:::::::::::::::::::::::JOÃO NABAIS::::::

Artes Humanitatis
A Humanização da Medicina

"Tão importante quanto conhecer a doença que o homem tem,
é conhecer o homem que tem a doença" (William Osler)

Na prática clínica, com frequência, o motivo expresso que leva o paciente à consulta nem sempre é o motivo real ou, pelo menos, o mais importante.

É com Freud que se começa a dar ênfase às dores e penas que acompanham, muitas das vezes de modo imperceptível, as queixas dos doentes, o que traz para o mundo real e científico do século XX uma nova visão da constelação de sintomas englobados nas dores psíquicas ou na actualmente chamada medicina psicossomática, que diz respeito aos distúrbios orgânicos e funcionais favorecidos ou agravados por factores psíquicos .

Esta capacidade médica de intuir e deduzir o que poderá estar do outro lado é um factor importante no bom atendimento (do latim attendere "prestar atenção a" ) na consulta , tanto em medicina pública ou privada. Há utentes que chegam à nossa consulta com queixas vagas e imprecisas, muitas das vezes de difícil caracterização.

É necessário estar atento para descodificar e, no momento oportuno, responder aos motivos e causas implícitas, isto é, subentendidas. O que vulgarmente se pode considerar "saber ler nas entrelinhas".

São "umas dores vagas", "a fadiga permanente", "mal-estar geral", "desalento e apatia ", " cefaleias recorrentes , " pressão no peito ". E no meio destas queixas imprecisas, estão retratadas muitas vezes as dores da vida como um semáforo intermitente a alertar-nos para um eventual risco, nesta louca corrida diária com que actualmente a sociedade se digladia. E para entender essa linguagem dos sintomas é preciso perceber a história da doença, integrada na história da pessoa doente e no contexto social em que ela vive. Hoje, a convicção é que a consulta é o princípio da relação terapêutica.

A medicina do doente não exclui a medicina da doença, mas sim a amplia no sentido de um atendimento holístico - a realidade como um todo.

A preocupação com a humanização da medicina tem de estar cada vez mais presente no dia-a-dia das instituições de saúde (exs. hospitais, centros de saúde) e de ensino, viradas para a Saúde, no seu sentido mais amplo, isto é, com uma prática médica e uma visão mais absoluta e integral do Homem, exercida com uma atitude mais humanitária e sensível, tanto pela hierarquia que governa (donde sempre deve provir o exemplo), como por todos os seus colaboradores, incluindo os utentes, que somos todos nós.

Todo o médico com uma perspectiva humanística não só pode ser um médico mais seguro e confiante consigo próprio, como também uma pessoa mais respeitada e de superior índole e temperamento para com os outros, o que decerto vai ajudá-lo a ter uma nova atitude para enfrentar melhor as dificuldades do dia-a-dia.

É na fonte das humanidades que o clínico encontra a graça primordial ao bom exercício da sua prática médica: a arte, a literatura e a experiência ajudam a intuir sobre o Homem.

Não há que ser o príncipe iluminado que tudo aprendeu dos livros, mas apenas o homem que estuda toda uma vida!

Ao levar a humanização dos serviços médicos às populações, é importante que a sociedade identifique as causas que podem conduzir a um processo inadmissível de desumanização dos serviços de saúde (exs. a falta de informação, tanto para o médico, como para o utente e sua família, a nova tecnologia e sofisticação da Medicina que afecta e contraria uma boa relação do médico com o paciente, a precariedade do emprego, a falta de acessibilidades tanto orgânicas como funcionais, a própria desactualização técnico-científica, o envelhecimento e degradação das estruturas de Saúde, a baixa remuneração dos profissionais, a ausência de formação humanística dos cursos universitários ) que pode comprometer profissionalmente não só a equipa de saúde (médicos, enfermeiros, auxiliares, etc.) como os próprios responsáveis das chefias.

A pessoa do médico, ao exercer uma profissão que exige total disponibilidade, além de ter de lidar, diariamente, com as questões existenciais da vida e da morte, deve também estar atenta para compreender os novos rumos da medicina moderna, o que constitui um importante desafio para o pensamento sociológico e médico.

O médico do século XXI deve estar atento, entre outras coisas, ao preço dos medicamentos e demais serviços médicos, para que não fique indiferente ou facilmente caia na tentação, perante a transformação do sofrimento e da doença em mercadorias e objectos, de lucro incessante e contínuo .

Uma relação médico/doente de qualidade e mútua confiança, como base para uma medicina humanizada, é capaz de guiar, e ajudar à sua verdadeira missão, ao aliviar o sofrimento e ao reforçar a própria promoção da saúde.

A importância da relação médico/paciente é um factor primordial no processo de tratamento, que levará mais facilmente à cura, baseado no conhecimento científico actualizado, competente e ético.

Numa época de humanismo pessimista, o significado profundo dum estado de alma pode revelar-se na observação quotidiana atenta, sobre a beleza e a verdade que emanam de modo subtil das obras de arte, das crianças e da Natureza em si mesma.

João-Maria Nabais / Agosto 04

 
 

 




 



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