Chronica do senhor rei D. Pedro I oitavo rei de Portugal
*CAPITULO XXXVIII*   _De como el-rei Dom Pedro de Castella fez saber a seu tio que era em seu reino, e como se el-rei escusou de o vêr, e lhe fazer ajuda_. 

El Rei de Portugal, em esta sesão, pousava nos paços de Vallada, que são a cerca de uma villa que chamam Santarem, e era isto no mez de maio. E quando el-rei Dom Pedro, mandou sua filha Dona Beatriz, como anteagora ouvistes, para casar com o infante D. Fernando, por azo de haver melhor ajuda de el-rei seu tio, soaram primeiro novas em Vallada, onde pousava el-rei, que el-rei de Castella lhe mandava duas suas filhas, que estavam já nas Alcaçovas, que são d'alli vinte leguas; mas não sabiam dizer certamente porque as mandava a el-rei, nem em que intenção. El-rei de Portugal, que parte não sabia que el-rei seu sobrinho era em tal pressa posto, cuidando que as infantes vinham por outra maneira, porém que não era mais que aquella uma, mandava correger casas e camaras em seus paços, em que ellas bem podessem pousar.  

El-rei de Castella partiu de seu reino, e tão trigoso andar poz no caminho, sem se detendo em nenhum logar, que antes que sua filha chegasse onde el-rei de Portugal estava, a achou elle no caminho em que vinha. E chegou el-rei Dom Pedro a Serpa, e d'alli a Beja, e dês-ahi a Coruche, que eram vinte e uma leguas d'onde el-rei seu tio estava, e d'alli lhe fez saber como vinha, e a ajuda e accorrimento que lhe d'elle cumpria, e isso mesmo o casamento de sua filha com o infante Dom Fernando, seu filho.  

El-rei de Portugal, como isto soube, teve bem assaz em que cuidar, e mandou-lhe dizer que não fosse mais adiante, mas que estivesse alli até que visse seu recado. E mandou chamar o infante Dom Fernando seu filho, que não era ahi, e com elle e com seus privados houve conselho sobre este feito, e foi falado por alguns que o visse e acolhesse em seu reino, e que o ajudasse a cobrar sua terra. Dês-ahi, cuidando bem n'isto, acharam que o não podia el-rei fazer sem grandes trabalhos, e gasto, e mui grão damno de seu reino, e, o peior de tudo, não ter nenhumas azadas razões como tal feito podesse vir a acabamento, quejando cumpria, porque, el-rei Dom Henrique, seu irmão, tinha já toda Castella a seu mandar, salvo alguns logares, tão poucos, de que não era de fazer conta; e com isto haviam lhe grande odio todos os do reino, assim grandes como pequenos. De guisa que bem era de cuidar quanto todos fariam por cobrar em elle; pois quem houvesse de lançar fóra de Castella el-rei Dom Henrique e todos os da sua parte, assim por batalha como por guerra guerreada, grão poderio lhe convinha ter, e, não se fazendo segundo seu desejo, ficava ao depois em grande homisio e guerra com elle. Recebel-o outrosim em seu reino, e não trabalhar de o ajudar, era-lhe grande vergonha e prasmo; dês-ahi, vendo-o e falando-lhe, não se poderia escusar d'elle.   Porém accordaram que o mais são conselho era que o não visse elle nem o infante seu filho, buscando algumas rasões coloradas por que parecesse que direitamente se escusava.  

Então foi a Coruche o conde Dom João Affonso Tello, onde el-rei de Castella estava esperando a resposta de seu tio, cuidando de ser aposentado em Santarem, e disse-lhe como el-rei vira seu recado, e soubera parte da sua vinda de que guisa era, e que elle de boa mente o recebera em seu reino e o ajudara a cobrar sua terra, como era razão e direito, mas que por então não estava em ponto de o poder fazer como cumpria, porque d'aquellas vezes que lhe elle fizera ajuda, assim por mar como por terra, os fidalgos de seu reino vieram d'elle e de suas gentes mui mal contentes e escandalisados; e que vinham em sua companha taes, com que alguns houveram razões, e que era por força haver entre elles grandes bandos e arruidos, o que a serviço d'ambos pouco cumpria. Além d'isto, que sabia bem como o infante Dom Fernando, seu filho, era sobrinho da rainha Dona Joanna, que então novamente entrara em Castella, irmã de sua madre Dona Constança, filha de Dom João Manuel, e que não entendia de postar com elle que lhe muito prouvesse de tal ajuda. E foi assim certamente, segundo alguns escrevem, que o infante deu grão torva, porém razoada, em este feito. Com estas e outras razões escusou o conde el-rei seu senhor, que elle áquelle tempo o não podia vêr, nem lhe fazer mais ajuda da que feita havia; e despediu-se d'elle, e foi-se para a pousada.

 
 
 

 




 



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