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Herberto Helder..
Herberto Hélder em versão ciber-Zen
Musicar a poesia de Herberto Hélder não é fácil, e muito menos aquela que segue os preceitos Zen, em versos muitas vezes com a forma de haikus nos quais são aplicadas, como é de regra, temáticas ligadas à natureza. E isto porque a busca de despojamento deste autor entra em inevitável contradição com a sua ideia de que “a paixão é a moral da poesia” e com uma prática de extremos que nos leva a definir a sua escrita como mágica, ou seja, transformadora. Ele próprio afirma que o poema “é um objecto carregado de poderes magníficos, terríveis”, nunca conformado com a mera detecção da existência e do que há de essencial nas manifestações da vida. Essa existência, Hélder faz questão de alterar e até de manipular. Só um exemplo trabalhado musicalmente pelo trio constituído por Nuno Rebelo, Vítor Rua e Vera Mantero: “De tarde / o galo anuncia a aurora / o sol brilha vivamente / à meia-noite.” Se levarmos o conceito de Zen até à sua máxima consequência, verificamos que desenvolver uma subjectiva versão da existência, que é o que um poeta inevitavelmente faz, implica não se experienciar a própria existência de modo instantâneo. Se é este o principal dilema da poesia Zen tradicional, mais verdade se torna numa intervenção poética que se move entre a desordem e a ordem, com o fito de superar o caos mas também de o repor quando intervêm as dinâmicas que, para todos os efeitos, comprovam as rotinas existenciais: “Quando o peixe se move / turvam-se as águas”.

É por isso que a interpretação realizada pelos três músicos da poesia Zen de Herberto Hélder introduz outras coordenadas, e designadamente as da cibernética, que é o estudo dos sistemas gerais e da relação entre eles, e logo para começar dos biológicos, área em que esta escrita se alicerça, no seu propósito cosmológico e cosmogónico de criar e destruir mundos. Ao fundamento da simplicidade do Zen, acrescentam (sem necessariamente contraporem, antes jogando com os dois níveis) uma noção de complexidade que é própria da cibernética, tomando-a como a organização e a agregação de componentes não estruturados, ou dizendo de outro modo, como a edificação de uma realidade compósita que, se é feita de elementos naturais, tem os contornos de coisa fabricada - “Tira água / e a lua estará / nas tuas mãos”. Fá-lo o colectivo So Happy Together não só mediante uma utilização heterodoxa de um instrumento como a guitarra portuguesa, que como se sabe tem usos muito definidos (utilização essa que passa pela recusa de toda a gramática que lhe foi estabelecida, e daí a designação “guitarra portuguesa mutante”), como também pela junção da electrónica, para uma mais radical alteração dos parâmetros sonoros. As guitarras de Rebelo e Rua são tocadas na horizontal e “atacadas” por objectos de tipo variado, e uma delas, a do primeiro, dispõe mesmo de cordas extra e lâminas de kalimba. Sob os seus pés está uma série de pedais de efeitos, que são ligados e desligados consoante as situações. A própria voz de Vera Mantero é processada electronicamente e o seu registo alterado, de modo que dela temos uma versão pós-humana, artificial, mutante igualmente, a interferir com a emitida pela glote. Esta presença da tecnologia mais acentua a perspectiva cibernética de tal visão do Hélder Zen, na medida até em que responde ao devir-animal sugerido pelos poemas com o devir-máquina da música, dado que foi o desenvolvimento tecnológico e dos sistemas de informação que permitiu a formação desta disciplina epistemológica, pelo facto até de se ter compreendido que todos os sistemas se equivalem, sejam naturais ou inventados pelo homem.

Vários estudiosos da obra de Herberto Hélder têm salientado a sua ligação com os princípios da alquimia, mas se de modo geral é referida a produção de ouro como um objectivo implícito, ainda que metafórico, da sua poesia, a verdade é que o devir-animal anunciado e o devir-máquina subentendido pelos So Happy Together diz sobretudo respeito a um outro objectivo dos alquimistas medievais: a criação de vida humana a partir de materiais inanimados, o homunculus. Humana, mas não demasiado, porque como assinala José Gil em “Monstros”, o homúnculo, porque de um monstro se trata, tem menos de homem do que de inumano, isto é, de animal ou de máquina. Os animais de Hélder podem ser uma projecção da sua humanidade, mas na medida em que esta contém o germe da própria inumanidade: “Qualquer coisa em nós, no mais íntimo de nós (...) nos ameaça de dissolução e caos. Qualquer coisa de imprevisível e pavoroso (...) permanece escondido mas pronto a manifestar-se.” Argumenta o filósofo que “o monstro atrai” porque é uma actualização do possível em nós. Disse-o igualmente uma especialista na poesia helderiana, Maria Estela Guedes, num escrito sobre os “híbridos” do poeta madeirense: “Quando no plano da cultura não científica se debatem os híbridos, a imaginação tudo admite, mesmo o impossível, como as sereias e os centauros.” Ou os galos de madeira da meia-noite, no caso de Hélder. Alerta José Gil, no entanto, que não há devir real através da monstruosidade, e sim “um movimento caótico de repente paralizado”, algo que aborta em determinada altura, que fica inacabado. Mesmo a noção de devir supõe a não cristalização numa fórmula. A poesia de Herberto Hélder é performativa, acção, poemacto, vai e vem, sem se definir objectivamente, assim como é performativa a música que nele se inspira, dependente portanto do momento e do lugar.

O facto de Vera Mantero ser coreógrafa e dançarina tem tudo a ver com esta condição, embora o seu papel no grupo exclua o movimento. O que está em causa é a relação da voz, da sua voz, com o corpo, o seu, sentado a meio do palco, com o foco de luz delimitado no plano entre o rosto e as mãos. E mais uma vez é José Gil, pensador que, aliás, se tem interessado muito especialmente pela dança, quem nos fornece a chave para a compreensão do modo de estar dos So Happy Together nesta leitura de Herberto Hélder. No espectáculo, e tal como aquele escreveu no ensaio “Metamorfoses do Corpo”, a fisicalidade de Mantero “passa completamente para o lado da voz”, torna-se inclusive num “bloco de voz”. O corpo, sustenta Gil, é uma respiração que fala, surgindo o sopro da voz como uma mediação permanente entre o interior e o exterior do corpo, uma passagem por onde se articula o sentido. Mais ainda: é a voz que constitui o corpo “em totalidade articulada no tempo”. E já agora no espaço: pode o corpo de Vera Mantero permanecer na penumbra, que a sua voz, amplificada pelos olhos e pelas contorções faciais, que não apenas pelo PA, bastam para o iluminar e expor por inteiro. A voz torna-se corpo logo depois de o corpo se tornar voz, se bem que transformado, pois revelou-se nessa subtil transição uma nova entidade, o devir-pássaro, devir-peixe, devir-galo de que nos fala Hélder. Tal operação tem o seu quê de xamânico, pois nesses momentos Mantero “é” o pássaro e o peixe e o galo dos versos que diz ou canta. Ao mesmo tempo, é também as máquinas que os reproduzem, o microfone, o processador, a mesa de mistura, os altifalantes da sala. São estes os meios da expressão mas igualmente a forma dessa expressão, impossibilidade cibernética de uma manifestação Zen e em simultâneo a via para a abordagem Zen tentada. O paradoxo liberta, e porque liberta torna-se iminentemente criativo: afinal, foi nas fendas entre o que a Herberto Hélder se apresentou como contraditório que este erigiu o microcosmos mítico da sua torrencial poesia. “No fundo das montanhas / está guardado um tesouro / para aquele que nunca o procurar”: esse tesouro, Vítor Rua, Nuno Rebelo e Vera Mantero, tal como o poeta, nunca encontrarão, mas também é certo que o ímpar interesse deste projecto está, precisamente, nessa certeza que é o próprio destino da humanidade. Nunca conheceremos a nossa razão de ser.

Rui Eduardo Paes

 
Fonte: So Happy Together
http://rep.no.sapo.pt/happy.htm
   
   

 

 

 


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