Chronica do senhor rei D. Pedro I oitavo rei de Portugal
*CAPITULO XXIV*   _Como el-rei de Castella enviou pedir ajuda de galés a el-rei de Portugal, e como partiu com sua frota por fazer guerra a Aragão_.

Sendo el-rei de Castella em tal desaccordo com el-rei de Aragão, e tendo vontade de fazer grande armada contra seu reino em este anno de mil e trezentos e noventa e sete, pero assaz de frota tivesse, assim de naus como de galés, não foi d'isto ainda contente, e mandou dizer a el-rei de Portugal, seu tio, por João Fernandez de Hinestrosa, seu camareiro-mór, que lhe rogava que as dez galés, que lhe promettidas havia de dar em ajuda contra Aragão, que as mandasse fazer prestes, cá lhe eram muito cumpridoras.  

A el-rei prouve muito d'ello, e mandou logo armar de boas gentes dez galés e uma galeota, e o seu almirante Misser Lançarote em ellas.   El-rei como soube que as dez galés de Portugal eram prestes, partiu de Sevilha no mez de abril meiado, com toda sua armada junta, a qual eram oitenta naus de castello d'avante, e vinte e oito galés suas, e duas galeotas e quatro lenhos, e mais tres galés d'el-rei de Granada, que lhe enviara em ajuda a seu requerimento.  

E esteve el-rei em Aljazira quinze dias, aguardando pelas galés de Portugal, e quando viu que não vinham, partiu para Cartagena, e alli esperou todas suas naus; e foi sobre Guadamar, e tomou a villa e o castello, e d'alli foi pela costa, combatendo alguns logares que tomar não poude, e chegou ao rio de Ebro, a cerca de Tortosa, cidade de Aragão, e alli chegaram as dez galés de Portugal, que lhe el-rei seu tio enviava em ajuda. E prouve muito a el-rei com ellas, e a todos os da frota, e tinha el-rei então, por todas, quarenta e uma galés, afóra as fustas pequenas.  

E partiu el-rei d'alli com toda armada e chegou a Barcelona, uma vespera de paschoa, onde estava el-rei de Aragão; e achou doze galés armadas, e não as poude tomar, cá se puzeram todas a travez, junto com a cidade, e d'alli as defendiam com muita bésteria e trons.  

E esteve el-rei ante Barcelona, com toda sua frota, tres dias, e d'alli se foi á ilha de Iviça, e cercou uma boa villa que ha assim nome; e tendo-a afincada com engenhos e bastidas, soube como el-rei de Aragão tinha armadas quarenta galés com que estava na ilha de Mayorca, e queria pelejar com elle.  

E el-rei de Castella, como isto soube, disse que lhe não cumpria estar mais em terra, nem curar de cerco d'aquelle logar, pois todo o feito da guerra havia de haver fim por aquella batalha, em que os reis haviam de ser por seus corpos. E fez logo recolher toda sua gente á frota, e metteu-se el-rei n'uma grande galé, que fôra dos mouros, que passava quarenta cavallos sob sota, e mandou fazer n'ella tres castellos de madeira, um na pôpa e outro na prôa, e um na metade, e pôz n'ella cento e sessenta homens d'armas e cento e vinte bésteiros. E partiu el-rei, de Iviça, com toda sua frota, e veiu-se a um logar que dizem Calpe, e alli ancoraram as naus e galés a cerca de terra, traz uma alta penha que ahi ha, de guisa que se não podiam ver, salvo de perto.  

As galés de Aragão appareceram d'alli á vella até duas leguas, pouco mais ou menos, dentro no mar, e eram quarenta sem outros navios, e não vinha el-rei n'ellas, cá os seus não quizeram, e ficou em Mayorca. Ellas não haviam vista da frota de Castella, por aso d'aquella grande penha que as amparava; e vinham todas á vella, n'esta ordenança: em meio d'ellas eram duas galés grossas, com castellos feitos de que pelejassem, e n'uma vinha o conde de Cardona, e n'outra Dom Bernardo de Cabrera, almirante de Aragão; e duas galés de guarda vinham diante por grão espaço das outras; e muitas gentes de pé e de cavallo, por terra, para as ajudarem se mister fizesse.  

As duas galés, que vinham diante, como houveram vista das naus e frota de Castella, calaram as vellas e tomaram os remos; as outras todas, como isto viram, fizeram logo por aquella guisa por se ordenarem á sua vontade; e sabendo parte das naus que ahi eram, de que houveram mui grande receio, não as ousaram de attender no mar, e logo essa tarde, á hora de vespera, se metteram todas no rio de Denia.  

El-rei Dom Pedro fez logo fazer todos os seus prestes, cuidando outro dia de haver batalha; e o mar era tão sem vento que se não podia aproveitar das naus; e havido seu conselho, em que eram desvairados accordos, determinou que pois a armada dos imigos jazia em tal rio, que por sua estreitura não podia pelejar com elles, que se fossem entanto para Alicante, por vêr se quereriam depois pelejar.   E el-rei como d'alli partiu com a sua frota, e as galés de Aragão vieram-se lançar em Calpe, onde a frota de Castella jazera primeiro.

 
 
 

 




 



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