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APENAS QUESTÃO DE GOSTO
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Capítulo 2 |
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Seiscentos marechais são seiscentos marechais e nem o, dizem que conquistador do império britânico, presidente vitalício da república, comandante-chefe das forças armadas, presidente do conselho da polícia e das prisões, marechal doutor Idi Amin Dada teria tido peito de jogar no lixo tantas continências e medalhas, mesmo que tivesse feito de Uganda um modelo de democracia aplicada. E muito menos eu que, nos meus tempos de reco, sempre bati as continências devidas aos santinhos. Afinal, três milhões de cruzeiros novos são três milhões de cruzeiros novos, e se não compram nem uma passagem aérea para essa tal de Serra do Gerês, que meu falecido pai tanto falava, compravam, pelo menos, algumas caixas de Ballantine’s ou davam uma geral na maquiagem do Turbo do meu Porsche. Com a mesma moral com que o glorioso Vasco da Gama se preparou para ancorar as caravelas de São Januário na Rua Álvaro Chaves e perdeu o título de campeão brasileiro de 1984 para o Fluminense pó-de-arroz das Laranjeiras, mesmo com os 16 gols do Roberto Dinamite, peguei a pule das apostas do vestibular da Metro-Goldwyn-Mayer & Cia e dispus-me a fazer com a curiosidade daquela Lassie à la Nunca Fui Santa o que o Paolo Rossi fez com a seleção brasileira na copa de 1982. Esquecer a beleza do futebol dos canarinhos e o que afirmavam os doutores dos gramados, e levar para a Itália o caneco do tricampeonato mundial. Eu não morava em Roma, morava na Tijuca, mas tinha na garagem um Porsche Turbo 3000 que bebia mais gasolina do que eu bebia de Ballantine’s, e as minas do calçadão da fama da Avenida Atlântica também não rolavam de graça nos lençóis da minha cama. Portanto, como dizia meu velho pai e isso ele dizia melhor do que ninguém, se são os meios que justificam os fins, são os fins que justificam as vitórias. E vitória por vitória, que melhor viva eu do que aquelas diárias à la taifeiro da marinha do Tio Sam pago em dólar? Apesar de sentar nas arquibancadas do Jóquei e cravar nas ferraduras dos pangarés um pelotão de barões, ou até de marechais, todas as semanas, quando o taramela à la circo de cavalinhos de São João das Antenas começou a narrar o páreo daquele vestibular, a velocidade foi tanta que nem antena de morcego conseguiria captar a transmissão. Tirando ou um outro nome mais conhecido, o resto foi latim de ladainha cantochada em missa de três em renge. Com o fedor do alcatrão do asfalto da Avenida Rio Branco já senhor de todas as frestas das janelas e frinchas do assoalho, acendi um souza cruz e deixei o oco dos pulmões escolher a tragada que mais lhe conviesse. Borrifadas as frestas e as frinchas com a essência nº 1 da British American Tobacco, senti-me pronto para o combate e meti o olho na lista das questões com a mesma atenção com que um juiz botaria num microscópio a fotografia de um lençol e atos conseqüentes, apresentado como prova de adultério. As questões eram onze e estavam dispostas nas pautas da folha como se fossem as notas musicais de uma marcha militar. Compasso binário de pergunta e seqüência, e cadência de ordem alfabética.
Dizem que o que mais agoniou o vice-presidente Pedro Aleixo não foi a Junta Militar ter impedido que ele assumisse a Presidência da República, vaga com o afastamento do marechal Costa e Silva, foi a pergunta do porteiro do Palácio do Jaburu: E agora, doutor, o quê que eu faço com o correio? O senhor vem apanhar ou eu mando de volta aos remetentes? Eu não era vice-presidente, nem estava impedido de assumir fosse o que fosse, mas mesmo com a agonia tocando sinos no campanário dos adeuses, tive que reconhecer, investigador particular é uma merda. Rala mais do que puta de esquina diplomada em Kama Sutra. E por mais posições que conheça, tem sempre um cliente que conhece muitas mais. Eu sabia o que o Humphrey Bogart fazia em Relíquia Macabra e À Beira do Abismo, o que o Roy Scheider fazia em O Abraço da Morte, o que o Robert Mitchum fazia em Adeus, Querida, o que o Clint Eastwood fazia num porrilhão de filmes, desde Por um Punhado de Dólares até Firefox, a Raposa de Fogo, o que o Dustin Hoffman fazia em Todos os Homens do Presidente, o que o Alain Delon fazia em Boomerang, o que o Michael Caine fazia em Vestida Para Matar, o que a Faye Dunaway fazia em Uma Rajada de Balas, e também sabia o que havia dentro daquele baú em Elas São do Baralho ou em que filmes o Roberto Carlos tinha canastrado. Agora, daquela listinha fajuta, não sabia nem que a polícia do Rio de Janeiro se dava ao trabalho de investigar crimes, quanto mais crimes misteriosos. Das três, uma, meu Chanel. Ou eu, ou aquela Lassie metida à la Nunca Fui Santa, não pescávamos merda nenhuma de cinema, ou ela não me tinha nem pedido recibo do sinal só para poder cancelar o cheque e me deixar com mais água na boca do que baleia mandando ver um polimento na dentina. Mas ela nem sonhava de quem eu era filho. O velho Eduardo da Micas do Ferreiro entendia muito mais de canídeos do que todos os diplomas do presidente do International Kennel Club poderiam imaginar. Quem não tem cão vive sem ele, viu nº 5? Já tinha caçado milhões de totós perdidos no Aterro do Flamengo e encruzilhadas circundantes, mas nunca tive nenhum Rin-Tin-Tin me lambendo a ponta do nariz, e não era agora que ia arrumar um que me farejasse uma saída. Eu também tinha um rino da melhor qualidade e era craque em fariscar. E uma coisa era certa. Se não estava a fim de perder aquelas caixas de Ballantine’s ou a maquiagem do Turbo do meu Porsche, estava muito menos a fim de ser feito de idiota. De jeito maneira, viu, ó luz que não é tão linda e só emana de um foco luminoso para seguir uma trajetória reta em determinada direção? O balão destas considerações de emputecimento à la razão justificada foi, de repente, estourado no melhor estilo some seu mané por um trovão que reduziu a pó de peido as asas dos mosquitos e os capacetes dos centígrados. Um coro mais desafinado do que gogó de camelô apregoando galos garnisés, mas mais potente do que o reator enguiça-enguiça da Usina Nuclear de Angra dos Reis, marchava no alegro Um, cem, mil, viva Tancredo Neves, presidente do Brasil!, Um, cem, mil, viva Tancredo Neves, presidente do Brasil!, amassando o asfalto da Avenida Rio Branco que nem os padeiros dos conventos militares amassavam corações e mentes no fermento do general Emílio Garrastazu Médici, presidente da República e ex-futuro técnico da seleção brasileira de futebol por via do lero-lero do Dadá Peito de Aço ou Maravilha e cofre-forte das torturas previstas no modelo militar da nova democracia brasileira. Quando me contaram que o último tango foi dançado em Paris pela peituda Maria Schneider com a mão metida na maior cumbuca de manteiga, eu não acreditei. E não acreditei, não por causa da manteiga. Adoro uma média bem cubada no leite e no café e um pão amanteigado no capricho, mas tango sempre foi tango e em Paris só teve foi guilhotina. Que o descamisado general Domingo Peron, coronel à la punta de los chifres da Evita e da Estelita preferisse os embeurrées d’escargots dos bancos suíços à cana brava dos melindres argentinos, até que dava para entender. Afinal, o rei Pelé foi ganhar dinheiro no New York Cosmos e também não perdeu a majestade. Agora, que o champanhe Georges Pompidou trocasse a vista da Torre Eiffel pelo capim dos pampas austrais, podes crer, amizade, só podia ser fofoca do macarthista Richard Nixon para botar o Leonid Brejnev sambando na Avenida Presidente Vargas de Moscou. Mas já que Paris queria mandar nos tangos e a Lassie à la Nunca Fui Santa mandava nos jabaculês das minhas diárias à la taifeiro da marinha do Tio Sam pago em dólar, pelo menos o alegro Um, cem, mil, viva Tancredo Neves, presidente do Brasil!, Um, cem, mil, viva Tancredo Neves, presidente do Brasil!, navegava muito melhor no asfalto da Avenida Rio Branco do que o porta-aviões Minas Gerais navegava no cocô dos mangues da Praia de Ramos e outros mares nunca dantes navegados. Pelos vistos, apesar do sal da manteiga da tal Maria Schneider, o rei Artur do Colégio Eleitoral sagrara campeão do torneio o cavaleiro da Távola Sempre-Em-Cima-Do-Muro. O que era ótimo, pois assim se acabava a guerra entre o governo, que dizia que o Brasil era uma república democrática, e os eleitores, que eram obrigados a engolir os pirulitos biônicos dos senadores nomeados por Brasília. O que, apesar de todos os benefícios decorrentes de uma boa causa ou de um bom enxerto de porrada, de nada adiantava na resolução do meu problema. Tirar nota 10 na merda daquele vestibular da Metro-Goldwyn-Mayer & Cia. Sem ouvido musical capaz de distinguir um tom maior de um tom menor e também sem vontade de mergulhar o suor na essência de alcatrão do asfalto da Avenida Rio Branco, resolvi acompanhar, apesar do pelotão dos centígrados bivacado nos vidros das janelas, o canto daquele coro do jeito mais adequado às minhas deficiências musicais. Cubei um Ballantine’s à caubói muito no capricho e mandei pela goela um brinde ao muro do cavaleiro campeão. Reconfortado com a idéia, com o gesto e, principalmente, com o blended & bottled by Distillers Dumbarton, Scotland, senti-me também um campeão. Se um Sempre-Em-Cima-Do-Muro tinha vencido os dragões da maldade Do-Lado-Mais-Direito-Do-Muro, por que é que eu não poderia vencer também as quizilices de uma simples Lassie, mesmo estofada e perfumada à la Nunca Fui Santa? Ponto, pt, saudações, e toca a descolar um jeito de entrar na faculdade. Compêndios de onde pudesse bifar as respostas às questões vestibulares, neca. Ali no estaminé, para dar um certo ar de seriedade à cor local, uma Bíblia e uma História do Brasil, daquelas de coleção a prestação, capas de couro mais falsificado do que Rolex suíço vendido em camelô, e, para engabelar os relatórios mais posudos, uma Gramática da FENAME, aquela da Fundação Nacional de Material Escolar, e um Dicionário do Aurélio. Em casa, Almanaques Abril e Guias Quatro Rodas, o ai-jesus da minha santa mãe que Deus tenha, um calhamação de Anjos, Santos e Orações Para Todos os Dias do Ano, e, na cabeça, uma ou outra decoreba dos tempos do colégio. Fora disso, e tirando uma razoável coleção de revistas de sacanagem, o Levantado do Chão, do português José Saramago, e O Convidado, do mineiro Murilo Rubião, ambos presente de um amigo de Belo Horizonte. Amigo, assim, me prestou um favor que nunca lhe paguei e quase me reconciliou com a leitura, briga que vinha dos tempos do colégio e da decoreba das duzentas mil páginas de A Retirada da Laguna. Mas, já lá dizia meu velho pai e dizia melhor do que ninguém, quem não chora não fica com olheiras, e eu detestava olho empapuçado ou peixe-morto. Portanto, mais um brinde à arbitragem do Colégio Eleitoral, e vamos à caixa-forte do banco. Fechado o estaminé e avisado Seu Manuel Joaquim, o velho português que arrancou a pena do ganso com que o Pero Vaz escreveu e juramentou aquela carta que nunca chegou à Praça XV, quinhentos anos de porteiro, faxineiro, bombeiro, pombo-correio e diretor de reportagem da Rádio Portaria, não fosse o foco luminoso inventar uma trajetória mais do que reta na direção do cheque do sinal, e lá vou eu xeretar o segredo da caixa-forte do banco, a gabardine e o chapéu do Humphrey Bogart complementando o meu disfarce de vigia dos cofres do Central Intelligence Bank, e o velho Taurus .38, cano longo, suando no sovaco dos 212 graus farenheit da Lauren Bacall. A caixa-forte recebia convidados na certidão de batismo do cidadão José Espínola de Morais Sarmento, Mora para os vizinhos do sexto tiro-curto, um chope enxertado num galão de calibrina, ex-tudo em todos os jornais do Rio de Janeiro e meu cupincha desde que servi o primeiro cafezinho ao delegas da 9ª DP da Rua Pedro Américo. Arrastado pelo remoinho da traineira do AI-1, costurada pelo Deutschland über alles, aquela Alemanha acima de tudo do doutor Francisco Campos, passou a cotiar fundilhos e fígados no Café Lamas, frila desesperado de qualquer anarfa que lhe pagasse os chopes e as biritas. Ainda pensei dar uma passada na delegacia, quem sabe algum ex-colega mais antigo e mais samaritano quebrava o gelo e me contava que crimes misteriosos a polícia tinha investigado e, assim, talvez pudesse matar de cara uma das questões da merda do vestibular da Metro-Goldwyn-Mayer & Cia. Mas, pensando melhor, mandei o pensamento marcar passo no campanário das urtigas e fui direto à caixa-forte do banco. Com o doutor Brizola montado no governo do estado e beijim beijim nos capitães da indústria da loteria zoológica, os bolsos dos meus ex-colegas de suposta sustentação da ordem constituída deviam andar mais vazios do que culhão de galo em aviário industrial e os ânimos também deviam fazer parelha com os meus. Todo mundo puto, putérrimo. Na mosca. O velho Mora, duzentos e dez quilos de diâmetro por outros tantos de pé-direito, equilibrava o morro da Babilônia dos barris de chope e dos alambiques de calibrina no sofá da sala de visitas da mesa do costume, afogando a sombra de quarenta pelotões de centígrados em cinqüenta amazonas de suor. - Meu prezado, é à boa samaritanice de alguma vaca sem farda que eu devo a honra desta quebra de tão prolongadas ausências ou foram os novos ventos de Brasília que o empurraram até aqui? Se a memória não me falha, faz mais de ano que este doutor Watson não recomendava uma cura de águas ao refinado Sherlock. Não era hora de agradecer discursos de boas-vindas à la Associação Ecumênica dos Somos Todos Boa Gente, era hora de trabalho, e hora curta, pois aquele poderá do nº 5 do Chanel poderia antecipar a trajetória reta do meu estaminé, e se eu pisasse na bola, babau. Lá se ia a cubagem do Ballantine’s e a maquiagem do Turbo do meu Porsche. - Vim a trabalho. - Trabalho? Abanque-se. Na hora em que o Brasil parece que vai assinar a sua carta de manumisso, nada melhor do que comemorá-la com trabalho, meu prezado. - Manumi... - Alforria. Meu velho pai tinha razão. Saber é que nem cama. Quanto mais rangente mais gostosa. Mas não era hora de arrotar sovaquices e, gosto por gosto, pendurei as preocupações nas costas da cadeira, tirei a gabardine e o chapéu do Humphrey Bogart e joguei em cima da mesa os 212 graus farenheit da Lauren Bacall estampados na pule das apostas. - Preciso dos seus conhecimentos. - Meu prezado, os meus conhecimentos... - Pagamento à vista. Na mosca. As reticências dos conhecimentos sumiram no oco do à vista e o velho Mora sorriu mais do que proctologista depois do Carnaval. - Bom. Se entra caraminguá na conversa, a conversa já é outra. Diga. - Preciso saber as respostas disto aqui. Apontei a pule das apostas como quem aponta uma estrela cadente, cagando de medo de ficar com a cara mais espinhada do que crila punheteiro, e esperei o resultado. Que não tardou. Engolido o chope e o galão da calibrina, o papel logo tremeu na mão do velho Mora. Pedi um Ballantine’s e outro tiro-curto ao garçom de plantão, e fiquei olhando a pororoca do suor desenraizar barbas e bigodes nas margens dos dois palmos de nariz e de queixo daquela rorqual-gigante afogada pelo remoinho da traineira do Deutschland über alles, aquela Alemanha acima de tudo do doutor Francisco Campos, o heil-mor das arábias brasileiras. A leitura demorou metade do meu Ballantine’s e o escorropicho do tiro-curto, e iniciou-se o combate sem direito a descansos entre os roundes. - A fim de entrar no compadrio da Embrafilme, meu prezado? Difícil. Aquilo se disfarça mais do que tortura nas catacumbas dos milicos. - Nada. Eu nado em outra praia, você sabe. - Eu sei. Por isso, me espanto, dá licença? - É uma cliente que quer que eu apure isso pra ela. - Bastava cantar um cinéfilo mais píssico, que tem aos montes por aí. - Talvez o tempo dela seja mais caro do que o meu. - É, pode ser. Tem pinel pra tudo. - Quanto? - Quinhentos mil. - Quinhentos mil? - Meu prezado, a única razão do ser humano estar no mundo é saber a razão por quê que está no mundo. - E quê que isso tem a ver? - Nada. Mas é por isso que ninguém sabe nada de nada e de ninguém, e que você vai me pagar quinhentos mil, estamos conversados? Fazer o quê? Construir uma Itaipu naqueles amazonas de suor e afogar as sete quedas da ganância do meu prezado ou bancar o ministro da Fazenda, que adubava a dívida interna na razão direta dos juros que recebia? Meu velho pai tinha razão. Se nem tudo que reluz é ouro, só o ouro vale quanto pesa. O velho Mora nunca tinha entrado no boteco do falecido Eduardo da Micas do Ferreiro, mas, pelos vistos, também entendia de números. Com as mesmas opções do Congresso Nacional, renunciar e fechar ele mesmo as portas das calotas invertidas de Brasília ou engolir a jibóia do recesso imposto pelo general heil-light Ernesto Geisel, ou seja, entre ser um Super Homem, mesmo cercado de kryptonita ou continuar comendo secretárias e assessoras, fiz o que fez o mais humílimo dos congressistas. Abri um sorriso à la marombão do Sylvester Stallone depois de esbagaçar o campeão mundial de boxe de Hollywood em Rocky, Um Lutador, e engoli a jibóia da vergonha nacional. - Ok. - Quinta-feira. - Amanhã. - Ô... - De manhã. Telefono às nove. Nada como um Rocky 2, A Revanche. Ou o meu prezado aprontava o bagulho ou adeus quinhentas pilas. Mas o tiro curto tinha embocadura. Não era à toa que a Amazônia era a maior bacia de águas e sanjas deste mundão de quepes militares. - Ok. Mandei-me do Café Lamas antes que os duzentos e dez quilos do pé-direito se lembrassem de que a correção monetária não era fantasia de baile de Carnaval. Não era nada, não era nada, era um marechal ganho na graciosa. Agora, que já tinha garantido as diárias à la taifeiro da marinha do Tio Sam pago em dólar, era hora de coadjuvar também a produção brasiliense da Electoral College Pictures, Um, cem, mil, viva Tancredo Neves, presidente do Brasil!, sem favor nenhum o maior filme do mundo, com apenas um protagonista e cento e trinta milhões de extras suando as estopinhas e botando o lucro no bolso dos três poderes de Brasília. Entre as minhas muitas pissiquices, ouvido é uma delas. Meteu pauta musical na conversa, não tem conversa. Não assobio nem cantada de pardal em função de. Aí, impossibilitado de contribuir para a caixa das esmolas da trilha musical do alegro, colaborei do melhor jeito que as minhas convicções de cidadão me permitiram. Peguei a primeira mina mais rosca-que-rosca que atravessava o calçadão da fama da Avenida Atlântica e, com a ajuda das molas do meu colchão e de uma garrafa de Ballantine’s, colaborei no oba-oba até ficar mais desmilingüído do que ameba em prova de sulfurosa. Acalmado o furor do civismo e com a mina já chamando um táxi no embalo das quatro da matina, abri os braços da preguiça e mergulhei no deixa-disso. Como dizia meu velho pai e dizia muito bem, quem não trabalha não cansa. E eu tinha trabalhado mais do que araponga do SNI farejando comunas nas fileiras da Aliança Anticomunista Brasileira, organização perita em reclamar autorias morais de atentados civilistas. Embalado pelo molejo balanceado do colchão e pelos miles emeeles do Ballantine’s, só acordei com a trombeta do anjo Laoviah e os kyrie de São Bernardo, São Marcelo, papa, e Santo Honorato, bispo, protetores daquela quarta-feira, cravando no chrono do meu casio alarm o grito das nove horas da matina. Saltei da cama e cipoei no telefone que nem o tarzan Johnny Weissmuller nos bigodes do leão da Metro. - Aprontou? - Tudo. - Jóia. Tou chegando. - Meio-dia. - Mas o combinado... - Meu prezado, arrumei um bônus que você vai até babar. Meio-dia, e estamos conversados. Um clique seco e eu fiquei que nem marido telefonando para casa em hora imprópria. Mas fazer o quê? Quebrar o telefone à la filme B de Hollywood ou entrar no chuveiro e tirar a caspa do suor que a mina me tinha largado nos baixios? Sem opção. Mas é bom a gente não ter opções. Pelo menos, sabe-se, de cara, o que tem que se fazer. Já pensou a zorra de dez ou vinte quem sabe? Xampuzada a caspa das partes baixas, esgoelei três ovos batidos num Porto Dom José e voltei ao molejo do colchão. Quem sabe o bônus do velho Mora valia a água jogada no ralo do banheiro? Na prise pontual do meio-dia o chrono do meu casio alarm luziu na porta do Lamas que nem a tocha brasileira tinha luzido nas Olimpíadas de Los Angeles. Oito medalhas na chincha. Uma de ouro, cinco de prata e duas de bronze. Nada, nada, o suficiente para cagar nos queijos da Suíça, que não pegou nem um tico de ouro, apesar da excelência dos bancos e da pontualidade dos relógios. O velho Mora esperava-me já com o morro da Babilônia dos barris de chope e dos alambiques de calibrina equilibrada no sofá da sala de visitas da mesa do costume. - Meu prezado, se pontualidade medisse índice de inflação, você passava a perna até nas tulipas holandesas. Não gosto de humoristas. O último de quem escutei uma piada foi aquele secretário de Segurança da Operação Dignidade, o filho da puta que me tirou da fila da folha de pagamento dos bicheiros, me deu um pé na bunda e me obrigou a catar a bicharada perdida no Aterro do Flamengo e encruzilhadas circundantes. Mas o sorriso do velho Mora limpou a barra da memória e lubrificou as engrenagens da puteza dos meus ânimos. - Cadê o troço? - Calma. Calma, meu prezado. Afobado assim, você não verá nem a posse do próximo presidente, lhe garanto. Abanque-se, que o importante não são os relógios, são os ponteiros. E eles não andarão mais devagar por mais depressa que você ande. Fazer o quê? Derreter a banha do pé-direito e virar atacadista de óleo no mercado spot de São João das Antenas ou rezar ao meu Santo Expedito das causas urgentes e dos negócios que precisam de pronta solução para colar os freios da Lassie e impedir que ela se lembrasse de chegar no estaminé antes de mim? Novamente sem opção, optei por seguir o conselho do velho Eduardo da Micas do Ferreiro, meu falecido pai e compadre do velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e também meu falecido tio e padrinho, raiva só serve para cão tomar vacina. Desliguei o chrono do meu casio alarm e mandei a puteza rezar missa no alambique das urtigas. Na mosca. Dois tiros-curtos disparados à queima-roupa na bacia das águas e das sanjas do meu prezado, e logo três folhas de papel saíram das rotativas do frila. - Esta aqui, é a que você me deixou. Pausa, e a pule das apostas aterrou, tranqüilíssima, bem na minha frente. - Esta aqui, são as respostas. E sem erro, meu prezado. Nova pausa, e outro teco-teco taxiou na porta do hangar. - E esta aqui, é o bônus que te falei. Outra pausa, e mais um teco-teco entrou em função de. - É bom você ler, pra ver se tá tudo nos conformes. Meti a pule das apostas do vestibular da Metro-Goldwyn-Mayer & Cia no bolso dos silêncios e peguei o motor do primeiro teco-teco.
Temendo que o que tinha acontecido ao Brasil na Copa do Mundo de 1950 acontecesse comigo se alguma das respostas não batesse, cantar vitória antes do tempo e virar um reles vice-vice, encarei o sorriso do velho Mora com o maior ponto de interrogação estampado na dentina. - Não tem furo? A reação dos duzentos e dez quilos de diâmetro e outros tantos de pé-direito foi a mesma do Feola, técnico da seleção brasileira na Copa da Suécia. Cruzou as mãos na barriga e dormiu com as pernas tortas do Garrincha botando tudo quanto era zagueiro adversário no mais adequado desespero. - Nesse mato não entra cachorro nem a tiro, meu prezado. Trabalho de primeira, pode confiar. Confiar, dizia meu velho pai e dizia melhor do que ninguém, é que nem horário de verão. Tem a ver com o bem-bom de cada um, mas nego só engole na porrada. Resolvi enfrentar a porrada. Não era a primeira que enfrentava e tinha sempre à mão um mercúrio cromo e um band-aid. Afinal, por mais reta que fosse a trajetória daquele foco luminoso movido a essência de Chanel, não era páreo para quem passou anos nos esgotos e tufais do Aterro do Flamengo e encruzilhadas circundantes, catando bicharada perdida de tudo quanto era estimação. Ordem unida de cem marechais e o sorriso do pé-direito bateu o recorde mundial dos miles & miles, nado borboleta, no suor dos amazonas. - Certo. E o bônus, é o quê? - Leia e passe mais cem pilas. Dá até para comer a cliente de lambuja, se o meu prezado permite esta minha pequena intromissão nos seus negócios. Tudo que cai na rede foi pescado, cansei de ouvir meu velho pai explicar a minha mãe que engano no troco não era engano, era lucro. E, lucro por lucro, talvez o meu prezado tivesse carradas de razão. Quem sabe a Lassie à la Nunca Fui Santa também gostava de bônus e aspergia de Chanel o nº 5 as minhas piores intenções? E intenções por intenções, já viu. É que nem sonho de consumo. Melhor jogar os vinte marechais no poço dos desejos e deixar a vontade entrar numa de fermento. Armado com um Ballantine’s bem cubado e um souza cruz chispando nos conformes, pronto para qualquer emergência ecológica, perfilei o motor do primeiro teco-teco ombro a ombro com a pule das apostas, e fui inspecionar a fuselagem do segundo. Quem É Quem Num Filme era o título daquela epístola aos Incréus, escrito no beatíssimo sorriso da caixa-forte do banco. - Producer - Production Manager - Unit Manager - Catering Puta que o pariu. Agora não era nem meu velho pai, quem tinha razão, era eu. Melhor parar por ali do que me meter a comparar os cofres do Fort Knox do Tio Sam com os embornais do Tesouro Nacional. Aquela grunhição, se não parelhasse com as fitas que chutaram o ex-ajudante do senador MacCarthy e ex-deputado Richard Nixon do salão oval da Casa Branca, devia parelhar com as mais perfeitas abracadabras de Brasília, disso nem o velho general Golbery do Couto e Silva, dizem que pai putativo dos ceguetas do SNI, tentaria duvidar. Mas uma coisa era certa. Mesmo boiando mais do que deputado de São João das Antenas em discurso tributário, tinha que dar a mão ao meu prezado. Nada mais terminante e decisivo do que dizer em outra língua o que pode ser dito em português. Não era à toa que a propaganda, que tantos sapos faz engolir aos compradores, tinha descoberto o filão. Na verdade, como se sentiria o dono do Topa Tudo Ferros Novos e Velhos Ltda se o contato da agência entrasse no seu escritório com o projeto visual do cartazete em vez de carregar na pasta das missões o layout do display? Será que ficaria satisfeito e aprovaria a criação ou não topava o desaforo e mandava a agência criar sagüis no campanário das urtigas? Não tem nada a ver, não sou fissurado em minudências antropológicas, sejam de inclinação etnográfica, etnológica ou social, mas num país que importa molinetes para caniços de pesca e exporta tecnologia em novelas de televisão, o buraco do problema é muito mais oval do que pensa o ministro do Serviço Nacional de Informações. Apenas questão de gravidade, dirão os mais crédulos ou os muito mais conformados. Se o tio rico mora por cima e o sobrinho pobre mora por baixo, o caminho do esgoto é a lei da gravidade. Pode até ser, mas eu ainda sou mais o velho portuga que morreu sem voltar à tal de Serra do Gerês. Se ministro da Fazenda resolvesse inflação, a matemática não teria mais números, teria só funcionários. Como não sou ministro nem uso máquina de calcular, e também não tenho nenhum funcionário no meu estaminé, joguei os considerandos antropológicos no caminho do esgoto, tapei o oval do buraco com a mais caprichada cova-funda, aquela tragadona que os ecologistas pulmonares esconjuram e chamam de caixão-à-cova, esmaguei o que sobrou do combalido souza cruz com a sola do sapato e, perfeitamente convencido da importância de uma colonização como manda o figurino, entrei no clima da competência do velho Mora, sempre aquele frila desesperado de qualquer anarfa que lhe pagasse os chopes e as biritas. Dobrei o velino dos Incréus com o melhor dos cuidados, encaixotei-o junto dos outros dois colegas e parafusei a cara da definição mais adequada às circunstâncias. - Ótimo. Perfeito. O sorriso do equilibrista do morro da Babilônia dos barris de chope e dos alambiques de calibrina beirou o do marombão do Sylvester Stallone quando o Rocky saiu do ringue de Hollywood e começou a nadar de braçada nos mississípis do eu não falei que era bom? - Vale ou não vale cem pilas? Valer é uma questão de valor ou de proveito, e aquela epístola aos Incréus não tinha nem uma coisa nem outra. Eu não gemia nem fanhava em inglês e também não estava interessado em entrar na indústria do cinema. Mas a boa vontade do velho Mora em deitar a unha a mais vinte marechais era deveras comovente, e nada mais sacana do que desenganar alguém em hora de comoção. Portanto, meu prezado, aí estão as suas cem pilas e que lhe façam bom proveito. E, pt, saudações. Aquarteladas as medalhas dos vinte marechais e disparado mais um tiro-curto no pelotão dos centígrados que mungia o suor dos amazonas dos cânions do cachaço e untos adjacentes, os duzentos e dez quilos do diâmetro do meu prezado resolveram fazer uma investida às profundezas do meu bolso, que nem perfuratriz da Paulipetro no oco da praia de Maranduba. Na marra e sem saber que esqueleto os sedimentos fossilizavam. - Mais cinqüenta pilas e dou a tradução. Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil. Nada. Quem disse isto não entendia lhufas de formigas. Cara de pau é muito pior do que saúva. Vocês já imaginaram todo mundo querendo passar a perna em todo mundo? Eu trocando duas, dez, vinte vezes os negativos das fotos que tirei no Hotel das Paineiras, aquele negão sem mais tamanho cavalgando os lombos do cofre-suíço das colunas sociais, o governo pagando as contas e os salários sem atraso, e juiz mandando prender banqueiro de trambiques? Não seria uma puta sacanagem? Um apê, um carro e um escritório montado, vá lá, foi um negócio que qualquer um faz neste país onde manda quem pode, obedece quem tem juízo ou não tem farda. Agora, me gadanhar vinte marechais na maciota e querer ainda mais dez para completar o meio canto da missa? Chantagem comigo não, viu, D. João? Negócio é negócio e roubo é roubo, meu prezado. E sem essa de amizade ou quem paga são os outros. De jeito maneira. Num país que perdeu uma Copa do Mundo como o Brasil perdeu a de 1982, não se fala em quem paga, fala-se em quem deve. Quem paga acertou contas e quem deve discursa no congresso. Ponto, parágrafo, e vamos à questão da tradução. - Não, obrigado. Se precisar, depois eu falo. - Você que sabe, meu prezado. Mas não esqueça a primeira lei da redundância. Ninguém pode descobrir verdades acerca de si próprio e do mundo, porque não pode botar as teorias no centro do gramado e compará-las com a realidade que o cerca. - E quê que isso a tem a ver? - Nada. É apenas redundância. Redundância era eu ter uma cobertura na Tijuca, um Porsche Turbo 3000 na garagem e o Ballantine’s da minha digestão, e não estar nem aí para os embeurrées d’escargots das colunas sociais. - Não tou interessado em redundâncias. - Como disse, você que sabe, meu prezado. Mas lembre-se dos relógios. O que manda são os ponteiros. Não mandei os ponteiros ponteirar no campanário das urtigas, mas cheguei no escritório mais puto do que canário com caxumba. Não tinha almoçado e ainda tinha que decorar a merda das respostas, não fosse o nº 5 do Chanel aparecer com os padres confessores da Metro-Goldwyn-Mayer & Cia e abancar a Lassie na cadeira-confissão antes da decoreba afiar a ponta da minha língua. Valeu-me o arrancador das penas de ganso do Pero Vaz e a sua Rádio Portaria com o programa Notícias Frescas na Hora do Almoço. - Veio cá uma madama avisar que só virá na sexta às onze horas. Desfraldada a bandeira do alívio, de repente, todos os cães do mundo resolveram latir entre os cafundós do duodeno e os cus-de-judas do gogó. - Seu Manuel Joaquim, dava para o senhor, depois de depositar um cheque, me pegar um galeto? - Ao ponto? - Não. Hoje, eu quero bem passado, com fritas e com farofa. |
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CUNHA DE LEIRADELLA Casa das Leiras . São Paio de Brunhais |
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