Chronica do senhor rei D. Pedro I oitavo rei de Portugal
*CAPITULO XXVI* _ Como o cardeal de Bolonha quizera tratar paz entre os reis e não poude, e como as gentes d'el-rei Dom Pedro pelejaram com o conde e o desbarataram_.

Tendo o cardeal de Bolonha, que andava em Aragão por avir estes reis, como el-rei Dom Pedro havia perdida parte de sua gente n'aquella batalha que houvera o conde Dom Henrique com Dom Fernando de Castro, e como se alguns cavalleiros partiam d'elle, e se iam para Aragão, teve que, por estas e outras razões, elle se chegaria a alguma boa avença para haver paz com el-rei de Aragão, e fez saber a ambos os reis se lhes prazeria de falar mais n'isto, e outorgou cada um que sim.  

O cardeal se veiu então para Tudella, que é do reino de Navarra, e chegou ahi Guterre Fernandez de Toledo por procurador d'el-rei de Castella, e Dom Bernardo de Cabrera, procurador d'el-rei de Aragão, e estiveram por dias, e não se avieram.  

El-rei Dom Pedro, como isto soube, partiu de Sevilha para Leon, por quanto lhe disseram que o conde Dom Henrique, e Dom Tello, e outros senhores de Aragão, se juntavam para entrar por Castella; e d'alli partiu, e veiu a Valhadolid, sabendo como já eram entradas aquellas gentes em seu reino, e mataram os judeus de Najara e d'outros logares, e roubavam as judiarias. E o conde chegou a Pancorvo e assocegou ahi alguns dias, e depois se partiu para Najara, e el-rei foi allá com seu poder, e pousou em um logar que chamam Acofra.  

E alli chegou a elle um clerigo de missa, natural de São Domingos da Calçada, e contou-lhe que São Domingos lhe dissera, em sonhos, que viesse a elle e lhe dissessé que fosse certo que não se guardando do conde Dom Henrique, que elle o havia de matar por sua mão. E el-rei cuidou que o clerigo lh'o dizia por induzimento, pero o clerigo dizia que não, e mandou-o queimar ante si.  

E partiu el-rei uma sexta-feira para Najara, onde o conde estava, e elle era fóra da villa com oitocentos de cavallo e dois mil homens de pé. E mandara pôr o conde, ante a villa, n'um outeiro, uma tenda e um pendão; e os d'el-rei que iam diante pelejaram com o conde e venceram-no, e tomaram a tenda e o pendão, e morreram ahi parte dos seus. E partiu-se el-rei, á tarde, para Acofra, onde tinha seu arrayal.  

E em outro dia, vindo para combater Najára, onde ficara o conde, achou no caminho um escudeiro que vinha fazendo pranto por um seu tio que lhe mataram, e el-rei houve-o por forte signal e não quiz lá ir, e tornou-se para São Domingos da Calçada.  

E d'ahi a dois dias lhe disseram que era partido o conde para Aragão, levando caminho de Navarra, e quizera-o el-rei seguir, e o cardeal lhe conselhou que o não fizesse, cá assaz abundava deixarem-lhe suas villas e irem-se. E el-rei mandou aos seus que estivessem quedos, e d'aquelle logar ordenou seus fronteiros para os logares onde cumpria, e veiu-se para Sevilha.  

Elle alli soube como um cavalleiro de Aragão, que chamavam Mateo Mercedi, andava no mar com quatro galés fazendo damno a castelhanos e a portuguezes, e fez armar cinco galés, e mandou n'ellas um seu bésteiro, que diziam Zorzo, natural de Tartaria, que fosse em busca d'aquelle corsario; e foi assim que o achou na costa da Berberia, onde pelejou com elle, e desbaratou-o e trouxe as galés e elle preso a Sevilha: e el-rei mandou-o matar, e muitos dos que vinham com elle.   Mas ora deixemos el-rei em Sevilha, matando e prendendo quaes vos depois contaremos, e digamos algumas outras cousas que este anno aconteceram em Portugal, que nos parece que é bem que saibaes.

 
 
 

 




 



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