AUTO-ORGANIZAÇÃO, EDUCAÇÃO E
IDENTIDADE PESSOAL
Clara Costa Oliveira

IN: IDENTIDADE PESSOAL:
Caminhos e Perspectivas
Francisco Teixeira (coordenação)
Coimbra, Editora Quarteto, 2004
INDEX

Introdução
Constituição e características do Movimento AO
Identidade pessoal e educação
Identidade pessoal
Educação
Bibliografia

Identidade pessoal

Parece irrefutável que a identidade pessoal emerge sobretudo da percepção interna (em linguagem filosófica) que os indivíduos humanos possuem de si próprios, ou das representações neurais que os indivíduos constróem de si próprios (em linguagem mais científica). Sendo, no entanto, os seres humanos organismos de terceira ordem (Maturana e Varela, 1972), temos que eles produzem a representação sobre si próprios inseridos em comunidades nas quais vivem, ou seja, as representações identitárias sobre nós próprios emergem (em indivíduos saudáveis) de co-construções que ocorrem nos sujeitos-nichos que constituem unidades complexas.

A descrição observacional destas unidades complexas possui limitações anatómicas e neurofisiológicas que se traduzem por uma impossibilidade em dar conta observacional desta co-construção ininterrupta. Com efeito, a anatomia cerebral humana impossibilita-nos uma apreensão observacional de tipo ocular que observe as interacções a simultaneo que ocorrem ao nível fenomenal. Daí que a ciência empírica tenha que avaliar o funcionamento de um sistema observado pela conjugação adicional das partes que os observadores estudaram separadamente. A noção da assimetria observacional face ao processamento contínuo auto-referencial homeostático dos seres vivos caracteriza, como afirmámos anteriormente, um pressuposto assumido na movimento da AO. Iremos focalizar-nos numa das partes desta unidade complexa sujeito-nicho a que chamaremos “sujeito”, dada a impossibilidade descritiva mencionada.

Os sujeitos atingem níveis de complexidade crescente ao longo da sua ontogenia que observacionalmente podem ser descritos como o desenvolvimento motor, o intelectual, o afectivo, o ético, o comunitário, etc.. Ao nível existencial todas estas dimensões observacionais interagem numa circularidade causal e múltipla ininterrupta, e perturbações numa destas zonas afectará todas as outras.

O modo como se integram essas perturbações nos sujeitos resulta, e é consequência, da inter-conectividade que se verifica entre todas as dimensões que observacionalmente possamos identificar. As perturbações, internas ou externas, que chegam a atingir os sujeitos são momentos de possibilidade de maior aprendizagem, a partir do modo de pontuação que eles construíram ao longo da sua história de vida e com a variabilidade que a sua linhagem filogenética lhes permite. Assim, um ser vivo saudável do planeta Terra não conseguirá transformar a perturbação advinda de uma atmosfera sem oxigénio dado haver uma impossibilidade filogenética nesse sentido. No entanto, todos sabemos que pessoas que vivem desde que nasceram em meios com níveis bacterianos elevados na água que consomem desenvolveram um sistema imunitário muito mais resistente do que seres vivos que cresceram consumindo água considerada muito mais pura. Existe pois uma margem em todos os seres vivos de produção de variáveis novas face à herança filogenética; ela torna-se fonte de riqueza filogenética posterior quando os organismos que jogam com essa margem aprendem com factores ruidosos e tornam-nos familiares aos seus organismos. De notar que a partir do momento que esse ruído se tornou aprendizagem, ele perdeu a sua dimensão perturbatória e fundiu-se, complexificando o padrão auto-organizacional de significação dos organismos em questão. Por vezes, contudo, o observador avalia os componentes advindos do nicho como perturbadores ainda que eles tenham sido metabolizados pelos organismos; isto deve-se usualmente ao facto de ele estar muito fixado, ao nível da sua compreensão do que observa, na dimensão filogenética dos seres vivos estudados.

A capacidade de transformar o que é ruidoso (aos olhos de um observador) e aleatório, face à história de vida de um sujeito, em mais-valia, em aprendizagem, é algo específico dos seres vivos; a identidade dos sujeitos humanos gera-se certamente nesta produção ininterrupta de maior cognição orgânica sempre circundada pelos mecanismos homeostáticos de auto-regulação (Mota-Cardoso, 2002). Temos assim que a identidade pessoal se gera na construção de representações de nós próprios enquanto articulamos os dados perturbatórios com cariz de novidade com padrões processuais já existentes.

A identidade pessoal dos sujeitos gera-se, então, processual e ininterruptamente dento de si e com os seus nichos, em torno de um padrão organizacional único em cada sujeito (em cada ser vivo) que se flexibiliza lentamente, mas que raramente muda bruscamente. Esta identidade que produz, e é consequência, da percepção que os sujeitos têm de si próprios, permeia-se com a sua identidade corporal delimitada fisicamente pela pele ao nível macro, e pelas membranas ao nível micro (celular). Daí as questões estéticas serem tão importantes para muitos sujeitos, pois para eles a percepção de si próprios focaliza-se sobretudo na representação que fazem das suas dimensões corporais expostas à percepção sensorial dos outros que constituem os seus nichos.

Por vezes, no entanto, a importância da percepção sensorial dos outros alarga-se muito para além dos sujeitos que constituem o nosso nicho; a identidade pessoal esvai-se numa determinação exterior de canônes de beleza, de juventude, de luxo material, de reconhecimento social. Quando isto ocorre o sujeito pode considerar-se doente, na linha da teoria da autopoiesis, pois encontra-se em fase de dissolução ao não conseguir assegurar a manutenção flexibilizada do seu padrão auto-regulador de significação do mundo, tal como uma célula se dilui na sopa molecular se destruiu a sua membrana.

Os organismos perdem então as suas identidades auto-organizativas e tendem-se a comportar-se como se fossem sistemas abertos; a sobrevivência destes organismos passa por conseguirem fazer coincidir os seus padrões auto-organizacionais com as significações sociais em causa. Isto só se consegue, no entanto, quando o padrão auto-organizacional que existe até então não é muito diferente, em termos formais, do que lhe é proposto socialmente. Caso haja uma assimetria acentuada, essa integração não será conseguida e os organismos focarão irremediavelmente doentes.

Um breve apontamento a lembrar que a identidade de cada pessoa se revela, tanto na tradição budista como na tradição judaica que influenciaram bastante alguns dos autores do Movimento da AO, na acção imediata de exigência ética face a situações inesperadas em que não temos tempo para ajuizar noeticamente a situação com que nos deparamos. Nestas situações o que se manifesta é a ética incorporada (Varela, 1995) dos sujeitos, isto é, a sua identidade pessoal é identificada e reconhecida por quem o observa a (não) actuar. Isto é detectável em situações inesperadas de perigo, por exemplo; de notar, no entanto, que avaliar a dimensão ética orgânica de uma pessoa não se pode circunscrever à observação da sua forma de agir numa situação inesperada isolada. Ela deve ser comparada com várias situações do mesmo tipo e é também necessário ter em conta o contexto em que ela ocorre. Daí que, por exemplo, na tradição budista a ira surja como um defeito no nosso caminho para a libertação; no entanto, se ela ocorrer num contexto de injustiça ela pode ser justificada (Dalai-Lama, 1997 e 1999).

 

 




 



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