APENAS QUESTÃO DE GOSTO
Romance

INDEX

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Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8

Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11

Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14

Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17

Capítulo 6

Cap. VI: Index:

QUEM É QUEM NUM FILME
Epístola de S. Mora
Dizem que...
O GRANDE CIDADÃO E A LENDA DO CURURU VOADOR

O GRANDE CIDADÃO E A LENDA DO CURURU VOADOR
Roteiro cinematográfico original
de Ximenes Paraguaçu
15º tratamento

1
Tela escura e silenciosa. De repente, acordes estridentes da Procissão da Cruz, da Suíte Nº 4 de Villa-Lobos, para coro e orquestra, terminando com o primeiro canto das vozes masculinas: Cruz! Cruz! Cruz! Num lento fade in, começa aparecendo a primeira imagem, que mostra os cipós entrelaçados de uma floresta tropical, envoltos por vapores muito densos. É noite.

É sobre esta imagem que se inscreve o título do filme: O GRANDE CIDADÃO E A LENDA DO CURURU VOADOR.

Corta para um lago cheio de sapos, coaxando, rodeado de palmeiras e com as margens também envoltas em vapores muito densos. Close-up de um sapo enorme, completamente imóvel em cima de uma folha de vitória-régia, no meio do lago. É o Cururu Voador. Novo close-up da cabeça do sapo, seguido de outro close-up do olho esquerdo. A câmera aproxima-se, parecendo que vai atravessar o olho. Freeze da imagem. Fade out.

Com a tela ainda escurecida e silenciosa, escutam-se, de repente, os primeiros acordes de O Canto da Nossa Terra, das Bachianas Brasileiras Nº 2 de Villa-Lobos, para grande orquestra. Num fade in também lento, começa aparecendo a imagem de um lago, no meio de um jardim bem cuidado, onde nada um casal de cisnes negros. Junto do lago, sobre a grama bem aparada, vê-se um homem parado, absolutamente imóvel, olhando fixamente a linha do horizonte.

Inscritos sobre esta imagem, começam aparecendo os créditos iniciais do filme.

A câmera aproxima-se do homem até se poderem ver, perfeitamente, as suas feições. É um homem de pouco mais de trinta anos, vestido de fraque e cartola, olhos penetrantes e vivos, nariz perfeitamente aquilino, queixo grande, indicando voluntariedade, e pele lisa, sem rugas e sem barba. É o Grande Cidadão. Close-up do homem, seguido de outro close-up do olho esquerdo. A câmera aproxima-se, parecendo que vai atravessar o olho. Freeze da imagem. Fade out.

2
Boudoir de Florismália, esposa do Grande Cidadão. Peça decorada com extremo bom gosto, onde predominam os tons arroxeados do lilás, contrastando com o tom marfinesco dos móveis e das molduras dos quadros. É dia. Silêncio. Pianíssimos, escutam-se os primeiros acordes do Estudo Nº 1 de Villa-Lobos, para violão. A porta abre-se e entra Florismália. É uma mulher jovem, belíssima, de um louro acetinado, e veste um peignoir de seda lilás. Fecha a porta, dirige-se à janela, abre as cortinas e olha para fora durante alguns instantes. De repente, volta-se, cobre o rosto com as mãos e deixa-se cair na chaise-longue, de frente para a penteadeira. Tira as mãos do rosto e olha fixamente a própria imagem, refletida no espelho. A câmera, lentamente, sai de Florismália e fixa a sua imagem refletida no espelho.

FLORISMÁLIA

(voz entrecortada)

Não é possível! Assim, não é possível! Se continuar assim, eu juro, eu me matarei!

Florismália fecha os olhos durante alguns instantes e, de repente, levanta-se, nervosa. Num gesto brusco, abre o peignoir, despe-o e olha fixamente a imagem do seu belíssimo corpo nu, refletida no espelho. A câmera recua, lentamente, e sai da imagem de Florismália, refletida no espelho. Sempre lentamente, aproxima-se da janela e mostra, através dos vidros, ao longe, o Grande Cidadão no jardim, parado junto do lago onde continua nadando o casal de cisnes negros, absolutamente imóvel, olhando fixamente a linha do horizonte. Fade out.

Puta que o pariu! Quando me contaram que um tal de Irving Thalberg, mandachuva da Metro-Goldwyn-Mayer, meteu o pé na bunda do assistente que recusou um roteiro passado em Paris e onde um casal se beijava, iluminado por uma lua brilhando sobre o mar, dizendo que não mudaria a cena só porque meia dúzia de parisienses conheciam Paris e sabiam que lá não tinha mar, eu não acreditei. Que Hollywood ainda diga que a capital do Brasil é Buenos Aires, vá lá, isto aqui é filial e ninguém discute as ordens da matriz. Até os barnabés da Organização dos Estados Americanos sabem disso. Afinal, a OEA começa na ponta Barrow, no Alaska, e termina no cabo Horn, na Patagônia. Agora, pegar Paris e botá-la junto de Los Angeles ou de Miami, não seria só catar a maior briga com a turma do Asterix, seria também fabricar o maior cataclismo depois que o Senhor tirou o Adão e a Eva do bem-bom do Paraíso.

Mas tudo bem. A percalina do grande cidadão não era minha e se o 15º tratamento do Ximu botava cisnes negros nadando nas minerais de Caxambu, o problema também não era meu, era da Sociedade Protetora dos Animais. E do scenic artist, que tinha de se virar numa boa tinta lavável para empretar os coitados dos marrecos.

O que me fez dar uma trava na leitura não foi o fricote da belíssima Florismália, nem o fraque e a cartola do grande cidadão. Foi a garrafa do Ballantine’s que parou, de repente, de turbinar as fontes geradoras. E sem o muque do George Ballantine And Son Ltd empurrando a carroça da leitura, nem o meu Santo Expedito das causas urgentes e dos negócios que precisam de pronta solução me faria mergulhar no lago do cururu. Coragem, já lá dizia meu velho pai e dizia muito bem, é que nem beata em confissão. Se o padre não for surdo não tem penitência que dê jeito.

Mas jeito é jeito, e não é à toa que o Brasil é o país do jeitinho. Tudo tem solução desde que o cheque seja ao portador e tenha fundos, que sigilo bancário não é louça e não quebra que nem porcelana de embeurrée. Sem nenhum trauma visível ou marimbando nos baixios, larguei a percalina na poltrona e fui compensar a parada das fontes geradoras no cardápio do restaurante. Quem sabe, no meio dos embeurrées d’escargots dos cururus apareceria outra sobremesa além do inevitável queijo com goiabada?

Na mosca. Mal adentrei o salão, não é por nada, não, mas tem certas palavras que merecem até títulos de cidadãos honorários, e o verbo adentrar é uma delas. Quem adentra, é que nem quem entra duas vezes e finis. Não precisa explicação ou circunstância. Adentrado o salão, o mais difícil foi a escolha da mesa, todas redondas e quase todas ocupadas. Agora, sobremesa e badulaques assemelhados era o que não faltava no samburá do pé-direito do pinípede. Com tanto batom e meia-calça rodeando o quadrado da largura, parecia até mais um harém em função de do que um simples jantar perfunctório.

Não sentei junto, claro, apesar do convite mais do que sorridente das iscas dos anzóis. Além de dar bandeira não ser o meu abano preferido, tinha também aquela do jornalista que é jornalista não mistura fatos com fac-símiles. Mas fiquei de olho nos batons. Se o meu Santo Expedito estivesse a fim, seria mais do que fácil separar o trigo do centeio. Afinal, com sete bigodes na cerca do vizinho e meia dúzia de batons a servir de circunstância, só mesmo o mais desnaturado pé-de-cabra me faria escolher a meia-calça que mijava no tálamo do nº 5 do Chanel.

Eu não era marinheiro e aquele também não era o meu primeiro gole de água doce. Muito à la chefe do cerimonial da Presidência, escolhi as calorias mais adequadas ao preceito de uma futura sobremesa em vale de lençóis e tratei de manducar. Quando o indefectível cascão da goiabada pintasse na porta das grandes cerimônias, eu me levantaria e sairia. Aquele batom que também precisasse tomar ar e me seguisse, seria a minha estrada de Damasco. Se ninguém estivesse no sufoco, paciência. Querer é verbo, não é fato. Como muito bem dizia o velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e meu falecido tio e padrinho, se jogo ganhasse torcida, Portugal inteiro sentaria nas arquibancadas da nau São Januário, o Vasco da Gama luzindo pois, pois e gols no meio do gramado.

Para azar da minha paciência nenhum batom cascou fora da vitrine e eu fiquei na varanda pescoçando as estrelas do Cruzeiro do Sul até o nó da vista pinicar na paciência. Das três, uma. Ou o pescador de robalos tinha mais cadeados cuidando da vitrine, ou eu não tinha um nariz perfeitamente aquilino e não me enquadrava no 15º tratamento do roteiro do Ximu, ou a maior parte daquelas meias-calças era mais calça do que meia.

Como era o primeiro Terra à Vista! daquele Monte Pascoal caxambuense, não me impressionei com o berro sem efeito do grumete e deixei o marfim rolar pelos ladrilhos. A ver pelo tamanho do fricote da belíssima Florismália, o grande cidadão ainda daria muito espirro antes de adentrar o boudoir. Portanto, nem sim, nem não, muito antes pelo contrário, era apenas questão de manter a espera em ponto de cuscuz. Com tantas meias-calças trepando nos cipós, algum dia, alguma delas seria dispensada da função plantonista e eu era novidade no quartel.

Dizimados dois souza cruz com meia dúzia devagar-se-vai-ao-longe, deixei o Cruzeiro do Sul navegar nas fissuras da gramática, adentrei o quarto, pedi um Ballantine’s lacrado e dispus-me a terminar a garrafa junto com a leitura. Ou vaice-virsa, que grande cidadão ou cururu voador, a diferença eram só os tons arroxeados do lilás do boudoir da belíssima Florismália. E mandei brasa. Não era nada, não era nada, sempre seria um bom papo geográfico conhecer aquele tal de país imaginário que fazia do charuto do velho Villa-Lobos a batuta da sua trilha sonora.

 

Cunha de Leiradella no TriploV

 
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