CUNHA DE LEIRADELLA

A SOLIDÃO DA VERDADE

ROMANCE

I PARTE : A VERDADE

Hoje é domingo e já é noite e ainda estamos no motel e continuamos sem falar e o quarto cheira a sexo e a suor e a fumo de cigarro e eu olho os espelhos do teto e vejo Andréa deitada do meu lado e os pêlos do sexo mal se vêem e o cabelo parece sangue manchando o travesseiro e quero fumar e lembro que Andréa gosta de Marlboro e não tenho mais vontade e as minhas mãos me dão um Benson e eu puxo uma tragada e fico satisfeito e lembro da Casa dos Contos e do almoço e de Andréa olhando para mim e eu estava bem e estava calmo e nem lembrava mais da minha mãe e do nosso casamento e Andréa levanta-se de repente e eu não entendo e pergunto e ela não diz e pega a bolsa e sai correndo e eu fico sem saber o que fazer e vou atrás e ela já está junto do carro e eu pergunto outra vez e ela não responde e entramos no carro e eu não sei para onde ir e subo a rua e um carro passa e buzina e foda-se vou atrás dele e ele segue pela BR e passa pelo Shopping e entra no desvio dos motéis e eu também entro e não era o que eu queria o que eu queria é que Andréa pegasse na minha mão e me deitasse no colo e ela não entende e pede uma suite e vai na frente e abre as torneiras da banheira e despeja os sais de banho e liga a hidromassagem e o rádio e pede uma cerveja e um maço de Marlboro e despe-se e entra na banheira e os seios cobrem-se de espuma e abanam com a água e não sinto vontade de pegá-los e Andréa não entende e fica rindo e a campainha toca e ela pega a cerveja e o maço de Marlboro e enche o copo e bebe e volta a tomar banho e a água transborda e escorre pelos ladrilhos e eu lembro da minha mãe tomando banho e saio do banheiro e sento na cama e acendo um cigarro e puxo uma tragada e o fumo amarga e não quero mais fumar e sinto vontade de ir embora e levanto-me e lembro da moça do Parque Municipal e dos seios abanando e tenho medo de encontrá-la e desligo o rádio e deito-me e procuro relaxar e fecho os olhos e Ana Carolina e Walkiria e Inês de Castro e Andréa começam a dançar e os seios estão nus e são os seios da minha mãe cobertos de espuma e abanando e ela ri e diz, meu menino, meu menino, deita a cabeça no meu colo, e esfrega as coxas e os seios e a espuma escorre pelo corpo e a minha garganta aperta e dói e os ouvidos começam a zumbir e eu quero levantar e as minhas mãos não deixam e pulam nas minhas pernas e cravam as unhas nas minhas coxas e quero fugir e não posso e tenho medo e abro os olhos e as minhas mãos estão rindo e apontando os espelhos do teto e eu vejo o meu corpo grudado lá em cima e tenho medo que ele caia e peço que elas o segurem e elas riem do meu pedido e escondem-se no lençol e eu quero erguer os braços e elas prendem-me na cama e peço a Deus que me ajude e segure o meu corpo nos espelhos se ele cair eu tenho que subir e ficar no lugar dele e se ficar no lugar dele não poderei mais ficar na cama e se não ficar na cama não poderei estar no quarto e se não estiver no quarto Andréa não estará no banheiro e Andréa está no banheiro e está tomando banho e não sei o que fazer e peço às minhas mãos que me soltem e elas riem e sobem na parede e levanto os braços e os braços não têm mãos e não alcançam os espelhos e quero pegar as minhas mãos e elas continuam subindo na parede e o meu corpo começa a balançar e a cair e tenho vontade de gritar e as minhas mãos descem e tapam a minha boca e eu tenho medo de morrer e peço a Deus que me ajude e o meu corpo gruda nos espelhos e não cai e fico bem e fico calmo e começo a relaxar e as minhas mãos puxam o meu corpo e ele começa outra vez a balançar e a cair e eu quero segurá-lo e não posso e sei que vou morrer e fecho os olhos e espero e não morro e abro os olhos e o meu corpo ainda está grudado nos espelhos e fico bem e fico calmo e tenho certeza que não preciso mais das minhas mãos e sei que nada mais poderá mudar dentro do quarto e mesmo que eu morra haverá sempre duas camas uma no chão e outra nos espelhos e bastará ficar um corpo numa delas para Andréa pegar na minha mão e eu deitar a cabeça no colo dela e quis pensar no colo dela e nos seios abanando e não consegui pensar em nada e tive medo de não pensar mais nada e pedi a Deus que me ajudasse e os olhos desceram dos espelhos e o meu corpo veio junto e ficou flutuando sobre mim e não caiu e eu fechei os olhos e vi Andréa e os seios abanando e fiquei bem e fiquei calmo e tive certeza que tudo aquilo era verdade e se virasse de bruços e olhasse o mundo do outro lado tudo dentro do quarto mudaria e o meu corpo ficaria suspenso sobre o chão e o chão ficaria suspenso sobre a cama e a cama ficaria suspensa sobre o teto e o teto ficaria suspenso sobre o telhado e o telhado ficaria suspenso sobre a terra e a terra ficaria suspensa sobre o céu e o céu ficaria suspenso sobre Deus e Deus ficaria suspenso sobre nada e nada ficaria suspenso sobre mim e eu ficaria suspenso sobre tudo e as minhas mãos seriam minhas e obedeceriam sempre às minhas ordens e eu governaria o tempo e o espaço e seria o que sempre pensei ser e nada poderia matar-me e mesmo que me matassem eu não poderia morrer porque estaria suspenso sobre tudo e a morte não é tudo e fiquei bem e fiquei calmo e tive certeza que as minhas mãos já eram minhas e já obedeciam às minhas ordens e dependia só de mim virar de bruços e olhar o mundo do outro lado e inverter a ordem do tempo e do espaço para ser tudo que quisesse e olhei as minhas mãos e elas concordaram e mostraram os dedos já prontos para agarrar o momento que passava e eu tive certeza que quando virasse de bruços e olhasse o mundo do outro lado tudo seria como eu sempre quis que fosse e Andréa me quereria e pegaria na minha mão e diria, meu menino, meu menino, deita a cabeça no meu colo, e seriamos mais felizes do que Deus e Deus e Deus e um arrepio de prazer sobe dos pés e rebenta na cabeça e eu me sinto flutuar e tenho certeza que já chegou a hora de virar e paro de pensar e concentro-me e o som do rádio explode nos meus ouvidos e as minhas mãos assustam-se e cravam as unhas nas minhas coxas e eu grito e abro os olhos e Andréa está na minha frente e está nua e eu sei que não posso mais virar nem olhar o mundo do outro lado.

 
 

Cunha de Leiradella
Casa das Leiras
São Paio de Brunhais
4830-046 - Póvoa de Lanhoso
Portugal
Telefone: 253.943.773
E-mail: leiradella@sapo.pt

 
 

 

 

 

.

 

 

 


hospedagem
Cyberdesigner:
Magno Urbano