Chronica do senhor rei D. Pedro I oitavo rei de Portugal
*CAPITULO XXXV* _Como el-rei Dom Pedro entrou outra vez em Aragão, com sua frota de naus e galés, e das cousas que alli fez_.

Partiu el-rei outra vez de Sevilha, em começo do anno de quatro centos e dois, aos quinze annos do seu reinado, e entrou em Aragão pelo reino de Valencia, e ganhou Alicante e outros logares. E chegando a cerca de Burriana, viu galés, e outros navios, que traziam mantimento a Valencia, de que estava mui minguada, e tornou-se do caminho por lhes dar torva, e poz seu arrayal onde chamam o Grao, na ribeira do mar, que é meia legua da cidade, e esperava cada dia sua frota, e galés de Portugal que lhe haviam de vir em ajuda, e todas estavam já em Cartagena, não havendo tempo com que partir.  

El-rei Dom Pedro, não sabendo novas de el-rei de Aragão, chegou um escudeiro a elle, e disse que el-rei de Aragão e o conde Dom Henrique, com todos os outros senhores e gentes, que poderiam ser tres mil de cavallo, afóra muitos homens de pé, vinham mui encobertamente por pelejar com elle, antes que d'alli partisse; e que vinham pelo mar, a geito d'elles, doze galés e outros navios com mantimentos, e que tres noites havia que não faziam fogo, por não serem descobertos, e que ao outro dia seriam com elle.

El-rei, ouvindo isto, partiu logo d'alli e foi-se a Monvedro, que eram quatro leguas. Outro dia, grande manhã, chegou el-rei de Aragão, e pousaram todos entre Monvedro e o mar, uma legua da villa, e suas galés e naves a cerca, e foi acorrida a cidade por mar e por terra. E a cabo de doze dias chegou a frota de el-rei de Castella, que eram vinte galés suas e quarenta naus, e dez galés de Portugal, que lhe enviava seu tio em ajuda.  

A frota de Aragão, quando viu a de Castella, houve receio, e metteu-se no rio de Culhera. El-rei Dom Pedro entrou logo na frota, e foi-se pôr na bôca do rio, cuidando tomar as galés de Aragão. E estando alli, começou de ventar o levante, que é travessia n'aquelle logar, e mostrando o mar sua grande braveza, cuidaram todos que quebrassem suas galés em terra: e el-rei de Aragão, com todas suas gentes, aguardavam em terra por ellas, crendo todavia, por o vento que se esforçava cada vez mais, que de todo ponto eram perdidas. E a galé de el-rei perdera já tres calabres com suas ancoras, e sobre o quarto estava seu feito. Ao sol posto cessou a tormenta, e foi el-rei em mui grão perigo, e partiu d'alli deixando seus fronteiros, e tornou-se para Castella.  

El-rei de Aragão cercou Monvedro e não o poude tomar, e partiu d'alli, e foi-se andar por seu reino em tanto.   E deu outra vez volta el-rei de Castella, e partiu de Sevilha, e entrou por Aragão, e tomou alguns logares. E os da villa de Orihuela, cuidando de ser cercados, fizeram-no saber a el-rei de Aragão, e veiu logo com seu poder, a duas leguas de onde el-rei de Castella estava, e abasteceu-a de viandas de que era minguada.  

E el-rei Dom Pedro não quiz pelejar com elle, mas esteve alguns dias por aquella terra, e tornou-se para Sevilha, e achou novas como as suas galés, que andavam pelo mar, tomaram cinco galés de Aragão, e foi-se logo a Cartagena, onde estavam, e mandou matar toda a gente d'ellas, que não escapou sómente um, salvo os que sabiam fazer remos, porque os houve mister.  

D'alli partiu el-rei Dom Pedro para Murcia, sabendo como el-rei de Aragão cercara Monvedro, e foi cercar a villa de Orihuela que dissemos, e ganhou a villa e o castello, e tornou-se para Sevilha. Os de Monvedro, afincados do cerco e sendo minguados muito de viandas, requeriam muito a mercê de el-rei que lhes accorresse; e el-rei, porque lhes não podia accorrer senão por batalha, não era ousado de o fazer, cá elle não queria pelejar com el-rei de Aragão, receiando-se dos seus, de que muito não fiava. E porém buscava outras maneiras de guerra e não por batalha, cá el-rei Dom Pedro por muitos que mandara matar, e pelos do reino que sabia que eram d'elle mal contentes e o desamavam, não se atrevia a pôr o campo.  

Os de Monvedro minguados de viandas, em guisa que já comiam as bestas e ratos, deram a el-rei de Aragão o logar por preitesia. E eram dentro, para o defender seiscentos homens de armas, afóra peões e bésteiros, e os mais d'elles ficaram com o conde Dom Henrique, por grande receio que haviam de el-rei, não embargando o accorrimento que d'elle haver não puderam.

 
 
 

 




 



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