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ANTONY C. BEZERRA
A Poética de Herberto Helder:
o ponto de partida

«¡Intelijencia, dame / el nombre exacto de las cosas!
... Que mi palabra sea / la cosa misma,
creada por mi alma nuevamente [...]»
Juan Ramón Jiménez

Refletir sobre Literatura é atitude que desde sempre foi posta em prática. Meios para tal não faltam: ensaios, manifestos, tratados… Na contemporaneidade, mais até do que em outras épocas, um espaço no qual esta reflexão freqüentemente surge é o próprio texto literário – notadamente a poesia (1). Tal condição faz valer a máxima de que nada, nem ninguém, é capaz de dizer mais sobre um texto literário que o próprio texto – independentemente da matéria nele tratada (2).

Significativo nome da literatura portuguesa atual, Herberto Helder é autor que não foge a esta inquietação. Para ele, é necessário ir além da práxis da poesia: sente também a necessidade de expor, na linguagem atomizada e fragmentária da lírica («singularizada», mas nem por isso isolada, como diz Bosi (3)), como e por quê – e para quê – se cria. Na carne e no espírito, procura condensar sua visão de mundo num inquérito aparentemente teleológico da existência que, em última análise, é mesmo regressivo – os constantes avanços são dados no sentido do descobrimento das causas primeiras.

O percurso escolhido por este poeta nascido na ilha da Madeira (em 1930) para apresentar o seu processo criativo não rima com prescritivismo ou simplismo – muitíssimo pelo contrário. Como já lembrara Guedes (4), a viagem helderiana é permeada de obstáculos, tornando sua poética hermética e dificultando a reordenação das referências feitas nos textos.

O poema que nos dispusemos a ler tem mesmo este nome (‘O Poema’) e trata-se, na realidade, de uma série de setes poemas, todos numerados em romanos. Foi composto por Herberto Helder no início de seu percurso literário e publicado em Colher na Boca (1961), estréia do autor em livro, se contarmos que Amor em Visita é muito mais um folheto. Por a lira de Helder não caber na limitação de amarras formais, diversidade é o que há na composição estrutural de ‘O Poema’. Embora digno de investigação, tal aspecto tem aqui de ser relevado – temos propósitos outros.

Aquilo que apontara Décio como ponto central do fazer poético helderiano – «a preocupação com a construção do poema, com o rigor da expressão, na luta contra as palavras» (5) – é observado no poema i de ‘O Poema’, que começa redigido no presente do indicativo – tempo das verdades universais. O ‘eu’ observa que «Um poema cresce inseguramente / na confusão da carne. / Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto / talvez com sangue» (6). Já nestes primeiros versos identificamos um elemento recorrente na obra do poeta português: a concepção da criação lírica como uma atividade corporal, sangüínea, resultado do anseio pela expressão mais adequada, pela palavra que não existe – ou que, se existe, não está ao alcance do poeta.

Na reconstrução da fragmentada realidade vislumbrada por sua lente poética, o ‘eu’ elege o poema como o ambiente ideal para fazê-lo com amplidão («E o poema cresce tomando tudo em seu regaço»), naquilo que Carlos Felipe Moisés (7), considerando a lírica como um todo, afirma ser o «ângulo poético» – o ângulo no qual estão incluídos todos os outros (histórico, sociológico, filosófico…). É, ao mesmo tempo, um e todos.

Ainda no poema i vemos a força da poesia: «E já nenhum poder destrói o poema». Esta visão universal proporcionada pelo texto poético está imune a contestações e sua inviolabilidade é fato incontestável: paira sobre o universo.

Para recolher os elementos de metapoesia observáveis em ‘O Poema’, somos forçados a ‘passar por cima’ das outras alusões existentes ao longo dos sete poemas. A ressaltar apenas a recorrência de temas do amor carnal (‘o êxtase’, ‘o beijo’ etc.) e da natureza (‘a árvore’, ‘o pássaro’) – usuais na poética helderiana e representativos do sincretismo entre o físico e o transcendente que se dá no universo do poeta.

No poema iii, flagramos o ‘eu’ a pensar, no futuro do pretérito – na condição da solidão e do silêncio –, «que haveria uma palavra vingativa e pura,». É este oxímoro que marca a extensão da palavra buscada pelo poeta, a palavra que seria – ‘seria’, pois inatingível – a mais propícia para se expressar na vastidão que só o canal poético pode proporcionar. É curioso notar que, na busca do nome exato, temos uma jornada que impele o homem para a frente e para trás: vai adiante na busca da palavra primeira (In principio erat Verbum.).

E que palavra seria esta? O ‘eu’ arrisca algumas respostas: «Um abstracto nome de mulher ou pássaro. / Quem sabe? – Espelho, Cotovia, ou a desconhecida / palavra amor.» (poema iii). O ‘x da questão’ pode estar, assim, nas maiores motivações do poeta: o amor da mulher e a natureza circundante (que não é exatamente um locus amœnus).

O poeta assume também uma perspectivação idiossincrática, quando destaca, no poema iv, ser o trabalho lírico resultado de uma «rigorosa visão e a experiência / desmedida da carne.». E vemos aqui, mais uma vez, o tema do corpo. Corpo que em Helder não é um amontoado de impulsos nervosos, e sim a porta por onde é externada a inspiração – «Uma inspiração que fende lírios na minha testa, / fende-nos ao meio / como os raios fendem as direitas taças de pedra.» (poema vii). O sangue é, também, o elemento criativo que flui pelas veias do criador, que transforma, que renova, que anima (‘anima’ = ‘alma’), que proporciona novas possibilidades de se encarar o universo (meta)físico onde o ‘eu’ concebe sua poesia.

E nessa marcha de um «sopro alucinado» (poema vi), da «loucura das pontes celestes» (poema v), temos um arremate marcado pela união entre gozo e sofrimento: «O poema dói-me, faz-me feliz / e trágico». A geração do poema ajuda o ‘eu’ a compreender o mundo circundante, mas há – sempre haverá – a impossibilidade de encontrar a palavra precisa, justa… Feliz por poder externar sua voz, triste por não chegar ao fim (que é o começo).

Se é ponto pacífico o fato de a leitura de um texto literário não deixar nenhum receptor indiferente, da poesia de Herberto Helder é impossível não se sair com um grande sentimento de inquietação, e, face à linguagem calculadamente caótica proposta pelo poeta, não apenas ver as palavras – e lembremos que a poesia helderiana é essencialmente sensorial (especialmente visual) – por se oporem umas às outras, mas sim em sua própria essência, em sua faceta material, em sua corporeidade.

Da multiplicidade que é a obra de Herberto Helder, pudemos dar uma pálida impressão. No entanto, como já dizíamos no início deste pequeno ensaio, nada diz mais acerca do texto artístico que o próprio. Nossa modesta e limitada leitura é apenas mais uma. Lendo Helder, terá a sua…

Notas

 

(1) É mais do que evidente que não cabe aqui divagar sobre o que seria ou não um ‘texto literário’. Para evitar reduções ou prolixidade, deixemos a questão de lado: que se interprete a proposição livremente.

(2) Com isto, desejamos ressaltar que não é apenas a metapoesia que ‘defende’ uma concepção da criação poética. Todo e qualquer texto, literário ou não, defende uma noção de escrita.

(3) Bosi, Alfredo. O Ser e o Tempo da Poesia. 4. ed. São Paulo: Cultrix, 1993. p. 113.

(4) Guedes, Maria Estela. Viagem e Utopia em Herberto Helder. Colóquio / Letras, Lisboa, n. 46, p. 36-45, nov. 1978. p. 37.

(5) Décio, João. Para um Estudo do Processo Criador na Poesia de Herberto Hélder. In: colóquio luso-brasileiro de professores universitários de literaturas de expressão portuguesa, 1., 1984. Lisboa; Coimbra; Porto. Actas. Lisboa: Instituto de Cultura Brasileira / Universidade de Lisboa, 1984, p. 447-453. p. 451

(6) Esta citação de ‘O Poema’ e todas as demais foram extraídas de:

Helder , Herberto. Poesia Toda: 1953-1980. Lisboa: Assírio e Alvim, 1981. p. 40-59: O Poema.

(7) Moisés, Carlos Felipe. Poesia e Realidade: ensaios acerca de poesia brasileira e portuguesa. São Paulo: Cultrix / Secretaria de Cultura, Ciência e Tecnologia, 1977. p. 23.

© Antony C. Bezerra, 2000
antonycbezerra@hotmail.com

 
   

 

 

 


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