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HERPETOLOGIA
CABO VERDE
REPTILIA: SAURIA: GEKKONIDAE
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Tarentola delalandii (Duméril & Bibron, 1836)

1836. Primeira descrição de Plactydactylus Delalandei, por Duméril & Bibron. Não tenho esta parte da Erpétologie Générale, mas sei que a terra típica é Tenerife, Canárias; nenhuma relação com Cabo Verde.

1845. Gray, autor do género Tarentola, refere a Tarentola Delalandii para a Madeira, exemplares oferecidos por P.B.Webb; para West coast of Africa, Niger, sem indicação de colector; e tem ainda um adulto oferecido pelo Conde de Derby, sem localidade. Derby, presidente da Zoological Society of London, já o vimos oferecer Hemidactylus brooki da Austrália que mais tarde Gray deixa entender que podem não ser da Austrália. Em relação ao colector desconhecido dos espécimes do Niger, o naturalista que a teve a seu cargo foi Fraser. Esta expedição (em 1841) passou por Fernando Pó, Clarence era uma cidade inglesa. Fraser ocupou-se das aves e os pequenos mamíferos foram classificados por Waterhouse. Outra pessoa ligada à expedição foi o Dr. Stanger.

1896. Bocage: Esta osga, que é um habitante muito conhecido da Africa occidental e das ilhas da Madeira e Canarias, tem sido tambem encontrada em varias ilhas do archipelago de Cabo Verde, onde parece ser abundante. Temos exemplares de S. Thiago offerecidos por Leyguarde Pimenta e Ferreira Borges, e de Santo Antão pelo dr. Hopffer. No Museu Britannico ha exemplares de S. Thiago e de S. Vicente. Está ler o catálogo de Boulenger (1887?), não tenho a parte dos Gekkonidae. Ofertas do Revº Padre Lowe, sem dúvida. O Revº Lowe fazia uma visita anual a Lisboa, ajudou Bocage (1864, 1866) a descrever os tubarões. Lowe é a bem dizer o único naturalista mencionado por Forbes (1859) no que toca ao conhecimento dos animais marinhos da região lusitânica, que era então quase nenhum. Andou duas vezes por Cabo Verde com Gray, no final dos anos sessenta, lembremos, mas Gray é tão Invisível que até o confundem com Asa. Tudo aliás da mesma escola transmutacionista, com ou sem Criador. O materialismo evolucionista veio a ser um evolucionismo teísta, como no caso do Barão do Castello de Paiva, que usa epígrafes alusivas ao Criador nas suas obras mais importantes. Estes homens não são criacionistas e têm de resto uma visão moderna da História Natural. São homens da acção transformadora e subsequente mudança. Criadores, tanto como os alquimistas. Não há nenhuma conotação passadista no meu uso do termo. Os alquimistas são eternos, quem está ultrapassado são os zoólogos de hoje.

1902. Bocage acrescenta S. Nicolau, resultado da exploração de Newton. Repete Santiago e Santo Antão e insiste em que no MB há expls de S. Vicente. S. Vicente parece uma tragédia para os portugueses, que ali não conseguem descobrir o que os ingleses já levaram. Mas note-se que neste artigo Bocage diz que não há batráquios em Cabo Verde, quando Newton lhos mandara de Santo Antão. Aliás, escreve Tarantola, agora e na T. gigas, o que não é perigoso, ouvi dizer que as Tarantola só matam nos filmes.

Boulenger refere Tarentola delalandii para S. Nicolau, Boavista, Rombos, Santiago, Fogo e Brava, exemplares de Leonardo Fea. Cria a variedade rudis para o Fogo (S. Filipe) e Santiago (perto da Praia). A forma típica reserva-a para S. Nicolau, Boavista, Rombos, Santiago (Pedra Badejo) e Brava. Considera que pertencem à variedade T. delalandii boettgeri Steindachner, 1891 outros exemplares do Fogo (S. Filipe e Igreja). A T. delalandii boettgeri existia na Gran Canaria, Hierro e ilha do Fogo (Bertin, Boulenger). Com Joger, evoluiu para Tarentola boettgeri, espécie distintíssima, sem relações com a delalandii, que agora só existe nas Canarias. Emendo: com Joger surgiu, por evolução acelerada, a Tarentola boettgeri hierrensis, só da ilha de Hierro, onde ainda sobrevive o lagarto negro gigante, Gallotia simonyi. O de Roques de Salmor só sobreviveu durante 36 anos (n. 1899, m. 1935). Pena, quase tão curta vida como a de Cristo.

1924. Chabanaud menciona Tarentola delalandii para Port-Etienne, na Mauritânia. Espécime(s) coligido(s) por Th. Monod.

1935. Angel estuda 1 expl do Sal e 2 do Pico da Antónia (Santiago).

1937. Angel dá-a para Santo Antão, Fogo, S. Nicolau, S. Vicente, Santiago, Boavista, Sal, Brava e Rombos e considera-a conhecida fora de Cabo Verde.

1951. Dekayser & Villiers estudam 34 exemplares de T. delalandei delalandei de Santo Antão: Porto Novo; S. Vicente: Baía das Gatas e S. Pedro - em S. Pedro fica o aeroporto, à beira-mar, mas as bichinhas chegaram a Cabo Verde no iate de Gray, vindas da Madeira, o que aliás concorda em absoluto com a hipótese filogenética de Joger, salvo a jangada pleistocénica e os milhões de anos de habitação no arquipélago. Basta de resto reparar que estas osgas mal tiveram tempo de fugir para o Pico da Antónia, estão ainda nos portos onde Gray e o Reverendíssimo Lowe as deixaram. Dekayser & Villiers dão como distribuição, além de Cabo Verde, a África ocidental, referindo as subespécies T delalandei hoggarensis do Hoggar e Sara argelino, e T. delalandei gigas (=T. borneensis=Tarentola gigas) dos ilhéus Branco e Raso. Entendem que os seus exemplares são intermédios entre T. delalandei (forma típica) e T. rudis, chamam a atenção para a grande variabilidade individual e para a faiblesse des coupes systématiques basées sur de tels caractères (séries longitudinais de grânulos, dimensões, etc.), o que é próprio de investigadores (do IFAN, Dakar) sérios e habituados a lidar com a herpetofauna africana. A escola francesa costuma insurgir-se contra a escola taxonómica alemã, censurando-a por classificar como espécies tudo quanto é diversa gradação de cor, e afora isso até fases metamórficas e híbridos. Ora, se repararmos bem, até chegarem os alemães Schleich e Joger a Cabo Verde, ainda a herpetologia era sofrível. Com eles, revelou-se o caos da mulataria toda, ainda vão classificar como espécies osga por osga e scinco por scinco, em duplicado.

1984. Schleich cria em Santo Antão os dois distintos táxones gémeos Tarentola caboverdiana Schleich, 1984 e Tarentola caboverdiana caboverdiana Schleich, 1984, tudo descendentes da osga de Bornéu casada com a Tarentola delalandii africana e macarrónica, se não houver uns pingos da lagartixa vulgar à mistura (Podarcis imoralis, se não me engano). Não li este artigo de Schleich.

1984. Joger cria a nova espécie Tarentola darwini, pondo na sua sinonímia T. delalandii boettgeri Boulenger, 1906 (Canárias), T. delalandii delalandii Loveridge, 1947 (Canárias), T. delalandii rudis Mertens, 1954 (Cabo Verde) e T. caboverdianus nicolauensis Schleich, 1984 (Cabo Verde). Terra típica: Tarrafal (Santiago). Outro material: Fogo, S. Nicolau. O do Sal considera-o duvidoso. Joger cita Tarentola caboverdiana caboverdiana Schleich, 1984, em cuja sinonímia haviam caído T. d. delalandii e T. d. rudis. Terra típica: Porto Novo, em Santo Antão. As Tarentola das Canárias plantadas por Lowe e Gray ainda mal tiveram tempo de sair do porto mas já caboverdianizaram.

Diz Joger do amigo e companheiro: infelizmente, Schleich mudou a localidade típica da sua forma nominal "T. c. caboverdianus" para Santo Antão, enquanto que no manuscrito que pôs à minha disposição a localidade típica é S. Vicente. Como eu, ao contrário de Schleich, considero possível a diferenciação subespecífica nas populações das duas ilhas, tencionava redescrever a osga de Santo Antão ("T. c. a." respectivamente "antaoensis" em Joger 1984 a). Depois da troca feita pelo Schleich a forma de S. Vicente é agora descrita sob o nome de substituta ("a trocada"), 1993.

Interessante. Aprenderam com Bocage a herborizar nas nas terras típicas.

1987. Schleich, em 1984, criara o táxone Tarentola rudis rudis a partir da T. delalandii var. rudis de Boulenger, considerando várias subespécies. Agora temos que confirma os dados anteriores (de quem? não sei da existência de tal táxone em nenhum autor, excepto Schleich) de Tarentola rudis para Maio, Santiago, Santa Maria e Fogo e não a confirma, isto é, Schleich não se confirma a si mesmo para Santa Luzia, Sal, Boavista, Brava e Rombos. Tarentola rudis rudis (a distinguir de T. rudis) é confirmada só para Santiago e Santa Maria, não há referência a citações para Rombos e Fogo e é descomprovada para Santa Luzia, Sal, Boavista, Maio e Brava. Isto na tabela inaugural. Porque, no texto, verdade se diga que só comprova Tarentola rudis rudis para Santiago e Santa Maria. Por outras palavras: não confirma Fogo apesar de ter comprovado Fogo ou algo assim. Melhor dizendo: comprova a existência de Tarentola rudis no Fogo, não confirma no Fogo a existência de Tarentola rudis rudis. Passemos à subespécie Tarentola rudis maioensis do que primiti­vamente, se não me perdi já, era a bicha da Mauritânia, Sara argelino, Canárias, Madeira, etc., Tarentola delalandii. Tarentola rudis maioensis Schleich, 1984 - Schleich confirma-se para Maio e não confirma Joger para Boavista. Acontece porém que em Joger não há nenhuma Tarentola rudis maioensis, o que Joger dá para a Boavista é Tarentola de Bornéu maioensis. Passemos a nova subespécie, Tarentola rudis protogigas Joger, 1984 - Schleich confirma-a para Santa Maria e Fogo e não confirma Joger para os Rombos nem para a Brava. Acontece porém que não há nada a comprovar nem a descomprovar, em Joger não existe tal espécie. O que Joger menciona é Tarentola borneensis protogigas Joger, 1984.

Acabadas as rudis, Schleich passa à T. darwini de Joger que era a osga delalandii das Canárias, etc.. Confirma Joger para Santiago mas não o confirma para a ilha do Fogo, isto na tabela, porque no texto escreve: a suposição de Joger (1984) de uma ocorrência em S. Nicolau e no Sal afigura-se-me especulativa, pelo contrário é provável no Fogo. Mais: Joger (1984) apresenta o único animal conhecido do Sal em mau estado de conservação e, baseado pura e simplesmente no elevado número de tubérculos dorsais, faz uma possível atribuição de espécie a darwini. Faltam dados ulteriores sobre a proveniência e a colheita. Para a incorporação de Joger do tipo de darwini de S. Nicolau, subsistem igualmente dúvidas, e ele própio escreveu: "O acréscimo de ambos os exemplares efectua-se sob reserva”.

Finda a darwini de Joger que outrora fora a bicha de Tenerife e Madeira, etc., T. delalandii, Schleich passa à sua Tarentola caboverdiana Schleich, 1984 que outrora fora a osga das Canárias, Madeira e continente, T. delalandii. Schleich confirma a sua Tarentola caboverdiana para Santo Antão, S. Vicente, Santa Luzia, Raso e S. Nicolau. Depois confirma-se na subespécie Tarentola caboverdiana cabo­verdiana Schleich, 1984 só para Santo Antão. Tarentola caboverdiana nicolauensis Schleich, 1984 - S. Nicolau, claro. Tarentola caboverdiana raziana Schleich, 1984 - Raso. Embora a bicha se chame raziana, a terra típica estabelecida por Schleich é Santa Luzia. Há aqui trapalhada bocagiana. Mexer em terras típicas é uma violação da ética sistemática. Quanto à Tarentola caboverdiana substituta Joger, 1984, Schleich confirma-a para S. Vicente. Mas vai dizendo: estranhamente Joger não mencionou o material do Museu de Munique que estava à sua disposição. Calcula-se que o material que ele descreve seja em grande parte de colheitas de há muito tempo atrás e de origem de S. Vicente, e cuja proveniência - tal como para muitas outras colheitas caboverdianas mais antigas - só pode ser presumida.

Bocage tinha muitos defeitos, mas não desacreditava as fontes. Abençoados alquimistas que a estes triássicos enfiastes barretes até à sola do chinel e deles haveis feito gato-sapato. Fico feliz com isso. Portanto a osga das Canárias que aliás é de Bornéu e agora se chama Tarentola caboverdiana substituta só existe em S. Vicente. Melhor: Schleich não reconhece este táxone de Joger, dizendo que os seus animais não eram suficientemente significativos para se aperceber da diferenciação de uma subespécie. O que escreve a seguir é copiado de Joger. Mas comprova a sua existência na tabela, isto é, comprova e depois não só descomprova como diz que a bicha não existe no Museu de Munique, parecendo isto querer dizer que... Amin.

1993. Joger dá a sua Tarentola darwini ex-T. delalandii das Canárias só para Santiago e Fogo. Em 1984 dissera: na ilha do Sal, só existe eventualmente. E T. caboverdiana raziana, ex-T. delalandii da Madeira, para o Raso. E T. caboverdiana substituta, ex-T. delalandii do Hoggar, para S. Vicente. E T. rudis maioensis, ex-T. delalandii de toda a parte, incluindo Bornéu, para Maio. E a novíssima T. rudis boavistensis Joger, 1993 para o ilhéu Sal Rei e Boavista. Como a subespécie foi criada a partir de zero em sinonímia, tanto pior para Joger, fica aqui mesmo, sob a tutela da bicha das Canárias e de Bornéu, uma vez que é rudis e rudis é delalandii e borneensis também. Idem para a novíssima e sem cadastro sinonímico Tarentola rudis hartogi Joger 1993, posta nos Rombos, quando nos Rombos Joger tinha posto T. borneensis protogigas, agora tira-a de lá sem dizer água vai. Água vai, isto é tudo uma bocagianice do piorio. Menino, onde depôs as três subespécies de Tarentola borneensis de 1984? Em 1993 só sobram duas das primitivas cinco.

1994. Margarida Pinheiro (in Naurois) diz que se descobriram (descobriu ela?) "recentemente particularidades anatómicas notáveis nas formas do género Tarentola". Espero que em breve se saiba quais são essas particularidades notáveis. Talvez cabeça de lagartixa? Deixa adivinhar: essas osgas têm algo de Acanthodactylus scutellatus, e por isso Angel, na lista da herpetofauna caboverdiana que deu a Chevalier, os incluiu na família Gekkonidae, em vez da Lacertidae.

 
 
   
   

 

 

 


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