Chronica do senhor rei D. Pedro I oitavo rei de Portugal
*CAPITULO XXXIX*   _Como el-rei de Castlla partiu de Coruche, e se foi de Portugal; e quaes enviaram em sua companha_.

Não embargando as razões que dissemos, e outras muitas que faladas foram entre el-rei de Castella e o conde sobre o feito de seu negocio, bem entendeu el-rei Dom Pedro que o fim de todos seus ditos era não haver el-rei seu tio vontade de lhe dar acolhimento em seu reino, nem lhe fazer ajuda por nenhuma guisa: e houve d'isto tão grande queixume, que não poude com sua vontade que o logo não desse a entender por algum modo.

E depois que o conde com elle falou, e se despediu e se foi para a pousada, ficou el-rei triste e melancolioso, e com torvado gesto tomou dobras, que tinha na mão, e deitou-as por cima de um alpendre das casas onde pousava. Um cavalleiro de sua companha, vendo isto que el-rei fazia, disse-lhe, como sorrindo, por que deitara assim aquellas dobras, cá melhor fôra dal-as a alguns dos seus, a que prestassem; e el-rei lhe respondeu dizendo: «não cureis d'isso, cá quem as semeia as virá depois colher»; dando a entender, se seus annos tão poucos não foram, que elle lhe fizera de bom talante guerra, por não achar então em elle ajuda nem acolhimento nenhum. E houve seu accordo de se ir a Albuquerque e deixar ahi as filhas e todas suas cargas; e chegando ao logar não o quizeram em elle acolher, antes se lançaram dentro alguns dos que iam em sua companha.  

E el-rei, vendo como seus feitos iam cada vez peior, mandou dizer a el-rei de Portugal, seu tio, que pois lhe outra ajuda fazer não queria, que lhe enviasse carta de seguro, por que podesse passar por seu reino: e isto fazia elle temendo-se do infante Dom Fernando de Portugal, por ser sobrinho da mulher de el-rei Dom Henrique, como dissemos.  

A el-rei de Portugal prouve muito, e enviou a elle o conde de Barcellos, que ouvistes, e Alvaro Peres de Castro, que se fossem com elle pelo reino, e o puzessem em salvo em Galliza. E elles se foram por elle, e começaram de andar seu caminho, e quando chegaram á Guarda, segundo alguns contam, disseram elles alli a el-rei que se queriam tornar e não podiam ir mais com elle, porquanto se receiavam do infante Dom Fernando, que os enviara ameaçar por irem assim em sua companha, e que el-rei lhes deu então seis mil dobras, e duas cintas de prata, e dois estoques, que se fossem com elle até Galliza. E se assim adveio por esta guisa, isto foi fingido que elles disseram, cá o infante não tinha razão de lhes tal cousa mandar dizer, pois, com seu accordo, fôra ordenado em conselho que o acompanhassem até fóra do reino. E dizem que chegaram com elle até Lamego, e mais não. E á partida lhe furtou o conde uma filha de el-rei Dom Henrique, seu irmão, que el-rei levava presa comsigo, de idade de quatorze annos, que chamavam Dona Leonor dos leões, porque el-rei Dom Pedro, por queixume que de seu padre havia, sendo esta moça em poder de sua ama, nada de mui poucos mezes, com grão crueldade a mandou tomar, e, esfaimados os leões que criava antes por um dia, no curral onde andavam mandou que lh'a lançassem em camisa, e foi assim feito como elle mandou. E os leões vieram, e chegaram-se a ella, e prouve a Deus que lhe não fizeram nenhum nojo, mas assim como se d'ella houvessem piedade, se chegavam a ella sem lhe fazerem outro mal. Foi isto dito a el-rei por alguns seus, e mandou-a el-rei tirar d'alli, e entregar áquelles que a criavam, e poz-se porém em ella tal guarda, que nunca seu padre a poude haver. E levava-a el-rei então comsigo, e o conde a trouxe a el-rei de Portugal, e depois foi entregue a el-rei Dom Henrique, seu padre.

 
 
 

 




 



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