Chronica do senhor rei D. Pedro I oitavo rei de Portugal
*CAPITULO VI* _bComo el-rei mandou degolar dois seus criados, porque roubaram um judeu e o mataram_. 

Este rei Dom Pedro, emquanto viveu, usou muito de justiça sem affeição, tendo tal igualdade em fazer direito, que a nenhum perdoava os erros que fazia, por criação nem bem querença que com elle houvesse. E se dizem que aquelle é bem aventurado rei que por si esquadrinha os males e forças que fazem aos pobres, e bem é este do conto de taes, cá elle era ledo de os ouvir, e folgava em lhes fazer direito, de guisa que todos viviam em paz. E era ainda tão zeloso de fazer justiça, especialmente dos que travessos eram, que perante si os mandava metter a tormento, e se confessar não queriam, elle se desvestia de seus reaes pannos, e por sua mão açoutava os malfeitores; e pelo que d'ello muito pasmavam seus conselheiros e outros alguns, annojava-se de os ouvir, e não o podiam, quitar d'ello por nenhuma guisa.  

Nenhum feito crime mandava que se desembargasse salvo perante elle, e se ouvia novas de algum ladrão ou malfeitor, alongado muito d'onde elle fosse, falava com algum seu de que se fiava, promettendo-lhe mercês por lh'o ir buscar, e mandava-lhe que não viesse ante elle até que todavia lh'o trouxesse á mão. E assim lh'os traziam presos do cabo do reino, e lh'os apresentavam hu quer que estava. E da mesa se levantava, se chegavam a tempo que elle comesse, por os fazer logo metter a tormento, e elle mesmo punha n'elles mão quando via que confessar não queriam, ferindo-os cruelmente até que confessavam.  

A todo logar onde el-rei ia, sempre acharieis prestes com um açoute o que de tal officio tinha encargo, em guisa que como a el-rei traziam algum malfeitor, e elle dizia:--chamem-me foão, que traga o açoute,--logo elle era prestes, sem outra tardança.  

E pois que escrevemos que foi justiçoso, por fazer direito em reger seu povo, bem é que ouçaes duas ou três cousas, por vêrdes o geito que n'isto tinha.  

Assim adveiu que pousando elle nos paços de Bellas, que elle fizera, dois seus escudeiros que gram tempo havia que com elle viviam, sendo ambos parceiros, houveram conselho que fossem roubar um judeu que pelos montes andava vendendo especiaria e outras cousas. E foi assim, de feito, que foram buscar aquella suja préa, e roubaram-no de tudo, e, o peior d'isto, foi morto por elles. Sua ventura, que lhe foi contraria, azou de tal guisa que foram logo presos e trazidos a el rei, alli hu pousava.  

El-rei, como os viu, tomou gram prazer por serem filhados, e começou-os de perguntar como fôra aquillo. Elles, pensando que longa criação e serviço que lhe feito haviam, o demovesse a ter algum geito com elles, não tal como tinha com outras pessoas, começaram de negar, dizendo que de tal cousa não sabiam parte.  

Elle, que sabia já de que guisa fôra, disse que não haviam por que mais negar, que ou confessassem como o mataram, senão, que a poder de crueis açoutes lhe faria dizer a verdade.   Elles em negando viram que el-rei queria pôr em obra o que lhe por palavra dizia, confessaram tudo assim como fôra; e el-rei, sorrindo-se, disse que fizeram bem, que tomar queriam mister de ladrões e matar homens pelos caminhos, de se ensinarem primeiro nos judeus, e depois viriam aos christãos.  

E em dizendo estas e outras palavras, passeava perante elles de uma parte á outra, e parece que lembrando-lhe a criação que n'elles fizera, e como os queria mandar matar, vinham-lhe as lagrimas aos olhos, por vezes. Depois, tornava asperamente contra elles, reprehendendo-os muito do que feito haviam. E assim andou por um grande espaço.

Os que hi estavam, que aquesto viam, suspeitando mal de suas razões, afincavam-se muito a pedir mercê por elles, dizendo que por um judeu astroso não era bem morrerem taes homens, e que bem era de os castigar por degredo ou outra alguma pena, mas não mostrar contra aquelles que criara, pelo primeiro erro, tão grande crueza.  

El-rei, ouvindo todos, respondia sempre que dos judeus viriam depois aos christãos.   Em fim d'estas e outras razões, mandou que os degolassem.   E foi assim feito.        

 
 
 

 




 



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