uma tragada e sorriu.

- Brigada. E desculpe, viu?

Não consegui responder e ela endireitou-se, e os seios abanaram outra vez. Engoli em seco e a garganta rascou e os ouvidos começaram a zumbir, e um desejo furioso de pegar aqueles seios levantou as minhas mãos. Fechei os olhos e cerrei os dentes e tentei baixar as mãos e elas pularam na minha frente e não baixaram e agarraram os seios e a moça riu e tirou a camiseta e os seios abanaram e ela levantou-os e uniu-os e eles ficaram ainda maiores e mais cheios e a minha garganta doeu e os ouvidos zoaram e ela tirou as mãos e curvou-se e eles abanaram outra vez e eu peguei-os e beijei-os e ela gemeu e apertou a minha cara contra eles e o coração disparou e a nuca estalou e a cabeça estourou e o sexo explodiu, e os olhos apagaram e mergulharam em milhões de fagulhas coloridas.

O suor escorria pelo corpo e os dentes batiam, e milhões de besouros cavoucavam nos ouvidos. Cravei os dedos na terra e respirei fundo, e escorei o corpo na árvore. Não sei quanto tempo passou até que tudo serenasse e eu pudesse abrir os olhos. A moça não estava mais na minha frente e tudo estava como sempre tinha estado. As crianças brincando nas quadras de cimento e nos canteiros, e os adultos passeando ou sentando na relva.

Saí do parque correndo e só parei no meu quarto. Tremendo, meti-me debaixo do chuveiro e deixei a água escorrer até a pele enrugar. A certeza de ter pegado aqueles seios apavorou-me. Engoli três Lexotan e deitei-me, mas o medo continuou. Agora, ou eu ficava de vez com Andréa, ou não tinha solução. E quanto mais pensava nisto mais apavorado me sentia. E se Andréa não quisesse? Eu voltaria às vias-sacras e aos cinemas ou mergulharia na banheira e engoliria um vidro de calmantes? Ou entraria na Avenida Afonso Pena na contramão e fecharia os olhos, ou daria um tiro no ouvido? Suando frio e tremendo, peguei o telefone. Andréa tinha que querer.

- Alô? Andréa? Não sai, não. Tou indo praí.

- Quê que foi, Eduardo?

- Não sai, não. Me espera. Tou indo praí. Agora.

Sei que Andréa tem dezenove anos e eu tenho cinqüenta e sete, mas não me importo. O tempo que há de vir não me interessa. Eu preciso de Andréa é agora. A moça do Parque Municipal pode estar à minha espera em qualquer esquina ou até dentro do meu quarto.

Naquela sexta-feira fomos dormir no Green Park. Andréa despiu-se e também me despiu, e deitou a minha cabeça no colo dela. E conversamos. Só muito depois é que deitamos. Mas se não tivéssemos deitado teria sido a mesma coisa. O importante foi esquecermos o que tinha acontecido naquela tarde.

- Por quê que você não volta a Portugal?

Não respondi. Não precisava responder. Agora, não precisava mais da minha mãe. Andréa abriu as coxas e ajeitou a minha cabeça no meio delas e começou acariciando o meu cabelo.

- É grande?

- O quê?

- A sua fazenda.

- Mais ou menos. Mas por quê que você tá perguntando? Você nunca quis saber.

Andréa riu e deu uma palmada na minha testa.

- Não posso ficar curiosa, não?

Curvou-se e beijou-me, e os seios comprimiram-se nas minhas mãos. Fechei os olhos e deixei aquele calor penetrar na minha pele. Se me tivessem dito que, um dia, ainda teria uns seios como aqueles, comprimidos nas minhas mãos, teria rido. Devagar, Andréa rodou o corpo e deitou-se, e ajeitou o meu em cima dela. Abriu as pernas e guiou o meu sexo com a mão, e apertou os braços contra o corpo e uniu os seios, e puxou a minha cabeça contra eles. Não. Eu não voltaria a Portugal. Tudo que eu precisava Andréa tinha.

Não sei e, provavelmente, nunca saberei como e por que me transformei tanto, e tão profundamente, naquele 31 de julho, na minha sala. Sempre desejei ter alguém junto de mim e, com isso, matar os meus fantasmas. Mas nunca tinha imaginado que o desejo não fosse só desejo, fosse obsessão. Mas era. Quando Andréa saiu da minha sala já a falta dela me doía. E dói até hoje, sempre que eu estou longe dela.

Por isso, ontem de manhã, quando o desejo de passar o dia só apareceu, o meu assombro foi tão grande. Foi como se tudo à minha volta fosse escuro e eu não soubesse o que era luz, e, de repente, um flash estourasse nos meus olhos. Mas, ao invés de me cegar, me desse luz própria e me fizesse iluminar tudo à minha volta. Foi uma revelação. Num segundo nem pensava e no seguinte já sabia. O meu medo não tem mais sentido e a falta não é mais falta. Antes pelo contrário, passar o dia só me fará bem.

Foi a minha primeira liberdade. E sentir-me livre foi um verdadeiro despertar. Num bilionésimo, eu sou o que quero ser e a minha vontade é que decide, e nada pode destrui-la. Tudo à minha volta existe em função de mim e qualquer lugar será o meu lugar. O meu equilíbrio interior é que molda a realidade que me cerca à realidade que eu vivo, e as coisas são o que são porque eu sou o que sou. Não sou eu que sou o que sou porque as coisas são o que são.

Mas deslumbrei-me tanto e sublimei tanto a sensação que tomei como absoluto o que era apenas relativo. Naquele momento, tinha tanta certeza que era que agia como se fosse realmente. E esse foi o meu erro. Na verdade, eu não era. Eu só estava. E essa foi a diferença. Se você fala com Deus, você está rezando. Se Deus fala com você, você é louco.

Cheguei à Rua Ramalhete nem sei como. Saí pela Rua Goiás e subi reto, e todas as ruas tinham a minha direção. Sem cruzamentos e sem sinais, e nenhuma era contramão. Andréa já me esperava na calçada.

- Quê que foi, Eduardo? Você tá bem? Tou assustada.

- Tou. Tou bem. Mas nós temos que casar.

 
 
 

Cunha de Leiradella
Casa das Leiras
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