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ISABEL CRUZ
DIR. CICTSUL

A QUÍMICA, A INDÚSTRIA QUÍMICA
E O SEU ENSINO EM PORTUGAL (1887 - 1907):
O CASO DE ALFREDO DA SILVA

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3. A 9.ª cadeira - Química Mineral e Orgânica; Análise Química
 

Para além da 10.ª cadeira, e da 1.ª parte da 26.ª - Matérias primas de origem mineral e orgânica, suas transformações e respectiva tecnologia; Caracteres físicos e químicos dessas mercadorias e seu valor comercial; Falsificações e meios práticos de as reconhecer, fundamentalmente dedicada ao estudo químico-analítico das mercadorias, ( v . programas da 26.ª cadeira e respectivo curso prático em Anexo IV) e para que o quadro da Química no plano de estudos do Curso Superior de Comércio fique completo, é necessário considerar ainda a componente da Química Geral desta formação, ou seja, a 9.ª cadeira - Química Mineral e Orgânica; Análise Química.

No início da 2.ª metade do século XIX no sistema de ensino em Portugal a Química do Instituto Industrial significava, basicamente, a "outra" Química, a "não-superior" que não se ensinava aos futuros oficiais do Exército ou da Marinha, ou aos estudantes candidatos às Escolas Médico-Cirúrgicas. Era o acumulado de conhecimentos sistematizados que se tinham vindo a desenvolver ao longo de muitas gerações de artífices - e que a acção dos químicos operatórios (BENSAUDE-VINCENT; STENGERS, 1996, pp.153 - 156) um conceito de formação profissional que acompanhará ainda a 2.ª Revolução Industrial, conseguira algumas vezes racionalizar e aperfeiçoar -, e a sua reunião (muitas vezes simplesmente anexação) com um outro acumulado, o do conhecimento científico, que projectava a produção química para além dos limites do segredo e da arte, e que a colocava cada vez mais na esfera do industrial.

A "Química aplicada às artes" está por isso nos antípodas do modelo da generalidade, muito mais ao gosto das profissões socialmente conceituadas, e que por sua vez incorporava todo o manancial de matérias decorrentes da actividade científica e laboratorial alheia (ou descarnada) da sua faceta utilitária. A Química Geral reúne assim os muitos conhecimentos inorgânicos, alguns orgânicos, e ainda métodos analíticos, que constituíam aquilo que era considerado a base fundamental, o núcleo nobre didáctico da Química, onde um estudo altamente descritivo da matéria conduzia a uma sistemática das propriedades dos seus grandes agrupamentos (metais, metalóides, sais) como seu corolário, e deixava bem para trás, afinal, a razão pela qual a sociedade lhe era tão transparente.

Porém, à medida que avançamos na 2.ª metade de oitocentos, vários aspectos associados ao desenvolvimento dos Institutos de Lisboa e do Porto vão concorrer para desviar esta primeira cadeira de Química do formato característico do domínio industrial e aproximá-la do conceito de Química Geral. Podíamos enumerar o conjunto de factores que, na nossa perspectiva, explicam essa transição, porém a extensão para esta comunicação não o permite; diremos apenas que a reforma de Emídio Navarro de 1886/88 foi, nos Institutos, o corolário ao modelo que permitiu compreender a Química fora do universo industrial e expandi-la para outras dimensões didácticas, pela maneira como se entendeu o lugar (fundamental) da cadeira de Química na constelação dos vários cursos existentes nessa nova ordem qualitativa. Desta forma, se resolvia eficaz e racionalmente a situação da Química nos Institutos Industriais: a cadeira mais antiga de Química deixou de ser uma Química para as indústrias e passou a ser uma Química Geral (ainda com a Análise Química anexada) cujo âmbito atingia a quase totalidade dos cursos existentes nos estabelecimentos em questão ( v . caso do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa em Anexos V-a e V-b). Como um outro resultado interessante, temos que a cadeira de "Tecnologia Química" acabou por substituir então, a primitiva cadeira de Química aplicada às artes.

Como Química Geral que se preze - e a generalidade aqui deverá ser entendida como uma característica decorrente do facto de se estabelecer a nível didáctico uma Química que pode ser comum (daí nuclear) a muitas especialidades -, a 9.ª cadeira do Instituto Industrial e Comercial será essencialmente Química Inorgânica. Isto é perceptível tanto no programa da cadeira ( v . Anexo VI), como no programa do seu "curso prático" ( v . Anexo VII) que com a reforma de Emídio Navarro tem, obrigatoriamente, que fazer parte da formação do aluno que frequenta a 9.ª cadeira.

Os trabalhos práticos da 9.ª cadeira começaram a funcionar de acordo com os termos regulamentares publicados em portaria de 8 de Agosto de 1889, que determinava seis horas semanais obrigatórias de laboratório para os frequentadores da 9.ª cadeira - Química Mineral e Orgânica; Análise Química, e o acesso ao exame dependente dos resultados obtidos na prática da cadeira em aproveitamento e assiduidade, somente no ano lectivo de 1889-1890 (PEGADO, 1889, p.13). O facto de Alfredo da Silva ter realizado algumas das cadeiras do seu curso antes que fossem abrangidas pelos novos termos regulamentares, somente atenua um pouco este carácter eminentemente prático e com ligação ao concreto da profissão, e de maneira nenhuma lhe retira o essencial, em particular no que respeita à Química. "Confinado" ao espaço do laboratório de Química ( v . planta respectiva em Anexo VIII e imagens do mesmo, e aula, em Anexo IX-a e IX-b, respectivamente), entre os seus alunos, ao mesmo nível, como se estes fossem seus pares, o professor Virgílio Machado partilha, mais do que pode demonstrar, a experiência - voltando a citar Pinto Basto: «Dir-se-ia que os Professores vinham animados de um espírito novo, dispostos a abandonar aquela severa e grave feição do estilo coimbrão, adoptada nas outras Escolas Superiores e que os conservavam afastados dos estudantes (...) Os professores mais pareciam companheiros de estudo dos alunos» (cf. BASTO, 1952, p.16) - ensinando-lhes assim, afinal, de uma certa maneira, como afirma Pierre Laszlo, a «boa química, a grande química», que é «a da excursão para fora das fronteiras, a da transgressão das normas».

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