Chronica do senhor rei D. Pedro I oitavo rei de Portugal
*CAPITULO XX* _Como el-rei Dom Pedro fez matar o mestre de São Thiago Dom Fradarique, seu irmão, no alcaçar de Sevilha_.

Se dizem que o que faz nojo a outrem escreve o que faz no pó, e o injuriado em pedra marmore, bem se cumpriu isto em el-rei Dom Pedro; cá elle movido por sobejo queixume contra seus irmãos e outros do reino, por aso da tenção que tomaram em favor da rainha Dona Branca e contra os parentes de Dona Maria de Padilha, segundo ouvistes (que já em tempo havia mais de trez annos, andando então a era em mil e trezentos e noventa e seis,) ordenou em Sevilha, alli onde estava, de matar o mestre de São Thiago Dom Fradarique, seu irmão, e mandou-o chamar onde vinha da guerra que fôra tomar a villa de Jumilha, que é no reino de Murcia, por lhe fazer serviço.  

E no dia que o mestre havia de chegar á cidade, chamou el-rei em sua camara o infante Dom João, seu primo, e tomou-lhe juramento sobre a Cruz e os Evangelhos, e descobriu-lhe como o queria matar, rogando-lhe que o ajudasse a fazer tal obra, e ter-lh'o-hia em serviço, e como fosse morto, que logo entendia de ir a Biscaia matar o outro irmão Dom Tello, e dar-lhe a elle as suas terras. O infante Dom João respondeu que lhe tinha em grande mercê querer fiar d'elle seus segredos, e que lhe prazia muito do que tinha ordenado, e era contente de o fazer assim.  

N'isto chegou Dom Fradarique, antes de comer, uma terça-feira, vinte e nove dias de maio, e como chegou de caminho foi logo vêr el-rei, que estava no alcaçar da cidade jogando as tabolas, e beijou-lhe a mão e muitos cavalleiros com elle. E el-rei o recebeu mui bem, mostrando-lhe boa vontade, e perguntou-lhe d'onde partira, e que pousadas tinha. O mestre disse que partira de Santilhana, que são d'alli cinco leguas, e que as pousadas cuidava que seriam boas. E el-rei, porque entraram muitos com o mestre, disse que se fosse aposentar, e depois se viria para elle.  

O mestre partiu-se, e foi vêr Dona Maria de Padilha e as sobrinhas, que estavam em outra parte dos paços, e d'alli se veiu ao curral onde deixara as bestas, e não achou ahi nenhuma, cá assim fora mandado aos porteiros.  

O mestre não sabendo se tornasse a el-rei, ou que fizesse, disse-lhe um seu cavalleiro, suspeitando mal de tal feito, que se saisse pelo postigo do curral, que estava aberto, cá lhe não minguaria besta se fosse fóra. Elle cuidando se o faria, vieram-lhe dizer que o chamava el-rei, e elle começou de tornar para el-rei, pero espantado, receando-se muito. E como ia entrando pelas portas dos paços e das camaras, assim ia cada vez mais desacompanhado, em guisa que quando chegou onde el-rei estava, não ia com elle salvo o mestre de Calatrava. E estiveram á porta ambos, e não lhes abriram; e pero lhe todas estas cousas apresentavam mensagem de morte, vendo-se sem culpa, tomava já em si quanto de esforço.  

N'isto abriram o postigo do paço onde el-rei estava, e el-rei disse a Pero Lopez de Padilha, seu bésteiro-mór, que prendesse o mestre.

--Senhor, disse elle,--qual d'elles?

--O mestre de São Thiago,--disse el-rei.

E elle travou d'elle, dizendo:

--Sêde preso!  

O mestre ficou espantado, e quando ouviu outra vez que el-rei dizia aos bésteiros da maça que o matassem, desenvolveu-se de Pero Lopez, que o tinha preso, e houve-se no curral; e quiz tirar a espada que tinha na cinta, e foi sua ventura que não poude, por aso do tabardo que tinha vestido, e andando muito rijo de uma parte á outra, não o podiam ferir os bésteiros com as maças, até que o houveram de ferir, e caiu em terra morto.  

El-rei, quando viu o mestre jazer em terra, saiu pelo alcaçar cuidando achar alguns dos seus para os matar, e não os achou, cá eram fugidos e escondidos. E achou no paço onde estava Dona Maria de Padilha, Sancho Diaz de Vilhegas, camareiro-mór do mestre, que se acolhera alli quando ouviu dizer que o matavam, e tomou Dona Beatriz, filha de el-rei, nos braços, cuidando por ella escapar da morte, e el-rei fez-lh'a tirar das mãos, e deu-lhe com uma brocha que trazia, e matou-o. E tornou-se onde jazia o mestre, e achou que não era bem morto, e fel-o matar a um seu moço da camara: d'ahi, foi-se assentar a comer.  

E mandou logo n'esse dia, pelo reino, que matassem estas pessoas, a saber: em Cordova, a Pero Cabrera, um cavalleiro que ahi morava, e um jurado que diziam Fernando Affonso de Gachete; e mandou matar Dom Lopo Sanchez de Vendano, commendador-mór de Castella; e mataram, em Salamanca, Affonso Jofre Tenorio; e em Toro, Affonso Perez Fermosilhe; e mataram, em Mora, Gonçalo Mendez de Toledo. E estes dizia el-rei que mandava matar porque foram da parte da rainha Dona Branca; e pero lhes el-rei havia já perdoado, não curando do que promettera, mandou a todos cortar as cabeças.        

 
 
 

 




 



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