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HERPETOLOGIA
CABO VERDE
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REPTILIA: SAURIA: GEKKONIDAE
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Hemidactylus brookii Gray, 1845

1845. Gray descreve estas osgas a partir de dois espécimes de Bornéu, oferecidos pelo capitão Sir Edward Belcher, e um da Austrália, oferecido pelo Conde de Derby. A descrição original, muito curta, vem no Catalogue. Em Erebus and Terror só vi a estampa, que no Catalogue ele não refere. Para já, a situação é estranha. Mais ainda porque, tanto quanto sei, as citações desta espécie para Bornéu remetem todas para Gray, isto é, nunca a vi estudada por ninguém com novos exemplares da ilha. Mas há-de aparecer um dia em Bornéu. Dir-se-ia: essas osgas provinham era da Austrália. Acontece entretanto que no artigo Lizards of Australia and New Zealand (Gray, 1867), reaparece a mesma estampa de H. brooki publicada nos resultados da campanha dos navios Terror e Erebus e a espécie refere-se assim:

90. Hemidactylus Brookii (T. 15. f. 2), Gray, l. c. 153.
Hab. Australia?

Gray, Forbes, Thomson, Lovén e tantos outros pertenciam a uma escola transformista que por lema tinha a Forbes’ Azoic Theory: sem gozo, a ciência é uma chatice. Divertiam-se imenso, sobretudo nas férias de Verão, quando andavam nos iates particulares ou de H.M.S. a dragar abismos e a visitar ilhas.

Outros répteis trazidos por Belcher de Bornéu foram Hemidactylus vittatus, Platyurus Schneiderianus, Gecko monarchus e Heteronota Kendallii (osgas); Norbea Brookei, Tiliqua rufescens e Euprepis belcheri (Scincidae); Tachydromus sexlineatus, um lagarto da família Zonuridae. Belcher também ofereceu répteis da Califórnia e é ele igualmente o dador de Tarentola borneensis. Belcher também apresentou à Zoological Society of London um Nautilus Pompilius de Amboina, ilha do Pacífico sob administração americana. E animais sem indicação de localidade, caso do Dotted Monitor, Monitor chlorostigma. Mas se há erro, ele não é só geográfico. Esta Tarentola borneensis é um enigma biológico, está na sinonímia de Tarentola delalandii, africana e das ilhas atlânticas. São consanguíneas. Todos nós cometemos erros, o erro é um elemento normal do processo de conhecimento que só necessita de ser corrigido, de resto não levanta questões de maior. Porém, no caso dos répteis caboverdianos, a aceitarmos que há erros, eles seriam tantos que a herpetologia ficava sem base metodológica. Não teria direito a pretender-se ciência, por falta de controlo sobre o seu próprio objecto de conhecimento, num nível muito elementar, o de saber de onde é o animal. E é preciso distinguir animais de espécies. Gray só dá a proveniência de exemplares, o seu Catalogue é-o dos specimens of the British Museum e não das espécies que por esse mundo existem. Não há erros, há é um exercício de poder sobre quem ignora. Dá cartas quem sabe, os que não sabem espalham-se. Os resultados do espalhanço estão à vista: destruição e desaparecimento de tipos, espécies que aparecem, desaparecem e reaparecem miraculosamente, manuseio irregular de tipos e terras típicas, caos taxonómico. A sede do saber também é visível - o British Museum aparece sempre em cenário de fundo como instituição liderante. Têm desaparecido tipos e exemplares em vários museus, não foi só no de Lisboa. É irremediavelmente grave? Para a ciência, não parece, porque afinal os tipos estão no MHN de Londres. Para os cientistas que ocultam provas, cometem actos ilícitos, sim, é grave. O British Museum, quando não obtinha por oferta, comprava tipos. Está tudo controlado, e mais: as fontes até revelam a verdade, é uma questão de as lermos.

Hemidactylus brooki é uma espécie cosmopolita, a mais vulgar osga doméstica da Índia, que também existe nas Antilhas. Nenhuma relação, por enquanto, com Cabo Verde. Aliás, nas secções Lacertinidae, Geckotidae e Scincidae do Catalogue de Gray, não há uma única referência a Cabo Verde. A espécie foi dedicada a James Brooke, oficial da armada da Índia, primeiro rajá de Sarawak, principado instituído pelo sultão do Brunei em 1841. Este facto veio depois a permitir que Brunei e Sarawak se tornassem protectorado inglês. A missão de Brooke na área tivera por fim acabar com a pirataria e com a escravatura. Quanto à Nova Guiné, fora partilhada entre ingleses e alemães (lado oriental) e holandeses (ocidental). O interior destas ilhas, imensas, era desconhecido na época.

1867. Bocage menciona 2 expls de H. verruculatus? Cuv. da Praia, compara-os com um de Chipre e fica na dúvida se será ou não uma nova espécie.

1896. Bocage conta que em 1867 referira a H. verruculatus de Cuvier=H. turcicus de Lineu a espécie que Gray publicara em Erebus & Terror. Volte-se acima, porque esta história não é assim tão linear. Publicar estampas num lado e descrições noutro traz muita água no bico. Expls do Museu de Lisboa então recebidos de Santiago, coligidos por Leyguarde Pimenta em 1866. Bocage não tem conhecimento da sua existência em mais nenhuma ilha.

1902. Bocage nada de novo acrescenta. Só tem expls de Santiago.

1905. Boulenger refere Hemidactylus brookii para Santiago e Fogo, colheitas de Leonardo Fea.

1951. Dekayser & Villiers estudam 5 exemplares de Hemidactylus brookii angulatus Hallowell, 1852 de Santiago (Praia) e de Santo Antão (Ponta do Sol). Dão como distribuição fora de Cabo Verde a África intertropical. A forma africana é usualmente referida a Hemidactylus brooki angulatus - África a S do Sara: Cabo Verde, Senegal, Gâmbia, Guiné-Bissau, Guiné, Mali, Costa do Marfim, Nigéria, Níger, Fernando Pó.

1987. Schleich comprova a existência de H. brooki angulatus em S. Vicente, Sal, Santiago e Fogo e descomprova-a em Santo Antão, Boavista, Santa Maria, Brava e Rombos. Isto na tabela. No texto há diferenças mas estou sem paciência para o aturar. Faço apenas esta sucinta crítica literária: a Herpetofauna Caboverdiana de Schleich tem estrutura ternária: abre com uma tabela de distribuição geográfica das espécies, em que se consideram formas distintas Mabuya stangeri e Mabuya stangeri stangeri, e por aí adiante. A distribuição, na tabela, não é a mesma para Mabuya stangeri e Mabuya stangeri stangeri, por exemplo. Depois há o ficheiro das espécies, corpo do texto, em que identifica os anteriores herpetologistas que forneceram dados para a distribuição. Não é obrigatório que a distribuição, no corpo do do texto, seja igual à da tabela. Mais: Schleich nem sempre comprova os seus próprios dados anteriores. Na terceira parte, ecológica, fala das ilhas e seus habitantes herpetofaunísticos. Também aqui há divergência nas comprovações, quer em relação à tabela quer ao ficheiro. De maneira que o trabalho de Schleich (1987) é o melhor retrato do caos herpetológico caboverdiano que se pode apresentar, prova evidente de que não são os autores que mentem, os bichos é que estão em metamorfose contínua. Em vez de os estudar, Schleich desacredita os seus predecessores e desacredita-se a si mesmo. Confrontando os dados da tabela com os do ficheiro e das ilhas, o mais que se pode dizer é que não é possível assentar em que bichos há afinal em Cabo Verde.

1993. Joger só menciona a espécie Hemidactylus brooki em Cabo Verde, não considera a subespécie H. brooki angulatus, e não dá sua distribuição ilha por ilha.

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