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Helena Langrouva
Três poemas pascais
Passos de Cristo soam nas encruzilhadas

Rios de lágrimas sorvem o soro das montanhas

O teu Jesus morreu

Dein Jesu ist tot

A voz de Madalena grita trespassada

Na Paixão segundo São João de Bach

 

Tudo está consumado

O desenho do rosto de Cristo sofredor

Meditado na mais remota idade

 

A mão arpejante da artista

Em busca de um sentido para a dor

Gravou bálsamo de eternidade

 

Meditou pelas entranhas do invisível

Desenhou e pintou Cristo Pantocrator

Com o voo da mão bafejada

Pela solidão da noite

E os círculos do arco-íris

O silêncio e vibração da vida

O desenho e a cor como bálsamo

O sabor da palavra peregrina

               
RESSURGIR

Rios de lágrimas sorvem

Soro das montanhas

 

Tudo está consumado

 

Desenho e cor bálsamo

Sabor da palavra peregrina

 

Aceitar o sofrimento

sorte camuflada

 

Sorver o cheiro da flor

Olhar o céu e a cascata

 

Ressurgir do vazio dos dias

Esperar o ritmo das marés cheias

 

Areia lisa das praias

Alga verde da vida

 

Fluir em rios de luz divina

       
       

Aceitar o sofrimento que nos cabe em sorte

Não sabemos por que moira camuflada

 

Não pensar em excesso na morte

Para não nos obcecarmos pelo enigma

Sorvermos o cheiro da flor que nos resta

Olharmos o céu ou a cascata

Nesta passagem confluem imagens enigmas

 

Aceitar a morte como uma coisa natural

Como Eugénio de Andrade

Como Homero

Assim como as folhas assim os homens caem

 

O poema que escrevi sobre a morte apagou-se

Porque nela mesmo perco tempo a meditar

E dela nada poderei saber

O enigma mais natural e mais inadiável

 

Apenas uma passagem de um corpo a pó

Apenas um último sopro que parte

O salto para o vazio

A perda da luz segundo o pensamento grego

O sopro seco e tórrido do deserto

O frio dos glaciares a fluírem

Num dilúvio não antecipado mas real

 

A esperança da imaginação de Dante

Para além deste cais certo da partida

 

A visão de rios de Luz e Música eterna

Nos torne intrépidos para o concerto esperado

Após os arpejos tocados no instrumento da vida

Contacto: musas@netcabo.pt

 
   
   

 

 

 


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