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Helena Langrouva
ITINERÁRIO POÉTICO DE LIBERTO CRUZ
(Sintra, 1935)
A TUA PALAVRA

Em A Tua Palavra (Natal de 1958), Liberto Cruz surpreende-nos com um único poema religioso, porque relacionado com a religião cristã, porque lamenta o facto de já não haver lugar para a palavra de Cristo – não nomeado mas apenas entrevisto, através de alusões dedutíveis do contexto religioso cristão e dos evangelhos -, nem há lugar para a sua face, para a meditação nos seus serenos passos, nos seus milagres, para o efeito da sua palavra que cura. Este poema elegíaco marca uma tendência da poesia de Liberto Cruz para a expressão de aspiração a uma certa religiosidade profunda, de um religação ao sagrado ou à vivência mística que, neste poema, acaba por ser não veiculada pela figura de Jesus Cristo, da qual o mundo está cada vez mais afastado. Resta a esperança que apareça “um rosto novo”, a esperança talvez de uma nova era com outro rosto de religiosidade. Liberto Cruz assim escrevia aos 23 anos, num contexto ocidental judaico-cristão e português de quem procura algo que lhe dê uma referência vivível da experiência religiosa que, nos finais dos anos 50 lhe parecia desacreditada.

A tua palavra…

 

Aqui, entre onda e pedra, vento e fogo

Já não há lugar para a tua palavra

…………………………………..

e entre onda e pedra, vento e fogo

esperamos que a madrugada

na sua mais próxima palavra

um rosto novo nos cante

(fim do poema “A tua Palavra”)

Helena Langrouva é licenciada em Filologia Clássica (Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa), Maître ès Lettres Modernes – Cinéma (Montpellier III- Université Paul Valéry), pós-graduada – DEA ( Universidade de Paris III- La Sorbonne Nouvelle), Master of Arts e Master of Philosophy (Universidade de Londres – King’s College) – e doutorada (Universidade Nova de Lisboa) em Estudos Portugueses. Foi Leitora de Língua e Cultura Portuguesas nas Universidades de Montpellier e Rouen, ensinou Literatura Portuguesa Clássica, Teoria da Literatura, Introdução aos Estudos Literários e Francês, no ensino superior, em Portugal, com passagem pelo ensino secundário onde leccionou Grego, Latim e Português. Equiparada a bolseira pelo Ministério da Educação e Cultura, foi bolseira da Fundação Oriente e da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo investigado em bibliotecas e museus europeus. Escritora, investigadora interdisciplinar, nas áreas da cultura clássica, renascentista e do século XX, tem-se dedicado em especial ao estudo de Literatura e Arte dos séculos XV e XVI.

É autora de A Viagem na Poesia de Camões, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian- FCT, 2006; Actualidade d’Os Lusíadas, Lisboa, Roma Editora - apoio FCT, 2006; De Homero a Sophia. Viagens e Poéticas, Coimbra, Angelus Novus – patrocínio IPLB-, 2004; Arpejos de uma Viandante/ Arpèges, Lisboa, 2003. Co-editou, com Aires A. Nascimento, José V. De Pina Martins e Thomas Earle, Humanismo para o nosso tempo. Homenagem a Luís de Sousa Rebelo, Lisboa, edição patrocinada pela Fundação Calouste Gulbenkian e comercializada pela APPACDM, Braga.

Publicou ensaios nas revistas Brotéria, Critério e O Tempo e o Modo (Lisboa), Traduziu e seleccionou Lanza del Vasto, Não-Violência e Civilização- Antologia, Lisboa, Edições Brotéria, 1978 e traduziu ainda Jean Joubert, O Homem de Areia (romance), Lisboa, Difel, 1991.

Estudou Artes Musicais – Canto Gregoriano e Canto Clássico - Artes Plásticas – Desenho e Pintura- e Iconografia. Tem ainda cultivado o canto ao longo da sua vida, fez exposições individuais de Pintura em Sintra, Lisboa e Évora e dedica-se em particular à pintura de ícones.

É membro da Associação Portuguesa de Escritores, da Associação Portuguesa de Críticos Literários, da Sociedade Portuguesa de Autores, da Associação Internacional de Lusitanistas.

Contacto:

musas@netcabo.pt

 
   
   

 

 

 


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