Chronica do senhor rei D. Pedro I oitavo rei de Portugal
*CAPITULO XL* _Como el-rei Dom Pedro chegou a Galliza, e matou o arcebispo de São Thiago, e se foi para Inglaterra_.

Partiu de Lamego el-rei de Castella, assaz desamparado e com mui pouca gente, cá não iam com elle mais que até duzentos de cavallo, e chegou a Monte-rei, uma villa de Galliza, e d'alli escreveu a Logronho, e a Soria, e a Samora, que tinham sua voz, que se esforçassem, cá elle lhes accorreria.  

E fez saber a el-rei de Navarra, e ao principe de Galles, como era em Galliza, e queria saber que esforço tinha em elles, e esperou alli o arcebispo de São Thiago, e Dom Fernando de Castro, seu alferes-mór e adiantado em terra de Leão e das Asturias, o qual antes d'isto viera a Galliza por seu mandado, e falou com todos os prelados, e cavalleiros, e escudeiros, e cidades, e villas, e fortalezas, de guisa que todos tiveram sua voz.  

E estiveram tres somanas, havendo conselho se era melhor ir-se a Samora, e d'ahi caminho de Logronho, pois el-rei Dom Henrique, com suas companhas, estava em Sevilha; ou ir-se a Bayona de Inglaterra catar seus accorros com o principe de Galles. E teve-se el-rei antes ao conselho da ida de Inglaterra, que tornar outra vez a seu reino, porque tão pouco se fiava nos que tinham voz por elle, como nos outros que não eram da sua parte.

E partiu de Monte-rei, e foi ter o São João a São Thiago de Galliza, e alli houve accordo com os seus de matar o arcebispo, e tomar-lhe as fortalezas. E onde Dom Sueiro vinha seguro, a seu mandado, dia de São Pedro, que lhe mandara el-rei dizer que viesse ao conselho, entrando pela cidade foi morto á porta da igreja de São Thiago, por Fernão Perez Turrichão, e Gonçalo Gomez Gallinhato, e dois cavalleiros que lhe mal queriam, a que el-rei mandara que o matassem, e mataram mais Pero Alvarez, deão de São Thiago, homem mui letrado e bem sisudo, e el-rei o olhava de cima da igreja, como se tudo isto fazia. E tomou el-rei quanto haver o arcebispo tinha no castello da rocha, e deu as fortalezas a Dom Fernando de Castro, e fel-o conde de Trastamara, e de Lemos, e de Sarria, d'onde soía ser conde el-rei Dom Henrique, para elle e para todos seus herdeiros lidimamente nascidos.

E Dom Alvaro Perez, seu irmão, e André Sanchez de Gres, que vinham vêr el-rei, quando souberam a morte do arcebispo, tornaram-se para suas terras com medo, e tomaram voz d'el-rei Dom Henrique.  

El-rei partiu d'alli, e foi-se para a Corunha, e n'aquelle logar lhe chegou recado do principe de Galles, que se fosse para o senhorio de Inglaterra, e que elle lhe ajudaria a cobrar o reino. E partiu el-rei da Corunha, e levou comsigo vinte e duas naus, e uma galé, e uma carraca, e deixou Dom Fernando de Castro em Galliza, e commetteu-lhe todo seu poderio, e el-rei ia na carraca com suas filhas todas tres, e o thesouro todo que comsigo levava, que eram trinta e seis mil dobras em oiro amoedado, porque todo o outro thesouro deixara na galé que Martim Yanhez havia de levar a Tavira, e levava muitas joias de oiro, e de aljofar, e de pedras de grão valor. E passou o mar, e chegou a Bayona, onde ia corregendo seus feitos, de que mais por ora dizer não queremos.

 
 
 

 




 



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