Chronica do senhor rei D. Pedro I oitavo rei de Portugal
*CAPITULO XXIII* _Como veiu o cardeal de Bolonha para fazer paz entre el-rei de Castella e el-rei de Aragão, e os não poude pôr de accordo_.

Estando el-rei Dom Pedro assim em Sevilha, soube como Dom Guilhem, cardeal de Bolonha, era na villa de Almaçan, por tratar paz entre elle e el-rei de Aragão. E fez saber o cardeal a el-rei se lhe prazia de ir a Sevilha, onde elle estava, ou se aguardaria alli por elle, havendo de ir para aquella comarca.  

E el-rei era já partido de Sevilha para a fronteira de Aragão, quando lhe chegou este recado em Villa Real, e disse que lhe prazia muito com sua vinda, e que o aguardasse n'aquella villa, cá elle ia direitamente para ella. E foi assim que chegou ahi el-rei a poucos dias, e falou o cardeal a el-rei, presentes os do seu conselho, tudo o que lhe o papa enviava dizer, assim do nojo que tomava pela guerra em que eram elle e el-rei de Aragão, como do grão prazer que haveria se os visse postos em paz.  

El-rei respondeu que a guerra que elle havia com el-rei de Aragão era muito por sua culpa, e contou ao cardeal o que lhe adviera com o capitão de suas galés na foz de Barrameda de San Lucar, como já ouvistes, e como fizera saber tudo a el-rei de Aragão, e que nunca quizera tornar a ello como devia, e demais, que mandara a França por todos seus inimigos, para lhe fazer com elles guerra.  

O cardeal disse que queria ir falar a el-rei de Aragão sobre isto, e el-rei disse que lhe prazia, e que de boamente haveria com elle paz, fazendo el-rei de Aragão estas cousas: primeiramente, que lhe entregasse aquelle cavalleiro, para d'elle fazer justiça onde elle quizesse, e que lançasse fóra do reino o infante Dom Fernando, marquez de Tortosa, seu irmão, e mais D. Henrique, conde de Trastamara, e todos os outros que vieram em ajuda da guerra, e que lhe desse os castellos de Oriola e Alicante, e outros logares que foram de Castella antigamente, e mais pelas despezas que fizera na guerra lhe tornasse quinhentos mil florins.  

O cardeal, pero lhe isto parecessem cousas desarrazoadas, disse que lhe prazia de tomar cargo de ir falar a el-rei de Aragão sobre ello; e chegou a Aragão e contou a el-rei, por miudo, todas as cousas que lhe el-rei dissera.   El-rei de Aragão respondeu, dizendo assim:--Cardeal amigo, bem vêdes vós que se elle houvesse vontade de haver comigo paz, que me não demandaria taes cousas como me envia requerer; cá o cavalleiro não é direito que lh'o entregue para o matar, pois não fez por quê; mas isto quero fazer, mande-o accusar por direito, e se for achado que merece morte, eu lh'o quero entregar preso, que o mande matar em seu reino. Ao que diz que envie eu fóra de meu reino Dom Henrique, Dom Tello, e Dom Sancho, seus irmãos, pois são seus inimigos, digo que me praz, se ficar com elle de accordo, mas desterrar fóra do reino o infante Dom Fernando, meu legitimo irmão, isto me parece estranho de pedir. Os logares que me requere que lhe entregue, não tenho razão por quê, cá foram julgados a este reino por sentença de el-rei Dom Diniz de Portugal, e pelo infante Dom João de Castella, presentes muitos fidalgos de seu reino, e elle e eu temos cartas de como foram partidos. As despezas que fez na guerra não sou tido de lhe pagar, cá se não começou por minha vontade, antes me pezou muito, e peza, de haver entre mim e elle tal desvairo; mas tanto lhe farei, se houvermos paz, que havendo elle guerra com el-rei de Granada ou de Bellamarin, que o quero ajudar seis annos com dez galés armadas á minha custa quatro mezes cumpridos, e se mouros passarem, e lhe convier pôr a praça, que o ajude com meu corpo e gentes, e ser com elle no dia da batalha. De outra guisa, dizei que lhe requeiro, da parte de Deus, que me não queira fazer guerra, pois justa razão não tem, e se o de outra guisa fizer, deixo tudo na ordenança e justiça de Deus.  

Tornou o cardeal a el-rei de Castella, e contou-lhe isto que ouvistes, e el-rei começou-se de queixar, dizendo que el-rei de Aragão não prezava a guerra, nem se queria chegar para haver avença com elle, mas que d'esta vez provaria cada um para quanto era, porém, por elle entender que lhe prazia de haver paz, que elle se partia das outras cousas que demandava, e que lhe desse os cinco logares que lhe requeria, e que lançasse de seu reino seus irmãos e as gentes que eram com elles.  

O cardeal foi d'isto mui lêdo, tendo que pois se el-rei D. Pedro descia do que á primeira dissera, que poderia aproveitar n'este tratamento, e foi-se a Calatayud, onde el-rei de Aragão estava, e contou-lhe como el-rei, por bem de paz, requeria sómente estas duas cousas.  

El-rei de Aragão houve accordo com os do seu conselho, e disse que as gentes todas lançaria fóra mas que nenhuma villa nem castello não entendia de dar de seu reino, e que el-rei de Castella devia ser bem contente da primeira resposta.  

Quando o cardeal tornou com este recado, foi el-rei Dom Pedro mui sanhudo, dizendo que tudo eram razões, pelo estorvar da armada que fazer queria, e porém disse ao cardeal que lhe perdoasse, cá não entendia de falar mais n'isto, mas continuar sua guerra o mais que pudesse. Ao cardeal pezou muito de tal resposta, e não podendo mais fazer, cessou de falar em ello.  

El-rei Dom Pedro mui sanhudo, por tomar logo alguma vingança, passou por sentença contra o infante Dom Fernando, seu primo, e contra o conde Dom Henrique, e outros cavalleiros muitos, por a qual razão os perdeu então de todo ponto, e o peior d'isto: mandou matar a rainha Dona Leonor, sua tia, madre do dito infante Dom Fernando, e Dona Joanna de Lara, mulher de Dom Tello, seu irmão; nas quaes cousas cumpriu sua vontade, e não fez muito de seu serviço. E depois que mandou fazer estas e outras cousas, pôz seus fronteiros contra Aragão, e partiu de Almaçan, e veiu-se a Sevilha.

 
 
 

 




 



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