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Helena Langrouva
A PROPÓSITO DO DIA DA NÃO-VIOLÊNCIA – 30 de Janeiro

Introdução
Não-violência e ahimsâ

Na manhã de 30 de Janeiro de 1948, um fanático hindu assassinou Gandhi, na Índia, na véspera de Gandhi estar a preparar, com um jejum, uma acção de pacificação entre hindus e muçulmanos. Esse fanático não estava de acordo com a abertura de Gandhi à conciliação entre muçulmanos e hindus. Após ter libertado a Índia, um ano antes, em 1947, do regime britânico, pela não-violência, Gandhi tinha conseguido, já com idade muito avançada, parar uma guerra entre muçulmanos e hindus, apenas em cinco dias de jejum público, que assumiu como táctica não-violenta.

Para nós ocidentais, a palavra Não-Violência poderá parecer negativa, mas não o é. Traduz a palavra hindu Ahimsâ que significa privar-se – a- de violência ( relacionada com a palavra “violar” ) –himsâ - e que se pode traduzir, em francês, por “amour” (Vide capítulo II – Amour (Ahimsâ) do livro da autoria de Gandhi, Lettres à l’Ashram, trad. Jean Herbert, Albin Michel, Paris, 1936 e 1960, pp. 35-40). Foi necessária traduzi-la do hindu porque foi Gandhi que, no século XX, lhe deu uma dimensão multímoda, pela reflexão, a meditação e a prática. Gandhi considerava a Ahimsâ como a mais elevada qualidade do espírito que todos podemos alcançar, mas que só se adquire pela prática. Segundo ainda Gandhi, a quem os próprios indianos chamavam Mahatma que significa a grande Alma, a ahimsâ encontrava-se bem expressa do discurso de Jesus Cristo sobre as bem-aventuranças, no Sermão da Montanha, (Evangelho de Mateus, 5, 1-12; Lucas, 6-20-26). O Ashram a quem Gandhi escreveu as cartas acima referidas era a comunidade onde ele vivia com hindus, muçulmanos e cristãos.

Por ser a não-violência um termo que exige tão meticuloso aprofundamento, passível de apresentar tantas dimensões, reflexões, fundamentos, planos, áreas, tácticas, passível de eficácia e de aplicabilidade, a começar pelo plano prioritário da conversão interior de cada ser humano, que conduz à paz e à caridade; não podendo alongar-nos hoje sobre este assunto por também ser tão vasto, optamos por apresentar algumas breves notícias, excertos e reflexões.

Mahatma Gandhi e
Lanza del Vasto

Sendo o dia 30 de Janeiro o dia da não-violência e também o dia da comemoração da morte de Gandhi, apresentamos breves palavras de Gandhi – que publicou várias obras em livro, sendo uma das mais importantes An autobiography.The story of my experimentswith Truth ( em várias edições, Beacock Press, Boston, 1957, algumas traduções). Trata-se de uma obra notável em que o autor revela e medita a sua vida como procura de verdade e da verdade como experiência. As palavras de Gandhi que citamos estão inseridas em textos de Lanza del Vasto (1901-1981) - um filósofo e escritor de língua francesa, italiano, nascido em San Vito, Brindisi, Itália, falecido em Múrcia, Espanha - que com ele conviveu, no seu Ashram, em Wardha, autor de um best-seller sobre a sua viagem à Índia Le Pèlerinage aux Sources onde narra e medita o seu encontro com Gandhi (livro publicado em 1943, Denoel, Paris; em edição de bolso, Gallimard, Folio, Paris – ambos em sucessivas edições; Éditions du Rocher, Monaco, em reedição mais recente (2004); traduzido em várias línguas; traduzido em língua portuguesa pela autora destas linhas, aguardando publicação, com outras suas traduções do mesmo autor, desde os anos 80, em Portugal).

Os breves excertos abaixo citados estão traduzidos e publicados em português num livro hoje esgotado – Lanza del Vasto, Não-Violência e Civilização - Antologia (selecção e tradução também da autora destas linhas), Lisboa, Edições Brotéria, 1978, publicado por ocasião da vinda de Lanza del Vasto a Portugal, em Abril de 1978, para um ciclo de conferências sobre o tema “Violência, não-violência e o destino do Ocidente”.

Os leitores interessados poderão ainda recorrer a exemplares existentes na Biblioteca da Brotéria, em Lisboa (Rua Maestro António Taborda, nº 14, às Janelas Verdes) ou às mesmas traduções publicadas mensalmente na revista Brotéria, Lisboa, Janeiro a Julho de 1978. Dentro de algum tempo alguns capítulos dessa Antologia de Lanza del Vasto serão publicados em texto electrónico, com a autorização da Brotéria, a quem muito agradecemos.

Nos anos 70, Lanza del Vasto que residia em França e deu conferências durante cerca de quarenta anos, pelo mundo, era convidado para a ir à Índia dar conferências e participar em encontros sobre o pensamento e a obra de Gandhi que já então era preciso recordar, na própria Índia.

Muito recentemente, em Maio de 2006, a Faculdade de Teologia do Instituto Católico da Universidade de Toulouse realizou um Colóquio intitulado” Lanza del Vasto, un génie pour notre temps” cujas actas acabam de ser publicadas.

Há poucos dias, em 26 e 27 de Janeiro de 2007, acaba de se realizar um Congresso sobre a filosofia de Lanza del Vasto em Pisa, Itália, onde o prestigiado autor de uma vasta bibliografia se doutorou em Filosofia, em 1927, com uma tese intitulada “A Trindade Espiritual”, publicada em francês, La Trinité Spirituelle (Denoel,Paris, 1971).

Excertos de Lanza del Vasto, "Não-Violência e Civilização - Antologia", Lisboa, Edições Brotéria, 1978

“Não sou um grande sábio – disse Einstein. Receio que o meu saber e as minhas descobertas possam contribuir pouco para o bem da humanidade. Só há um grande sábio no nosso século: Gandhi” (p.85).

“A não-violência é tão antiga como as montanhas”, disse Gandhi.

Foi ensinada no Evangelho com uma clareza e uma força que não deixam nada a desejar e foi lá que Gandhi a foi beber.

Cinco séculos antes foi pregada por Buda que acrescenta: “Essa é a lei antiga”.

Está inscrita nos livros chineses sobre o Tao.

Os rishis védicos conhecem-na.

Aparece na Bíblia desde o livro do Génesis, na história de José e seus irmãos.

Gandhi não traz nenhuma revelação nova…. O que é novo e de uma ousadia inaudita é a aplicação deste princípio de perfeição interior a todos os planos da vida e à vida de todos: à condução de um povo, à conquista da liberdade, ao exercício do poder, à manutenção da justiça, à diplomacia, à política, à economia, à educação, à medicina, ao regime alimentar, à vida familiar e quotidiana. (p.87).

Há duas forças no mundo: a força da espada e a força do espírito. A força do espírito acabará sempre por vencer a força da espada…

A eficácia da não-violência é deitar por terra as justificações que provêm dos falsos absolutos da técnica, da política, da estratégia, da economia e da ciência.

A não-violência é o contrário da justificação dos meios maus para um bom fim, é o ajustamento dos meios ao fim, e se o fim é justo, os meios devem também sê-lo. (p.92).

Gandhi ensina que os meios e os fins estão ligados como a semente à árvore. É isso que explica a decepção que se segue a todas as vitórias e libertações obtidas pela violência, mesmo quando a causa é boa e os combatentes são heróicos e sinceros.

As boas causas não justificam os meios maus, mas são os meios maus que estragam as melhores causas. Deve distinguir-se eficácia instrumental de eficácia final…A força pode servir para qualquer fim, mas a não-violência ou força da justiça é eficaz para servir a justiça.

A não-violência pode parar a guerra? Vede a vida de Gandhi e sabei que ele parou uma, sozinho, em cinco dias…. (p.93).

Gandhi diz que a não-violência e a verdade são a mesma coisa.

É por isso que a luta não-violenta também se chama Satyagraha - satya, verdade, graha, procura - que significa procura, adesão à verdade. (p.103).

O acto de confiança do não-violento traduz-se nesta afirmação: o homem que se vê forçado a ver diante de si próprio que não tem razão, não pode continuar a lutar.

A não- violência é uma luta, um diálogo com o inimigo para tirá-lo do erro, não para impor-lhe a paz e ditar-lhe a lei, mas para levá- lo a um acordo (p. 102)

O alvo da não-violência: tocar a consciência do inimigo ( p.96)

Breve reflexão

Convém começar sempre por trabalhar para tomar consciência e tocar a consciência de si próprio, do que em cada um de nós há de violência, de força destrutiva, de erro, a assumir, a gerir e a mudar para a procura de verdade, para a procura de exactidão dos nossos actos para connosco próprios, para com os outros, de trabalhar para a exactidão dos actos dos outros para cada um de nós. Trata-se da procura de justiça para nós próprios e de justiça na relação com os outros. Daí a importância do que se designa como “exame de consciência”, um auto-exame bem dirigido, sem exagerar nem deformar a culpabilidade. É sabido como os excessos de culpabilidade conduzem à doença psíquica. Todos os grandes homens convidam à procura de consciência de si próprio.

A não-violência tem a ver com a gestão e a solução de conflitos dentro de cada homem ou entre os homens, é um caminho de aperfeiçoamento moral e espiritual que envolve por exemplo, como usar a inteligência, como o homem pode mudar e gerir a sua própria violência, transformar a sua capacidade de se indignar, a sua ira numa força combativa, renunciando à violência, pela procura de verdade e de justiça.

A não-violência envolve tudo o que tem a ver com o respeito pela vida, a procura de uma maneira de ser conducente à paz interior e à construção da paz, um modo pacífico de perseverar na vida. Os brasileiros chamam “firmeza permanente” à não violência.

Lembremos ainda que este é o ano da comemoração dos 60 anos da independência da Índia, graças à longa acção não-violenta de Gandhi para tocar a consciência dos britânicos que acabaram por entender a sua luta sem violência, na sua perseverança única na história do século XX, e o compreenderam, foram mudando, acabando por conceder a independência à Índia.

A história é também a história de muitos desastres - “as mãos pesadas de desastres”, na expressão de Sophia de Mello Breyner Andresen. Está por escrever e por construir uma história da não-violência.

Um caminho para todos, recordando o Sermão da montanha

Segundo Gandhi a não-violência está ao alcance de todos. Para Camões o heroísmo não é para uma elite, mas está também ao alcance de todos – “ que quem quis, sempre pôde” (Os Lusíadas, IX, 95 ,6), porque é também envolve a procura de força do espírito. Nas palavras de Cristo, no Sermão da Montanha os felizes ou bem-aventurados são não uma elite mas os que se encontram no movimento de uma procura, de um caminho a perseverar:

Os mansos, os pacíficos ou pacificadores, os que procuram, fazem, praticam a paz, assim como os que procuram a força do espírito, os que sofrem, os que procuram a justiça ou são perseguidos por causa da justiça, os misericordiosos, os puros de coração- de que falam as bem-aventuranças evangélicas -, são os que procuram verdadeiramente ser não-violentos.

“Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu

Felizes os que choram, porque serão consolados

Felizes os mansos porque possuirão a terra

Felizes os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados

Felizes os misericordiosos porque alcançarão misericórdia

Felizes os puros de coração porque verão a Deus

Felizes os pacificadores porque serão chamados filhos de Deus

Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu

Felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos porque grande será a vossa recompensa no Céu; porque assim também perseguiram os profetas que vos precederam” (Evangelho de Mateus, 5, 3-12)

 

Helena Langrouva

musas@netcabo.pt

 
   
   

 

 

 


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