Chronica do senhor rei D. Pedro I oitavo rei de Portugal
*CAPITULO VII* _ Como el-rei quizera metter um bispo a tormento porque dormia com uma mulher casada_.

Não sómente usava el-rei de justiça contra aquelles que razão tinha, assim como leigos e semelhantes pessoas, mas assim ardia o coração d'elle de fazer justiça dos maus, que não queriam guardar sua jurisdicção, aos clerigos tambem, de ordens pequenas, como de maiores. E se lhe pediam que o mandasse entregar a seu vigario, dizia que o puzessem na forca e que assim o entregassem a Jesus Christo, que era seu Vigario, que fizesse d'elle direito no outro mundo. E elle por seu corpo os queria punir e atormentar, assim como quizera fazer a um bispo do Porto, na maneira que vos contaremos.  

Certo foi, e não o ponhaes em duvida, que el-rei, partindo de entre Douro e Minho, por vir á cidade do Porto, foi informado que o bispo d'esse lugar, que então tinha gram fama de fazenda e honra, dormia com uma mulher de um cidadão, dos bons que havia na dita cidade, e que elle não era ousado de tornar a ello, com espanto de ameaças de morte que lhe o bispo mandava pôr.  

El-rei, quando isto ouviu, por saber de que guisa era, não via o dia que estivesse com elle, para lh'o haver de perguntar.  

E logo, sem muita tardança, depois que chegou ao logar, e houve comido, mandou dizer ao bispo que fosse ao paço, que o havia mister por cousas de seu serviço. Falou com seus porteiros, que depois que o bispo entrasse na camara, lançassem todos fóra do paço, tambem os do bispo como quaesquer outros, e que ainda que alguns do conselho viessem, que não deixassem entrar nenhum dentro, mas que lhe dissessem que se fossem para as pousadas, cá elle tinha de fazer uma cousa em que não queria que fossem presentes.  

O bispo, como veiu, entrou na camara onde el-rei estava, e os porteiros fizeram logo ir todos os seus e os outros, em guisa que no paço não ficou nenhum, e foi livre de toda a gente.  

El-rei, como foi áparte com o bispo, desvestiu-se logo e ficou em uma saia de escarlata, e por sua mão tirou ao bispo todas as suas vestiduras, e começou de o requerer que lhe confessasse a verdade d'aquelle maleficio em que assim era culpado: e em lhe dizendo isto, tinha na mão um grande açoute para o brandir com elle.  

Os criados do bispo, quando no começo viram que os deitavam fóra, e isso mesmo os outros todos, e que nenhum não ousava lá de ir, pelo que sabiam que o bispo fazia, dês ahi juntando a isto a condição de el-rei e a maneira que em taes feitos tinha, logo suspeitaram que el-rei lhe queria jogar de algum mau jogo, e foram-se á pressa ao conde velho, e ao mestre de Christo Dom Nuno Freire, e a outros privados de seu conselho, que accorressem asinha ao bispo.  

E logo tostemente vieram a el-rei, e não ousaram de entrar na camara, por a defeza que el-rei tinha posta, se não fôra Gonçalo Vasques de Goes, seu escrivão da puridade, que disse que queria entrar por lhe mostrar cartas que sobrevieram de el-rei de Castella a gram pressa. E por tal azo e fingimento houveram entrada dentro na camara, e acharam el-rei com o bispo em rasões, da guisa que havemos dito, e não lh'o podiam já tirar das mãos. E começaram de dizer que fosse sua mercê de não pôr mão n'elle, cá por tal feito, não lhe guardando sua jurisdicção, haveria o papa sanha d'elle; demais, que o seu povo lhe chamava algoz, que por seu corpo justiçava os homens, o que não convinha a elle de fazer, por muito malfeitores que fossem.  

Com estas e outras rasões, arrefeceu el-rei de sua mui brava sanha, e o bispo se partiu de ante elle, com semblante triste e turvado coração.

 
 
 

 




 



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