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ISABEL CRUZ
DIR. CICTSUL

A QUÍMICA, A INDÚSTRIA QUÍMICA
E O SEU ENSINO EM PORTUGAL (1887 - 1907):
O CASO DE ALFREDO DA SILVA

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2. José Júlio Bettencourt Rodrigues e a Tecnologia Química
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Outra personalidade determinante no panorama geral da Química do século XIX em Portugal foi José Júlio Bettencourt Rodrigues, filósofo e matemático de formação. Os vários autores que se encarregaram de estudar a figura de José Júlio Bettencourt Rodrigues, tanto no passado como na actualidade, deixaram bem claro o forte espírito empreendedor, o empenho na Ciência (em especial nas suas "aplicações" industriais, modelo em voga na época, que condicionava o desenvolvimento da Indústria aos efeitos da acção da Ciência) e na sua visibilidade (do qual a actividade jornalística e principalmente a paixão pela fotografia são exemplos flagrantes), e a tendência para transformar os seus interesses em verdadeiras "causas", como dos traços mais marcantes da sua personalidade. Por isso era exigente, e ferrenho na convicção do papel absolutamente imprescindível do ensino experimental no desenvolvimento das ciências, "bandeira" que acenou durante toda a sua vida. Apaixonado na defesa das indústrias, em especial aquelas que projectara reformar, "nacionalizar" ou introduzir no nosso país (caso das tintas de imprensa, ou da extracção do açúcar da beterraba), por ela acabou por assumir o lado proteccionista. Lente da 7.ª cadeira - Princípios de Física e de Química, e Introdução à História Natural dos três reinos, do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, em 1884 aceitou a sua transferência para a nova cadeira de Tecnologia que aparecia com a reforma de António Augusto de Aguiar, de 6 de Março de 1884, e que era uma absoluta novidade, não só para o ensino comercial no Instituto em questão como até a nível nacional (RODRIGUES, 1884, p. 7).

O decreto da organização designou-a por "Tecnologia Geral" e dotou-a de uma parte teórica «Estudo comercial dos principais produtos naturais e manufacturados; Legislação aduaneira; Tratados de Comércio», e de uma parte prática, mas não foi esta a formatação que teve continuidade futura. O estado actual das investigações permitiram constatar que a cadeira que José Júlio Bettencourt Rodrigues aceitou em 1884 terá sofrido uma série de "mutações" (não sabemos até que ponto provocadas pelo próprio lente) que a afastaram substancialmente da concepção original. Assim, de 1884 a 1888 reconhecemos nela uma evolução, desde a Análise Química Comercial e aspectos legais e oficiais ligados às transacções das mercadorias, para a descrição, apreciação crítica, avaliação das indústrias e processos químico-industriais ( v . Programa em Anexo I). Resultou daqui uma verdadeira cadeira de Tecnologia Química, que começou com bons auspícios, em 1888-1889, com um preparador privativo, oriundo da jovem Escola Municipal de Química e Física Industriais de Paris (referimo-nos a Charles Lepierre), porque Bettencourt Rodrigues "desprezara" da oferta nacional, que considerava não ter a preparação necessária ( v . em Anexo II o laboratório da 10.ª cadeira - Tecnologia Química, que começou a funcionar em 1888/1889, e que posteriormente tomou a designação de "Aula e Laboratório de Indústrias Químicas").

Deverá ter sido já esta, a tecnologia que Alfredo da Silva aprendeu - a Química. O testemunho de um seu condiscípulo, João Pinto Basto, denuncia o grande interesse que este dedicava a essa área «posso referir-me ao seu precoce entusiasmo pelos assuntos de química industrial porque lho notei quando algumas vezes em 1888/9 em sua companhia fui estudar lições destas disciplinas» (cf. BASTO, 1952, p.17), que as óptimas classificações obtidas, nesta cadeira e na 9.ª - Química Mineral e Orgânica; Análise Química não só confirmam, como permitem supor uma verdadeira predisposição para a área.

Segundo o Regulamento dos Institutos Industriais e Comerciais de Lisboa e do Porto , de 3 de Fevereiro de 1888, a Tecnologia Química (10.ª cadeira) constava dos planos de estudo dos dois Institutos Industriais e Comercias existentes, situando-se a partir do nível secundário. Estava presente no Curso de Mestre de Artes Químicas, e nos Cursos Especiais de Director de Fábrica (Químico), de Verificador de Alfândega, e claro, no Curso Superior de Comércio (v . currículos dos cursos em Anexo III). Um universo suficientemente restrito para nos podermos aperceber da sua grande especificidade, e revelador de um efeito assaz surpreendente, de aproximação curricular dos profissionais da Indústria Química com aqueles ligados à "grande" actividade comercial, directa ou indirectamente envolvidos no macro movimento e transacção de mercadorias. Esta aproximação porém foi característica única da capital, uma vez que a formação comercial no Instituto do Porto era restrita aos níveis elementar e secundário não atingindo por isso os cursos especiais ou superior.

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