A.A. AMORIM DA COSTA
A ALQUIMIA EM PORTUGAL

O REI ALPHONSO (1)
 
2. Um Rei Culto, Místico, Cavaleiro e Perdulário

Na história portuguesa, D. Afonso V ficou com o cognome de "o Africano", mercê das suas incursões em África contra os muçulmanos, movido pelas cruzadas proclamadas pelo Papa Calixto III, na sequência da tomada de Constantinopla, em 1453, pelos turcos. Por elas se tornou senhor de Ceuta, Arzila, Tânger e Alcácer-Ceguer. Na sua vida, não são, porém, menos marcantes, quer a sua política cultural, quer a guerra que travou com Castela, desejoso de dar cumprimento a uma das cláusulas do testamento de Henrique IV, rei de Castela e Leão, em que dispunha casar sua filha D. Joana com o Soberano português, sonhando com unificar assim, sob um só trono, o seu, toda a Península Ibérica37.

Guerreiro apaixonado, ele foi também, "um amador da Ciência" e "um Rei Cavaleiro, à moda das novelas e romances da Távola Redonda", em cuja alma "a flor da Cavalaria medieval desabrochava com toda a exuberância e irreverência, fértil em quimeras atrás das quais corria, geradora de utopias que Ihe tremuluziam, na fantasia, como lantejoulas, inspiradora de aventuras como as de Amadis, a novela que seduzia as imaginações e arrastava os ânimos"38.

Do interesse cultural de D. Afonso V, uma das mais notáveis vertentes da sua política, se devem realçar as muitas honras que deu aos sabedores, os muitos livros que coleccionou, as muitas bolsas de estudo e outras verbas " ad hoc" concedidas a escolares do Estudo Geral, e, sobretudo, o papel que assumiu como Protector do Estudo até 1479, ano em que renunciou ao cargo pelo facto das suas múltiplas ocupações Ihe não permitirem desempenhá-lo bem, tendo, então, recomendado para o mesmo o Cardeal Jorge da Costa, o alpedrinha39. Como Protector do Estudo Geral, intrometeu-se profundamente na vida da Escola, com prejuízo da autonomia de que a mesma gozava. D. Afonso V arrogou-se o direito de confirmar, alterar e esclarecer, por si próprio, o Estatuto do Estudo Geral, quando assim o entendesse, bem como o direito de confirmar os alvarás ou cartas dadas pelos seus antecessores40.

Do rol dos muitos livros que coleccionou fazia parte a obra de Hermas, o Pastor, um tratado de grande fôlego místico, do século II da nossa era41 . E é sabido que quando, em Arrás, Rouen e Honfleur (França), desiludido e desanimado com a má fé de Luís XI, depois do duque de Lorena ter atacado e morto Carlos, o Temerário, com quem D . Afonso V se fora encontrar na tentativa de com ele estabelecer um pacto de paz com os exércitos do rei de França, o soberano português, abatido e desejoso de renunciar ao mundo, passava longas horas no seu quarto, a ler e a escrever42.

Do ponto de vista da hipótese que com este trabalho desejamos explorar, é pois, importante realçar os contactos de D. Afonso V, o Africano, com Filipe III, o Bom, duque de Borgonha, fundador da Ordem de Cavalaria do Tosão de Ouro, casado com Isabel de Portugal, filha de D. João I, e com seu filho, Carlos, o Temerário.

Com o casamento de Isabel de Portugal com Filipe, o Bom, fortes laços de cooperação estreitaram as relações de Borgonha com Portugal. Através de sua tia, negociou D. Afonso V a deportação para a ilha do Faial, nos Açores, de muitos flamengos que mereciam a morte civil, e, depois, a de muitos outros cidadãos da Flandres para quem a vida na sua pátria se tornara muito custosa devido às guerras de Carlos, o Temerário, seu filho43. E só as muito estreitas relações dos Duques de Borgonha com a Corte portuguesa ao tempo de D. Afonso V explicam a directa intervenção dos referidos Duques junto do Soberano português no caso do Infante D. Pedro, seu tio e sogro, morto na batalha de Alfarrobeira, cujo corpo havia sido deixado insepulto, instando o monarca português a que desse sepultura, no mosteiro da Batalha, ao corpo do Infante e fizesse mercê à esposa e filhos do mesmo44.

E nos anos de 1448 e 1450, Filipe, o Bom, recebia no seu ducado os filhos do Infante D. Pedro, fugidos do Reino de Portugal, após a morte de seu pai, com medo de represálias; e recebeu-os com as honras próprias da alta nobreza, atribuindo-lhes rendas e pensões consentâneas com a sua alta dignidade45.

Quando, em 1476, depois dabatalha de Toro, D. Afonso V de Portugal partiu para França, ao encontro de Luís XI, para Ihe pedir o seu apoio à causa da sua pretensão de casar com sua sobrinha, D. Joana, filha de Henrique IV e herdeira do trono de Castela, ir-se-ia encontrar pessoalmente com o Duque de Borgonha, seu primo, perto de Nancy, na tentativa de com ele negociar um tratado de paz com Luís XI. "Confiado no seu mui chegado sangue ", animava-o temperar os inconvenientes do Rei de França com o Duque de Borgonha46. Por isso, partiu El-Rei, em Novembro, "mui alegre, e com muita aspereza de neves e frios incomportáveis", ao encontro do Duque; "viram-se e abraçaram-se ambos a pé sobre o meio de um grande rio todo tão regelado (...) e dali se tornaram ao arraial do Duque". Mal acabaram de selar o tratado de paz a que D. Afonso ía, as tropas de El-Rei de França com as do Duque de Lorena punham cerco a Nancy. Apanhado de surpresa, Carlos, o Temerário, era morto às portas de seu arraial. Esta morte do Duque pôs a todos os portugueses, em público nojo e muita tristeza", e com ela acabou El-Rei D. Afonso de verdadeira e substancialmente perder toda a esperança de seu desejo e propósito47.

Com a morte de Carlos, o Temerário, Duque de Borgonha, D. Afonso V, a instâncias do Rei de França, regressou a Paris, onde chegaram, também, entretanto, os Embaixadores que ambos haviam enviado a Roma para pedirem ao Papa a dispensa necessária ao casamento de Afonso V com sua sobrinha D. Joana, sem que o Papa a tivesse concedido, pressionado, certamente, pelos Reis de Castela, Fernando e Isabel48.

Desalentado, vendo cerrados todos os caminhos que poderiam levar ao cumprimento de seu desejo e crendo que tantas contrariedades não poderiam ser sem vontade de Deus, afastou-se para lugar desconhecido com a firme determinação de abdicar a coroa em seu filho, D. João, deixar este mundo e seus debates, e sem ser conhecido partir para Jerusalém, para aí servir a Deus, em cumprimento de um antigo voto, ou - como o refere Filipe de Comines - ir a Roma e aí entrar em religião49. Retraído, fechado no seu quarto, escrevia, por seu próprio punho, algumas coisas que logo metia num cofre cuja chave trazia sempre consigo. Descoberto pelos delegados de Luís XI, foi dissuadido de seu intento e, em Outubro de 1477, regressou a Portugal e desistiu de casar com D. Joana, sua sobrinha, que entretanto entrava em religião e por todos era conhecida pela "excelente senhora". Todavia, "nunca mais foi alegre, e sempre andou retraído, maginativo e pensoso, mais como homem que aborrecia as coisas do mundo, que como Rei que as estimava. Mui católico, amigo de Deus, mui fervente na fé, ouvia continuada e mui devotamente os Ofícios Divinos, e deleitava-se com homens honestos, Religiosos e de bom viver"50.

"Mui fervente na fé", Afonso V tinha gosto, muito provavelmente, pela exegese bíblica e, sobretudo, pelos cálculos das cronologias, e também pela epilogística, como se deduz de uma carta de Cristóvão Colombo aos Reis Católicos, datada de 1503, argumentando em reforço da sua proposta de chegar à Índia pelo Ocidente: "Santo Agostinho ensina-nos que o mundo terá fim aos 7000 anos da criação; e tal é também a opinião dos sagrados teólogos e do Cardeal Pedro d'Ailly. Como, segundo o cálculo do rei Afonso de Portugal, passaram já 6845 anos, resta pouco tempo até ao fim do mundo"51.

Porém, com a morte de Carlos, o Temerário, tinham-se desfeito as últimas ilusões do pauvre roy de Portugal, como o designavam os cronistas de Luís XI. Este, esquecido de quantas promessas Ihe fizera, mais com o poder da força que o da persuasão, não Ihe permitiu que partisse para Jerusalém, obrigando-o a regressar à pátria de mãos vazias e sem glória. Terminara para ele a demanda do santo graal sem que vislumbrasse o vaso sagrado. Daí o seu desaparecimento ... bem como o encontrar-se só, desalentado e triste51, 52.

Para além da sua reconhecida erudição clássica e da sua curiosidade pelos labores do espírito e pelas aquisições da ciência, a que já nos referimos, movido pelas quais terá escrito um tratado de táctica militar e um outro de astronomia, reunindo nos seus paços uma escolhida e rica Biblioteca, D. Afonso V, o Africano, foi olhado por seus cortesãos como um "Soberano perdulário", "o Rei das mãos largas", a ponto que as cortes reunidas em Lisboa, em 1460, sentiram-se na obrigação de pedir ao Rei que moderasse os gastos53. Neste ponto, dele diz Pinheiro Chagas: "generoso e reconhecido a ponto de ser pródigo, distribuiu muitas vezes, sem motivos suficientes e sem que houvesse serviços a recompensar, os bens e os thesouros da coroa, não vendo nesses recursos mais do que um meio de satisfazer o seu gosto de profusão, e a sua liberalidade, e sem se importar com os limites que lhe impunham o destino dos bens do Estado e o seu dever para com o throno e o país"54.

Regressado de França, Afonso V fundou o Convento do Varatojo, junto de Torres Vedras. Aí se recolhia frequentemente, e esteve mesmo prestes a professar ... "Rei Cavaleiro, à moda das novelas e romances da Távola Redonda", em cuja "alma a flor da Cavalaria medieval desabrochava com toda a exuberância e incoerência, fértil em quimeras atrás das quais corria, geradora de utopias que lhe tremeluziam na fantasia, como lantejoulas, inspiradora de aventuras como as de Amadis, a novela que mais seduzia as imaginações e arrastava os animos"38, D. Afonso V estabeleceu, também ele, em Portugal, como Filipe-o-Bom o fizera na Flandres, uma Ordem de Cavalaria, a Ordem da Torre e Espada, por ele criada em 1459.

E também a ele o seduziam os mistérios das significações obscuras, em que se comprazia e de que é exemplo bastante a inscrição que mandou gravar no seu estandarte real que serviu de Guião às tropas que levou à batalha de Toro. Damião de Góis refere-se a ela nestes termos: " levava o seu Guiam com sua devisa que era o número sette, e hum rodizio de moinho com gotas dagoa, e huma lettra que dizia já mais"55. Confrontado com a obscuridade da legenda em causa, Rui de Pina diz que "o rodizio com gotas de água ao derredor espargidas o tomara El-Rei pela Rainha D. Isabel, sua mulher"56; e nada diz sobre o significado possível da palavra “já mais ...'' Duas palavras? Ou uma só? Como se interroga o Conde de Sabugosa57. Por sua vez, D. António Caetano de Sousa referindo-se ao assunto, escreve: "teve El-Rei D. Afonso V por empreza a roda de hum moinho com a letra ja mais a que se juntava a lettra E e o numero VII, como se vê na estampa. Não podemos saber o tempo em que começou a usar deste geroglífico para formar ideia da sua allusão, a qual se via num confessionário seu, no mosteiro de Varatojo, donde a lettra E era de empreza, e o Rodizio, que era o corpo junto fazem as palavras Erro dizio, como documento admirável de não encobrir os erros na confissão, e deste logar transferio esta divisa para outros, e do número VII não sabemos a explicação que talvez poderia ser o dos sete pecados capitaes"58. Perante esta interpretação da empresa que animava Afonso V, por tão obscura maneira descrita, Oliveira Martins comenta, meio cínico, meio irónico: "esta interpretação da empresa, como se fosse uma charada, parece pueril"59. Pueril ou não, enigmática e obscura é que ela não deixa de ser! E atendendo a que D. Afonso V teve por conselheiro a D. Isaac Abarbanel (1437- 1508), almoxarife e rabi-mór de Portugal, não surpreenderá que tenha sido um iniciado nas artes cabalísticas.

Maginativo e pensoso, aborrecendo as coisas do mundo, no ambiente místico de um Convento, homem de letras, com gosto acentuado pela escrita, pela astronomia e pela música, Afonso V bem poderia ter deixado fluir suas cogitações para a então tão candente e apaixonante matéria da preparação da Pedra Filosofal, como acontecera, ao longo da História, com muitos outros monarcas.

De seu tio, Filipe, o Bom, e de seu primo, Carlos, o Temerário, refere Cornelius Agrippa que estavam de posse de segredos divinos, havendo escritos e caracteres químicos sobre as paredes do palácio ducal de sua própria autoria80, crendo certos autores que a Ordem do Tosão de Ouro de que foram primeiros Grão-mestres era a fiel depositária desses segredos. E já referimos que Afonso X de Castela, com toda a sabedoria que a História lhe reconhece dando-lhe o epíteto de "o Sábio", protagonizou bem o interesse que os monarcas, em geral, sempre alimentaram pelos assuntos da alquimia. Daí a que Afonso V de Portugal pudesse ter posto por escrito esses dois tratados alquímicos que a edição de Thomas Harper de 1652 atribui a Alphonso, Rei de Portugal, seria apenas um pequeno passo que a sua paixão pela escrita justificaria com facilidade. Se os documentos históricos que possuímos não bastam para provar a autoria, muitos dos traços da personalidade afonsina que salientámos indiciam a seu favor.

 
 
   
   

 

 

 


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