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Luso Da Silva, O Encoberto
Maria Estela Guedes
 

Num dos meus últimos editoriais (1), a propósito das primeiras linhas da biografia de Augusto Nobre na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, onde se declara que o naturalista se iniciou com mestres de nome, como Francisco Newton, da sua idade, Isaac Newton, pai de Francisco, e Luso da Silva, contei eu uma história verdadeira: já várias vezes investigadores me perguntaram quem é Luso da Silva, porque precisavam de informações biográficas para incluir em trabalhos sobre moluscos. Ora eu não sabia quem é Luso da Silva, mas também não procurei saber, não me interessava. Disse que conhecia artigos dele sobre malacologia, o que não é bem assim: em princípio, ele escreveu um artigo sobre moluscos terrestres e fluviais de Portugal, publicado em V folhetins. Tem já o primeiro em linha (2), que parece indicar que, a seguir a Domingos Vandelli, Luso da Silva é um dos pioneiros em Portugal a publicar textos sobre esse grupo animal, de acordo com o sistema lineano. Quando os V textos estiverem em linha, falaremos deles.

Nesse editorial exprimi então o sentimento - e não o saber, pois não o tinha - de que Luso da Silva seria um heterónimo de Augusto Nobre, passível de ainda aparecer no baú de Fernando Pessoa...

Ora, hoje tudo mudou e penso que já sei quem é o bendito Luso da Silva! Investigação profunda, bastaram uns minutos a folhear a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, que eu já recomendei aos investigadores em História das ciências: está lá tudo o que é preciso saber em matéria de língua das gralhas, o problema é só encontrar. Sim, não é à primeira que se acha o Augusto Luso da Silva, o verbete está em Luso, e indo por Silva o caminho é espinhoso, porque, para efeitos de malacologia, o cavalheiro assina A. Luso da Silva. Ah, e quem sabe que o A é de Augusto? Bastam uns minutos para descobrir, mas o homem está bem encoberto...

Bem, Luso da Silva não é um heterónimo de Augusto Nobre, uns quarenta anos mais novo, embora ambos sejam augustos. Mas é um dos encobertos que usam vários nomes, sim. Tem duas notas biográficas dele em linha, vá ler, vale a pena (3).

Esta do poeta Luso da Silva faz-me corar de vergonha, porque nunca li um verso dele. Ignorava completamente a existência deste colega, um ultra-romântico, segundo o "Dicionário de Literatura", dirigido por Jacinto do Prado Coelho, de quem por acaso fui aluna. Mas não é tarde, começa aqui um novo trabalho, vamos ler, e vamos procurar certos textos de um seu amigo, o Barão do Castello de Paiva, meu familiar, diria mesmo meu defunto esposo, pois representei esse papel numa peça de teatro levada à cena no anfiteatro de Química da Escola Politécnica, por ocasião da "Festa da Sciencia"...

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Lápide do Convento da Saudação, em Montemor-o-Novo. Foto gentilmente oferecida por
Ana Luísa Janeira, em memória da "Festa da Sciencia"
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Oh, o Barão do Castello de Paiva, amigo de John Edward Gray, com quem andou de visita pelas ilhas macarrónicas, perdão, da Macaronésia, e não é que destas visitas não saiu uma palavra sobre o lagarto negro das Canárias nem sobre o lagarto herbívoro de Cabo Verde, apesar de gigantes? Como tudo isto é teatral, valham-nos Corneille, Racine e Molière! Então não é que o iate de Gray tinha o nome de uma personagem de Shakespeare, a jovem Miranda, salvo erro naufragada numa ilha virgem e deserta? Se me enganei redondamente ao supor o nosso Luso da Silva uma espécie de Rio Matosinhos, de Ó que S. João ou de ilhéu de Zoros (em Fernando Pó), já acertei na mouche ao falar de heterónimos. Os duplos nomes não chegam aos calcanhares do poeta d'Orpheu, e nem sequer aos do nosso Francisco Newton - Nevton, Nitom, Reesetán, Reesetan, etc. -, mas temos, no mínimo: Luso, A. Luso da Silva e Augusto Luso, a que a Grrrrrraaaande Enciclopédia acrescenta o NOME COMPLETO (vá ler de novo a biografia, se não deu atenção): A.L. da Silva. Do mesmo modo que perguntei, acerca do texto de Augusto Nobre: "E onde é que já viu uma introdução no fim?", agora pergunto: e em que conservatória ou sacristia já viu um cidadão, em aparência chamado Augusto Luso da Silva, ter por nome completo A.L. da Silva?

Também acho curioso o livro de Luso da Silva referido pela Grande Enciclopédia, "Leitura de um trecho dos Lusiades", vou procurar, pois parece que este "Lusiades" deve ser uma epopeia de Luso, a que convirá dar atenção. E repare: tal como António Nobre, irmão de Augusto, também Luso foi prefaciado por Sampaio Bruno. Que mundo é este? O das amêijoas à Bulhão Pato ou o do Encoberto?

E agora retiro-me, tenho muita obra a ler, os textos de A. Luso da Silva sobre moluscos para digitalizar, e umas feridas a tratar, porque saio sempre lesionada destes encontros com o naturalismo, apesar de nunca tirar o capacete das canelas...

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Errata sem porquê

 

Por motivos que não interessa esmiuçar, a história que contei, como sendo verdadeira, podendo não ser verdadeira, também não é falsa: improvável alguém ter-me perguntado se eu sabia quem era A. Luso da Silva, pois Luso da Silva está bem identificado, quer no sector das letras, quer no das ciências. Então perguntaram-me por quem? O Encoberto da malacologia portuguesa é outro Silva, J. da Silva e Castro, só sobre este poderia ter sido questionada.

Acerca de Silva e Castro, dizem Burnay e Monteiro (4) que há pouca informação, mas realmente não fornecem nenhuma, nem sequer as clássicas datas de nascimento e morte, na parte final da sua História da Malacologia em Portugal, em que apresentam biobibliografias dos naturalistas. Para J. da Silva e Castro só dão a lista dos quatro trabalhos publicados. O primeiro vem no Jornal de Sciencias Mathematicas, a seguir ao último de A. Luso da Silva, fácil sendo assim deduzir que A. Luso da Silva não é um heterónimo de Augusto Nobre, mas que J. da Silva e Castro é um heterónimo do poeta Augusto Luso da Silva, de seu nome completo A.L. da Silva, como reza a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vemos agora por que tortuosa razão.

O assunto não está esgotado, abriu-se uma porta para um novo campo de investigação, de maneira que ainda vamos voltar à estupenda "Fam. dos Caracoes", como escreve Luso da Silva, sem nenhum respeito por decentes famílias como a Helicidae, a Clausiliidae, a Pupillidae e aparentadas.

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Notas
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(1) O Luso Augusto Nobre. Em linha.
(2) Moluscos terrestres e fluviaes de Portugal - A. Luso da Silva. Em linha.
(3) Augusto Luso da Silva, duas notas biográficas. Em linha.
(4) Luís Pisani Burnay e António A. Monteiro, História da Malacologia em Portugal. Publicações Ocasionais da Sociedade Portuguesa de Malacologia, 12, Lisboa, 1988.

 

 




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