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A ILHA DAS SERPENTES
Miss Pimb
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A sotôra Malvácea explora-me indecentemente, faz de mim gato-sapato. Imaginem que nem texto me deu para comentar, exigiu que o escrevesse eu e depois me comentasse! E que texto pediu ela que eu escrevesse? Eu sempre ouvi dizer que quem percebe de cobras, lagartos, rãs, tartarugas e essa animalia toda, são os herpetologistas. Eu não sou herpetologista, eu só queria era que a sôtora Malvácea se comportasse como uma professora normal, e me mandasse ler "O amor de perdição", "A barca bela" e assim, e me pedisse que comentasse essas obras. Bem lhe disse: - Sôtora, olhe que eu nem sequer distingo uma cobra de um lagarto sem patas! E ela erisipelou-se logo: - A menina sabe o que é o Blanus cinereus? É uma cobra? E eu respondi: - Não, sotôra Malvácea, esses bichos não têm patas mas são lagartos, família Amphisbaenidae. E ela voltou à carga: - A cobra-bobó é um lagarto ou uma cobra? Olhe que eu já vi herpetologistas dizerem que são cobras, porque não conhecem, ouvem a palavra "cobra" e aí vai disto!... E eu respondi: - Que horror, esses Siphonops, Schistometopum, Caecilia e parecidos, nem são cobras nem lagartos, e nem sequer são Reptilia! São assim a bem dizer umas minhocas com esqueleto, tipo salamandra sem patas! E ela fez: - Ah!, a menina está no lugar que lhe compete, o de saber de que falam os textos, e por isso tem capacidade para os comentar. Quem tem de saber distinguir, no terreno e nos frascos com álcool, as cobras-bobó dos Monopeltis e das Typhlops, são os herpetologistas! E pronto, lá tive de fazer o trabalho, mas lembrou-me uma história tramada da minha tia Estrela. Uma vez, depois de um almoço dos meus anos, era eu ainda pequenina, juntou os ossos de leitão e chamou-me: - Amorzinho, vamos semear estes ossos no jardim, e tu tratas de os regar ao menos três vezes por semana, porque, se os regares com cuidado, na próxima Páscoa vão nascer os leitõezinhos! E eu reguei os ossos com cuidado três vezes por semana. Quando chegou a Páscoa também chegou de Lisboa a tia Estrela e eu estava muito triste porque ainda não tinham nascido os leitõezinhos. A sotôra Malvácea tá pior que a tia Estrela, agora nem me dá texto nenhum, diz-me: - Menina, aí no TriploV está uma coleccção enorme de fichas sobre répteis e anfíbios, a menina vai seleccionar daí tudo o que diz respeito à ilha de Fernando Pó, que já foi portuguesa em tempos, depois passou para a coroa espanhola e hoje faz parte da República da Guiné Equatorial, com o nome de Bioko. A menina selecciona, compõe com as fichas o texto que mais lhe agradar e depois comenta. E nem pliz nem s.f.f., como de costume. Antes, fui pesquisar um bocado para saber no que me ia meter, e depois de uns lamirés logo percebi que as fichas são uma trapalhada do caraças, de certezinha que quem as fez não é nenhum herpetologista, os herpetologistas nunca dizem que há problemas e ainda menos anotam que a Python sebae foi descrita com exemplares americanos, pois acham isso um pecado mortal. Quando falam das osgas borneensis de Cabo Verde é para entornarem o resto do caldo. Então seleccionei e descobri uma encrenca muito maior que a das lagartixas das Baleares, aquilo é um rol do catano, mas o rol de Fernando Pó é proporcionalmente muito maior, porque nas Baleares há imensas raças do que dizem ser duas espécies de lagartixa, agora em Bioko há mais de trinta e três espécies, espécies e não subespécies!, de serpentes. Bem sei que Fernando Pó fica em África e Portugal na Europa, mas as serpentes de Portugal, se chegarem à dezena, já é um pau. Oxalá a sotôra Malvácea não me mande seleccionar as espécies portuguesas, ainda aparecia por aí a tartaruga carbonaria que anda a passear entre África e o Brasil! Eu sempre ouvi dizer que a fauna das ilhas é pobre, porque há uma data de animais que não voam nem nadam e tal, por isso não conseguem emigrar para elas, e as serpentes, tirando o basilisco e uma cobra voadora que há em Trás-os-Montes mas não figura nos catálogos científicos, também não têm asas para voar nem barbatanas para nadar, e então como é que chegaram a Bioko? Só de barco e avião. Eu sempre ouvi dizer que uma coisa maravilhosa de Bioko era haver lá muita espécie de macaco, eu cá acho que os macacos não eram capazes de atravessar a nado a distância que vai da costa africana a Bioko, cerca de 33 quilómetros, dependendo dos sítios de referência, e são mais até do que em toda a Angola. As serpentes são mais do que os macacos, chice!, até a mamba de São Tomé, que ninguém conhece em São Tomé, lá está, é a da imagem em cima. Isto é reinação dos naturalistas, ou bem que as introduziram na ilha ou só nos catálogos, o que vale é que a maior parte são cobras, Colubridae, e essas não são venenosas, mas basta olhar para a lista que eu fiz e vê-se logo que também há Viperidae, que são mais beras ainda que a Vipera berus, e Elapidae, que matam em minutos, como a Dendroaspis jamesoni, a mamba de São Tomé. Eu cá não a distingo das outras cobras verdes, mas a sotôra Malvácea é assim, acha que eu tenho é de distinguir no papel, e depois há essa em baixo, a Bitis gabonica, tão venenosa que é melhor ninguém tentar roubar a imagem, nunca se sabe, é um perigo, e as Atractaspididae também são venenosas. Cruzes, com este estendal, se os turistas sabem, não põem pé na ilha, por isso é bom dizer que uma coisa são os animais, e outra, muito diferente, o que os malandros dos naturalistas pespegam nos catálogos, e isto nem é nada, só de pensar que introduziram hipopótamos no relato da descoberta do lago Loreto, também em Fernando Pó!... Mas que grande fartote de riso, é que nem no Jardim Zoológico!...

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SERPENTES DOS CATÁLOGOS DE FERNANDO PÓ
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ATRACTASPIDIDAE

Polemon barthii Jan, 1858
Polemon collaris (Peters, 1881)

BOIDAE

Eryx reinhardti Schlegel, 1848
Python sebae (Gmelin, 1788)

COLUBRIDAE

Afronatrix anoscopus (Cope, 1861)
Boaedon olivaceus (Duméril, 1856)
Bothrophtalmus lineatus (Peters, 1863)
Chamaelycus fasciatus (Gunther, 1858)
Crotaphopeltis hotamboeia (Laurenti, 1768)
Dipsadoboa elongata (Barbour, 1914)
Dipsadoboa unicolor Gunther, 1858
Dipsadoboa viridis (Peters, 1869)
Gastropyxis smaragdina (Schlegel, 1837)
Geodipsas deprecisseps (Werner, 1897)
Grayia caesar (Gunther, 1863)
Grayia smythii (Leach, 1818)
Hapsydophrys lineatus Fischer, 1856
Hormonotus modestus (Duméril & Bibron, 1854)
Lamprophis virgatus (Hallowell, 1854)
Mehelya poensis (Smith, 1847)
Natriciteres fuliginoides (Gunther, 1858)
Oophilositum fasciatum (Gunther, 1858)
Philothamnus heterodermus carinatus (Hallowell, 1857)
Philothamnus semivariegatus (Smith, 1847)
Rhamnophis aethiopissa Gunther, 1862
Thelotornis kirtlandii (Hallowell, 1844)
Thrasops flavigularis (Hallowell, 1852)
Toxicodryas pulverulenta (Fischer, 1856)

ELAPIDAE 

Dendroaspis jamesoni Traill, 1843
Naja melanoleuca Hallowell, 1857

LEPTOTYPHLOPIDAE

Leptotyphlops gestri (Boulenger, 1906)

TYPHLOPIDAE

Typhlops congestus (Duméril & Bibron, 1844)
Typhlops punctatus (Leach, 1819)

VIPERIDAE

Atheris squamiger (Hallowell, 1854)
Bitis gabonica (Duméril & Bibron, 1845)
Bitis nasicornis (Shaw, 1802)

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