Chronica do senhor rei D. Pedro I oitavo rei de Portugal
*CAPITULO XVII* _ Como se começou o desvairo entre el-rei Dom Pedro de Castella e o conde Dom Henrique, seu irmão, o qual foi aso porque se o conde foi fóra do reino_.

Pois havemos de fazer menção, ao diante, da guerra e grande desvairo que depois houve entre o conde Dom Henrique e el-rei Dom Pedro, seu irmão, necessario é que contemos primeiro como se começou sua desavença e de que guisa se elle partiu do reino: e isto, antes que entremos na guerra de Castella com el-rei de Aragão, em cuja ajuda elle depois veiu.  

Onde sabei que morto el-rei Dom Affonso sobre o cerco de Gibraltar, que foi na era de mil e trezentos e oitenta e oito annos, no mez de março, e tomando todos por seu rei o infante Dom Pedro seu primogenito filho, sendo então em idade de quinze annos, e estando na cidade de Sevilha, --partiram do arrayal com o corpo de el-rei, para o virem soterrar a Castella, muitos dos senhores e fidalgos que eram alli com elle, assim como o infante Dom Fernando, filho de el-rei de Aragão, marquez de Tortosa, sobrinho do dito rei Dom Affonso, filho da rainha Dona Leonor sua irmã, e Dom Henrique conde de Trastamara, e Dom Fradarique mestre de São Thiago, seu irmão, filhos de Leonor Nunez, e do dito rei Dom Affonso, e Dom João Affonso de Albuquerque, e outros senhores, e mestres, e ricos-homens. E passando o corpo de el-rei perante a villa de Medina Sidonia, que era de Leonor Nunez, ella se foi dentro ao lugar; porquanto Affonso Fernandez Coronel, que a tinha por ella, lhe disse que a não queria mais ter. E foi por esta entrada, que Leonor Nunez fez n'aquelle logar, mui grande murmurio entre os senhores e cavalleiros que levavam o corpo d'el-rei, cuidando que ella se punha alli em esforço dos filhos e parentes seus, que alli vinham.  

E Dom João Affonso de Albuquerque, quando viu aquella ficada que os filhos e parentes de Leonor Nunez faziam com ella n'aquelle logar, que era bem forte, tratou com alguns que o conde Dom Henrique e Dom Fradarique seu irmão, estivessem n'aquella villa como presos. E soube-o Leonor Nunez, e tomou mui grão medo. E trataram com ella, segurando-a Dom João Nunez de Lara que tinha sua filha esposada com Dom Tello, seu filho d'ella, cuidando ella que tal segurança fosse firme.  

E saiu-se do logar ella e seus filhos, e Dom Pedro Ponce de Leon, e Dom Fernão Perez Ponce seu irmão, mestre de Alcantara, e Dom Alvaro Perez de Guzman, e outros seus parentes, e houveram todos accordo de se apartar de el-rei, receando-se muito de irem a Sevilha, onde el-rei Dom Pedro estava, e serem presos. E logo n'esse dia que partiram de Medina, se foram a Moram, que é uma villa e castello bem forte a cerca de terra de mouros, e não segurando ainda de estar alli, foram-se para Aljazira, que tinha Dom Pero Ponce, e Dom Fradarique se tornou para a terra da ordem de São Thiago.  

A rainha Dona Maria, com seu filho el-rei Dom Pedro e todos os que eram em Sevilha, saíram fóra da cidade receber o corpo de el-rei, e foi-lhe feito mui honradamente tudo aquillo que cumpria, e soterrado na egreja de Santa Maria, na capella dos Reis.  

El-rei D. Pedro, sabendo a partida de seus irmãos e dos outros fidalgos, e como estavam em Aljazira, mandou saber secretariamente que maneira tinham, e achou que se apoderavam do logar o mais que podiam; e mandou lá galés armadas, e Guterre Fernandez de Toledo por capitão: e o conde D. Henrique, e os outros vendo que lhes não cumpria estar alli, tornaram-se para Moram, onde estava Dom Fernão Rodriguez Ponce.  

Em isto foi-se Dona Leonor Nunez a Sevilha, e posta de parte a segurança que lhe feita tinha, mandou-a el-rei guardar mui bem no alcaçar, e trataram depois, por parte de el-rei, com o conde Dom Henrique, e com os outros senhores, de guisa que se vieram todos a Sevilha para el-rei. E o conde ia vêr cada dia sua madre, com a qual estava Dona Joanna, filha de Dom João Manuel, sua esposa. E houveram accordo, a madre com o filho, que houvesse ajuntamento com sua esposa, por se não desfazer o casamento segundo rugiam; e fel-o assim, e pezou d'isto muito a el-rei, e á rainha sua madre, e a outros muitos, e por isto defendeu el-rei que a não fosse nenhum mais vêr: e levaram-na d'alli para Carmona, e o conde Dom Henrique fugiu para as Asturias, por quanto lhe disseram que o mandava el-rei prender. Depois foi levada Dona Leonor, sua mãe, a Talavera, e alli a mandou matar a rainha Dona Maria por Affonso Fernandez de Olmedo, seu escrivão, como já tendes ouvido.  

O conde Dom Henrique estando nas Asturias, ouviu como el-rei mandara matar sua madre, e depois Garcia Lasso, adiantado de Castella, e não ousou de estar alli, e foi-se a Portugal para el-rei Dom Affonso: e quando el-rei Dom Pedro fez vistas com seu avô em Cidade Rodrigo, como dissemos, rogou el-rei Dom Affonso a seu neto que perdoasse ao conde, e elle perdoou-lhe, e tornou-se o conde para as Asturias, cá não ousou de se ir para el-rei.

E elle nas Asturias, soube el-rei como abastecia Gijon, e foi-se lá, e cercou o lugar, onde estava sua mulher Dona Joanna, cá elle não se atreveu de o esperar alli, e foi-se em tanto a uma montanha mui forte que dizem Montojo, e os de Gijon pleitearam com el-rei que perdoasse ao conde, e a el-rei prouve, e tornou-se.  

E quando el-rei houve de fazer suas bôdas em Valhadolid com Dona Branca, segundo contámos, chegou o conde Dom Henrique e Dom Tello seu irmão, e trazia o conde seiscentos homens de cavallo e mil e quinhentos de pé; e sendo em Cijalles, duas leguas d'onde el-rei estava, mandou-lhe dizer que não ousaria de entrar na villa, salvo com toda sua gente, porquanto se receava de alguns que eram na côrte. E el-rei mandou-o segurar: não se fiaram do seguro, e houveram de pelejar com el-rei, que sahiu a elles. Depois, foram de accordo com elle, e ficaram em sua mercê.  

Casou el-rei com Dona Branca, e deixou-a em outro dia, e foi-se para Dona Maria de Padilha. E d'essa idéia foi desavindo d'elle Dom João Affonso de Albuquerque que governava a casa d'el-rei. E tratou-se depois que Dom João Affonso estivesse em Portugal, se quizesse, e que seus castellos e bens, que havia em Castella, fossem seguros: prometteu-lh'o el-rei assim, e depois que Dom João Affonso foi em Portugal, cercou-lhe el-rei Medelin, e cobrou-o, e fel-o derribar, e depois cercou Albuquerque, e não o podendo tomar, partiu-se d'alli, e deixou por fronteiros, em Badalhouce, o conde Dom Henrique e o mestre de São Thiago Dom Fradarique, seu irmão.  

Partido el-rei d'alli, enviou o conde seu recado a Dom João Affonso, que fossem todos trez amigos, e entrassem por Castella, e a elle prouve muito, e firmaram seu preito de ser assim; e houveram Dom Fernando de Castro em sua ajuda, que estava em Galliza, e começaram de entrar por Castella, fazendo n'ella grande estrago.  

N'isto mandou el-rei Dom Pedro João Affonso de Henestrosa, seu camareiro-mór, a Arevalo onde estava a rainha Dona Branca, sua mulher, que a trouxesse ao alcançar de Toledo, e elle trazendo-a pela cidade, disse ella que queria ir primeiro fazer oração á igreja de Santa Maria, e dês-que foi dentro na igreja, não quiz mais sahir d'ella, receando-se de ser morta ou presa. João Affonso não se atreveu de a fazer sahir da igreja contra sua vontade, e tornou-se para el-rei. Os moradores de Toledo falando sobre isto, houveram piedade da rainha, e accordaram de a não deixar prender nem matar n'aquella cidade, e determinaram de pôr por ella os corpos, e quanto haviam. E mandaram primeiro por Dom Fradarique mestre de São Thiago, e colheram-no dentro com suas companhas, e mais enviaram suas cartas ao conde Dom Henrique, e a Dom João Affonso d'Abuquerque, e a Dom Fernando de Castro, fazendo-lhe saber sua intenção; e tiveram com Toledo, por parte da rainha, a cidade de Cardona, e Cuenca, e o bispado de Jaen e Talavera. Que cumpre dizer mais: os infantes Dom Fernando e Dom João, primos d'el-rei, e muitos senhores e cavalleiros, se partiram d'elle por ajudar a tenção dos outros, em guisa que não ficaram com el-rei mais de seiscentos de cavallo. E todos aquelles senhores lhe mandavam dizer que prestes eram para o servir e fazer seu mandado, com tanto que tomasse sua mulher, e vivesse com ella e não regesse o reino pelos parentes de Dona Maria de Padilha, nem os fizesse seus privados: e el-rei não quiz cair em tal preitesia.  

N'isto adoeceu Dom João Affonso de Albuquerque, e el-rei mandou encobertamente tratar com o physico, que pensava d'elle, que lhe faria mercês e que lhe desse com que morresse; e elle fel-o assim, segundo depois foi sabido; e os vassalos de Dom João Affonso prometteram de não enterrar o seu corpo até que esta demanda fosse acabada, e elle assim o mandou em seu testamento. E quando aquelles senhores ordenavam conselho sobre aquillo que lhes convinha fazer, falava em lugar de Dom João Affonso, Ruy Dias Cabeça-de-Vacca, que fôra seu mordomo-mór. E eram as gentes d'estes senhores todos até cinco mil de cavallo, e muita gente de pé.  

Acima vendo el-rei como perdia as gentes por esta guisa, houve conselho de se pôr em poder d'elles, na villa de Toro, e alli partiram elles logo os officios do reino e da casa d'el-rei entre si, de guisa que a el-rei não prouve; e então foram enterrar o corpo de Dom João Affonso, tendo que sua demanda era já acabada.  

El-rei sentindo-se como preso, segundo a maneira que com elle tinham, fingiu que queria ir á caça, e uma grande manhã cavalgou, e foi-se para Segovia, e foram-se os infantes para el-rei por suas preitesias, e começou-se de desfazer a companhia que se antes juntara. E o conde Dom Henrique, e Dom Tello e Dom Fradarique, seus irmãos, ficaram a uma parte, e seriam por todos até mil e duzentos de cavallo, e muitos homens de pé. E houveram entrada em Toledo, e foi el-rei á cidade, e cobrou-a, e elles deixaram-na, e foram-se.  

Depois lhes enviou rogar a rainha Dona Maria que se fossem para Toro, onde ella estava, receando-se del-rei, seu filho; e foram-se allá, e chegou ahi el-rei com suas gentes, e pelejaram nas barreiras, e não poude el-rei ahi assocegar por mingua d'agua, e partiu-se d'ahi.  

E depois que se el-rei foi, partiu-se o conde Dom Henrique para Galliza, uns diziam que para se ajuntar com Dom Fernando de Castro, outros affirmavam que o fazia o conde por não ser cercado. E quizera el-rei partir empoz elle, e depois houve em conselho de tomar primeiro a villa de Toro; e cercou-a outra vez, e tratou com Dom Fradarique, seu irmão, e do conde Dom Henrique, que ficava na villa por guarda, que se fosse para elle: e elle fel-o assim. E em outro dia cobrou el-rei a villa, por uma porta que lhe deram, e prendeu Dona Joanna, mulher do conde Dom Henrique, e fez matar alguns do lugar, e mais aquelles cavalleiros que foram mortos acerca da rainha sua madre, como dissemos.  

Quando o conde Dom Henrique soube como el-rei cobrara a villa de Toro, e matara aquelles cavalleiros que tinha por sua parte, e que o mestre Dom Fradarique, seu irmão, era já com el-rei de accordo, entendeu que lhe não cumpria mais aporfiar na guerra, nem estar mais tempo no reino e preitejou com el-rei, que lhe desse cartas de seguro para se ir para França: e a el-rei prouve disto, e deu-lh'as.  

E soube o conde como el-rei mandara ao infante Dom João e a Diego Perez Sarmento seu adiantado-mor, e a todos os outros cavalleiros e officiaes das comarcas por onde elle cuidava que o conde fosse, que lhe tivessem o caminho e o matassem; assim como depois matou todos os senhores e homens de estado que foram na companhia da demanda que se levantou contra elle por razão da rainha Dona Branca.  

E o conde partiu de Galliza, e foi pelas Asturias, por quanto por aquella comarca não havia mandamento d'el-rei, pensando elle pouco que fosse por alli, e passou trigosamente, e foi-se pela Biscaia, onde estava Dom Tello seu irmão, e d'ahi se passou por mar á Rochella, onde achou el-rei de França, que havia guerra com os inglezes, e tomou d'elle soldo.  

E d'esta guisa foi sua desavença com el-rei Dom Pedro seu irmão, e partida do reino de Castella, durando n'estas desavenças, todas que ouvistes n'este capitulo, passados de sete annos.

 
 
 

 




 



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