A.A. AMORIM DA COSTA
O REI ALPHONSO (2)

Apresentamos, de seguida, os tratados sobre a Pedra Filosofal atribuídos a Alphonso, Rei de Portugal, editados, em Londres, em 1652, por Thomas Harper. A braços com a natural dificuldade de compreensão e clareza do texto, procurámos manter a maior fidelidade à terminologia inglesa. Porque o texto inglês é, como o diz a edição em causa, uma tradução de um original português, não podemos deixar de exprimir aqui um voto muito ardente de que se venha a descobrir esse original, sem qualquer preocupação de se tornar, então, obviamente redundante a tradução que apresentamos.
 
1 - Tratado escrito por Alphonso, Rei de Portugal,
sobre a Pedra Filosofal

A fama trouxe ao meu conhecimento que na Terra do Egipto, vivia um homem erudito que previa as coisas que haveriam de acontecer; julgava com base nas Estrelas, e nos movimentos dos Céus, aquilo que estava para vir e que por ele era de antemão compreendido.

Um desejo de conhecimento se apoderou da minha afeição, da minha pena e da minha língua; com grande humildade, sacrifiquei a grandeza da minha Majestade perante tão grande poder dado ao Homem. Com insistentes súplicas e especiais cartas minhas para ele, mandei meus Mensageiros procurá-lo, prometendo-lhe com profunda afeição, grande recompensa, quer em bens, quer em dinheiro.

O Sábio homem respondeu-me com muita cortesia; sei que és um grande Rei e que nem presentes, nem a Lei da prata ou do ouro, nem qualquer outra coisa de grande valor te movem, mas meramente a tua afeição, servir-te-ei; pois eu não procuro tais coisas que são demasiado para mim, e por isso não me movem teus bens, mas apenas a tua consideração.

Enviei a melhor das minhas Embarcações que uma vez chegada ao porto de Alexandria fez subir para bordo o Doutor Astrólogo e o trouxe até mim, cortês e amigo, pois reconhecendo eu o seu grande mérito e sabedoria acerca do movimento das Esferas, sempre o presenteei com aquela estima e amizade que são devidos a um homem sábio. Ele sabia preparar a Pedra conhecida por Pedra dos Filósofos; ele ensinou-me a preparála e preparámo-la juntos. Depois preparei-a eu sózinho, tendo assim aumentado grandemente os meus Bens; e considerando que fui capaz de fazer tal preparação por diversos modos, sempre com o mesmo resultado, propôr-te-ei o modo mais simples, o mais excelente e principal.

Eu tinha uma Biblioteca com os Trabalhos de autores de muitas Nações, porém, sobre este assunto, não considero bons, nem os Caldeus, nem os Árabes (embora se trate de um povo muito diligente), nem ainda os Egípcios ou os Assírios, mas sim, os povos do Oriente que habitam as Índias, e os Sarracenos, os povos que fizeram o meu trabalho possível e tão perfeito que assim honraram muito o nosso mundo Ocidental.

Ocorre-me de imediato um juízo profundo e cheio de verdade: porque deves confiar nele e nele acreditar, não penses que eu menti seja no que for. Aquilo que procuro não é motivo para que se esqueça o grande mérito que havia nele, meu Mestre; mas não atribuo tão grande honra a qualquer outro homem; só a ele que é um Sábio.

Sabe que para decifrar este mistério e propôr verdades em cifras, embora sejam obscuras, terás muito a aprender com elas, e acharás que se não trata de coisas vãs; e se chegares a compreender este grande Mistério, não faças uso dele nas tuas conversas do dia a dia, mas conserva-o no mesmo código deste meu escrito, caso entendas como explicá-lo.

Os homens sábios designam esta matéria por diversos nomes: para os ignorantes parece tratar-se de alguma coisa; para os sábios não se trata de verdadeira matéria; a sua natureza é igualmente humidade e secura, tornando-se impossível separar um da outra; é verdadeiramente singular ter estas duas naturezas diferentes num todo uno. O Seco existe nela em grau supremo; de igual modo, o Húmido requer uma Autoridade suprema: o quente e o frio nela lutam, e nela estão contidos, também, em grau supremo; e da igualdade deriva o nome de cada uma das diversas coisas em que se torna pela pluralidade: e embora o húmido e o seco estejam juntos, cada um deles conserva o Seu próprio nome.

O nosso Hermes diz-nos que ela está no Céu e na Terra, mas outros chamam-lhe Marido e Esposa, e referem muitos Enigmas a propósito do seu casamento que são uma luz para o Globo enfermo, e por isso são chamados, por alguns, Água ou Terra, e por outros, o Frio que está contido no Calor, tanto quanto é possível ao sábio compreender.

O antigo Caos, segundo a minha opinião, foi urdido pelos quatro Elementos: esta composição é a que transparece quando se dá a divisão; o Céu e a Terra aparecem como uma quinta essência de tudo, pois esta matéria é tal que dela se compõem todas as coisas. Nesta matéria se encontram unidos os quatro Elementos, em partes iguais, de tal modo que se um deles se mexe ou move, os outros fazem o mesmo, pois qualquer deles é conduzido pelos outros, tal é a igualdade que caracteriza as obrigações de uns para com os outros, e onde esperavas tu encontrar coisa melhor entre todos os Animais, como é opinião comum de todos os homens sábios?

Considera o Mercúrio dos Filósofos Eruditos, e permite que se purifique da sua maldade e sujidade, pois não é possível tê-lo demasiado puro; faz com que o seu peso sejam doze onças da dita composição, e põe-no, então, dentro dum balão de vidro de modo que se Ihe não misture nenhum outro metal. A forma deste balão deve ser a forma da Esfera, com um longo gargalo, não tão grosso que não possa ser totalmente abarcado por uma mão grande, e não maior que um span[1], e o seu bocal não deve ser tão largo que não possa ser coberto pelo selo Egípcio. Porás o conjunto num pote feito de terra, rodeado de cinzas quentes, tendo o cuidado de tapar com uma das mãos a parte superior do balão. Deves ter então um Forno artificial feito de Argila, de tal modo largo e redondo que o possas colocar no lugar mais espesso. Não deves pôr o pote no fundo da Fornalha, mas segurá-lo ou colocá-lo no meio, sobre dois ferros, em posição diametral, ou cruzados, com o pote colocado precisamente no centro do respectivo cruzamento, de modo que o fogo se distribua uniformemente à sua volta; faz então, com carvão, um fogo brando e não permitas que a tua paciência se perturbe de tal modo que o não conserves constante.

O fogo não se deve aproximar mais de um pé do pote, e a fornalha deve ser de tal modo estreita que o fogo brando actue permanentemente, e sempre constante, no fim igual ao princípio. Terás feito assim o trabalho de um homem hábil.

Devem decorrer duas mudanças da Lua como para aqueles Animais cuja gestação é de um mês, ou o tempo do Sol percorrer um ângulo chamado Sextil, sem chuva, pois a Obra requer secura; verás então a evolução própria da Obra, e deverás ter muito cuidado para te não dissociares dela desde a sua primeira matéria que é toda ela uma só. À medida que o tempo opera, ajudado pelo Sol e sob outras influências, libertando-se da Terra e de toda a humidade que corre nas suas veias, torna-se tão ajustada que aquela parte que a princípio se tornara húmida se converte em Enxofre; e tudo aparece como a mãe Natureza ordenou.

everás ver uma luz em que o Mundo deve ser representado.

 
 
   
   

 

 

 


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