Chronica do senhor rei D. Pedro I oitavo rei de Portugal
*CAPITULO XVI* _ De algumas pessoas que el-rei D. Pedro de Castella mandou matar, e como casou com a rainha Dona Branca e a deixou_.

Segundo testemunho de alguns, que seus feitos d'este rei de Castella escreveram, elle foi muito cumpridor de toda cousa que lhe sua natural e desordenada vontade requeria: em tanto que dizendo nós, pelo miudo, tudo o que feiamente se poderia ouvir de seus feitos, caíriamos em reprehensão, que não eramos escasso de contar os males alheios, mormente taes que são pregoeiros de má e vergonhosa fama, porém muito menos d'aquelles que achamos escriptos, dos principaes diremos, e mais não.

Este rei foi muito arredado das manhas e condições que aos bons reis cumpre de haver, cá elle dizem que foi mui luxurioso, de guisa que quaesquer mulheres que lhe bem pareciam, posto que filhas-d'algo e mulheres de cavalleiros fossem, e isso mesmo donas de ordem ou de outro estado que não guardava mais umas que outras. Era muito cubiçoso do alheio por má e desordenada maneira, e não queria homem em seu conselho, salvo que lhe louvasse sua razão e quanto fazia. Matou muitas honradas pessoas, d'ellas sem razão por lhe darem bom conselho, e outras sem porque, e por ligeiras suspeitas, em tanto que muitos bons se afastavam d'elle muito anojados, por temor da morte: cá nenhum não era com elle seguro, posto que o bem servisse, e lhe elle muita mercê e honra fizesse. E deixados os achaques que a cada um punha por os matar, sómente, em breve, das mortes digamos, e mais não.  

No segundo anno de seu reinado foi morta D. Leonor Nunez de Gusman, manceba que fôra de el-rei seu padre, e madre do conde Dom Henrique, que depois foi rei; e posto que alguns digam que foi por mandado da rainha Dona Maria, sua madre, certo é que ella não mandaria fazer tal cousa sem consentimento de el-rei seu filho. E deu el-rei a sua madre todos os bens de Leonor Nunez.  

Mandou el-rei matar Garcia Lasso da Veiga, um grande fidalgo de Gastella e muito aparentado de genros e parentes e amigos, por suspeita que d'elle houve.  

Mandou matar tres homens bons da cidade de Burgos, a saber, Pero Fernandez de Medina, e João Fernandez, escrivão, e Affonso Garcia de Camargo.  

Idem, cercou Dom Affonso Fernandez Coronel, na villa de Aguilar, e entrou-o por força, e mandou-o matar, e Pero Coronel seu sobrinho, e João Gonçalvez d'Eça, e Pero Dias de Quesada, e Rodrigo Annes de Beema, e João Affonso Carrilho, mui bom cavalleiro.  

Mandou el-rei pedir a el-rei de França que lhe desse por mulher uma das filhas do duque de Bourbon seu primo, e de seis filhas que elle tinha, escolheram os mensageiros uma, que chamavam Dona Branca, moça de 18 annos e bem formosa, e receberam-na em seu nome. E como el-rei Dom Pedro isto soube, mandou que lh'a trouxessem logo, e enviou el-rei de França com ella o visconde de Cardona e outros grandes cavalleiros de sua terra, que lh'a trouxeram mui honradamente; e deu-lhe com ella mui grão casamento em oiro e prata e outras riquezas, e foram então feitas as dobras que chamaram de Dona Branca, e os reaes de Castella de el-rei Dom Pedro.

E emquanto os mensageiros foram tratar este casamento, tomou elle por manceba Maria de Padilha, que andava por donzella em casa de Dona Isabel de Menezes, filha de Dom Tello de Menezes, mulher de Dom João Affonso de Albuquerque, que a criava. E tal vontade poz el-rei n'ella, que já não curava de casar com Dona Branca quando veiu, tendo já da outra uma filha que chamavam Dona Beatriz.  

E por conselho de Dom João Affonso de Albuquerque, pero muito contra vontade d'el-rei, ordenou de fazer suas bôdas em Valhadolid, e foram feitas uma segunda feira. E logo á terça seguinte, como el-rei comeu, a cabo de uma hora, deixou sua mulher, que não valeu rogo nem lagrimas da rainha Dona Maria sua madre, nem da rainha de Aragão sua tia, que o pudessem ter que se não partisse, e levou tal andar que foi essa noite dormir á aldeia de Pajares, que são dezeseis leguas de Valhadolid, e em outro dia chegou a Montalban, onde estava Dona Maria de Padilha. E tinha el-rei, quando partiu, e alguns dos que com elle iam, mulas em certos lugares, pero não chegaram com elle mais de tres; e foi por isto grande alvoroço entre os senhores e fidalgos do reino que alli eram, e alguns foram logo partidos d'el-rei.  

Depois, por afincado conselho, tornou el-rei a Valhadolid e esteve com sua mulher dois dias, e nunca mais puderam com elle que alli assocegasse; e partiu-se e nunca a mais quiz vêr. E o visconde e cavalleiros, que com ella vieram, se partiram sem mais falar a el-rei.  

Sendo viva esta rainha Dona Branca, não havendo mais de um anno que el-rei com ella casara, pareceu-lhe bem Dona Joanna de Castro, filha de Dom Pedro de Castro, que chamaram da Guerra, mulher que fôra de Dom Dïego de Alfaro, e commetteu-lhe por outrem que casasse com elle. E ella não querendo, porque el-rei era casado, disse elle que tinha razões por que o não era: e mandou aos bispos de Avila e de Salamanca que pronunciassem que podia casar. E elles, com medo, disseram-no assim, e foram recebidos na villa de Qualhar, dentro na igreja, solemnemente, pelo bispo de Salamanca que os recebeu ambos. Em o outro dia partiu el-rei d'alli, e nunca mais viu esta Dona Joanna: e ella chamou-se sempre rainha, pero não prazia a el-rei d'ello.  

A rainha Dona Maria tomou comsigo sua nora e foi-se para Outerdesilhas, e dês-ahi mandou-a el-rei levar guardada a Revollo, que a não visse sua madre nem outro nenhum, e depois a teve presa em Medina-Sidonia e alli a mandou matar, sendo então a rainha com idade de vinte e cinco annos, muito sisuda e bem acostumada.  

E elle teve ordenado de mandar matar Alvaro Gonçalves Mourão, e Dom Alvaro Perez de Castro, irmão de Dona Ignez, madre de Dom João e de Dom Diniz, filhos de el-rei Dom Pedro de Portugal, sendo então infante; e foram percebidos por Dona Maria de Padilha, que lh'o mandou dizer, e assim escaparam de morte.  

Mandou matar em Medina del Campo, um dia pela festa, em seu paço, Pero Rodriguez de Vilhegas, adiantado mór de Castella, e Sancho Rodriguez de Rojas; e foi morto um escudeiro de Pero Rodriguez.  

Mandou matar, em Toledo, vinte e dois homens bons, do commum, porque foram em conselho de se alçar a cidade de Toledo, por não matarem n'ella a rainha Dona Branca, segundo todos d'aquella vez cuidaram, entre os quaes mandava matar um ourives velho de oitenta annos; e um seu filho de dezoito annos, tendo-o para o matar, disse a el-rei que lhe pedia por mercê que antes mandasse matar a elle que seu padre, e el-rei mandou-o assim fazer: pero mais prouvera a todos que el-rei não mandara matar nem um nem outro.  

E mandou matar quatro cavalleiros bons d'essa cidade, a saber, Gonçalo Mendes, e Lopo de Vellasco, e Tello Gonçalves Palomeque, e Lopo Rodrigues, seu irmão.  

Quando entrou a villa de Toro, onde estava a rainha sua madre, saiu a rainha a elle, do alcaçar, por seu mandado, e mandou matar Dom Pero Esteves, que se chamava mestre de Calatrava, alli onde vinha junto com ella, e Rui Gonçalves de Castanheda que a trazia de braço, e Affonso Telles Giron, e Martim Affonso Tello, todos quatro a redor da rainha. E ella, quando os viu matar, tão a cerca de si, caiu em terra como morta, e levantaram-na, bradando e maldizendo seu filho, e a poucos dias lhe pediu que a mandasse a Portugal para el-rei seu padre, e assim o fez: e ahi morreu depois, segundo tendes ouvido.  

Mandou el-rei mais matar Gomes Manrique de Hornamella, e outros; e ordenou um torneio em Outerdesilhas, de cincoenta por cincoenta, por matar n'elle o mestre de São Thiago Dom Fradarique, seu irmão, que era no torneio. E el-rei não quiz descobrir este segredo a outrem, e porem não se fez aquelle dia.        

 
 
 

 




 



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