FAUSTO DUARTE

Auá

Novela negra


Lisboa, Livraria Clássica Editora, 2ª ed..
(1ª edição, 1934, 223 pp.)

Auá, de Fausto Duarte: a  obra-prima da literatura colonial guineense
Por Beja Santos (&  Luís Graça)

Coube a Leopoldo Amado (“A Literatura Colonial Guineense”, Revista ICALP, Julho – Outubro de 1990)(*) o mérito de destacar a importância do romance Auá, de Fausto Duarte, contextualizando-o ao sabor das transformações operadas na Guiné portuguesa a partir dos anos 20 do século passado.

Dera-se a “pacificação” ou estava em processo terminal; surgiam os primeiros jornais publicados na Guiné e com eles surgia a literatura jornalística; Maria Archer e Fernanda de Castro (**) escreviam sobre a Guiné em Portugal, e com relativo sucesso; uma elite cabo-verdiana (Fausto Duarte, Juvenal Cabral e Fernando Pais Figueiredo) promovia os interesses africanos pugnando pelo alargamento do ensino aos guineenses.

Fausto Duarte [1903-1955] (***) apareceu como repórter, colunista e cronista desportivo numa Bissau que já é capital comercial da colónia; participou na primeira Exposição Colonial de Paris, dedicando um número especial ao evento no jornal O Comércio da Guiné onde destacou a etnografia guineense.

É um homem culto que capta as novas contradições da assimilação colonial e do gosto pelo exotismo. A Guiné que ele vai descrever em Auá é completamente diferente da retratada quer por Maria Archer e Fernanda de Castro e outros. Pela sua formação, revela atenção e um elevado espírito de observação pelas tensões de civilização: entre as etnias no mato remoto e em Bissau; entre o trabalho agrícola de sobrevivência e o trabalho ao serviço do colono em Bissau; mesmo ao de leve, refere estados de identidade de aproximação entre a realidade colonial e a adesão das populações guineenses. Tudo leva a supor que Fausto Duarte escreveu sinceramente e de acordo com o seu compromisso cultural de hibridação e de exaltação dos valores africanos.

Auá foi galardoada com o 1º prémio de Literatura Colonial em 1934, ano em que aparece editada pela Livraria Clássica Editora, de Lisboa, e com prefácio de Aquilino Ribeiro (ele escreve: “O primeiro que viu a Guiné foi Nuno Tristão, o segundo foi o autor de Auá... Com simplicidade encantadora, vai nos pintando o que é a vida naquele trato de terra e humanidade... Fausto Duarte é pela civilização, mas a sua sensibilidade não cala a ternura que lhe merece o homem escravizado. Os que sonham com um Portugal de além-mar engrandecido hão-de de ficar gratos à pena colorida, equilibrada, emotiva sem excesso que escreveu Auá, estreia literária de maior realce e obra de elevação lusíada”).

Aquilino Ribeiro exaltou o romancista mas também foi excessivo. Fausto Duarte era tudo menos simples: cita Schiller em alemão, Paul Morand em francês, conhece profundamente a cultura europeia e tem uma riqueza vocabular espantosa. Não acredito que a sua Novela Negra, como lhe chamou, tenha sido popular quer na Guiné quer em Portugal. Basta ver como se inicia a sua obra:

“As águas tranquilas do Impernal acariciando o debrum da paisagem dormente, anquilosada pelo sol adusto, áscua viva que se reflectia na opacidade plúmbea dos céus, espreguiçavam em torcicolo ocultando-se entre o tufo emaranhado dos mangais. A vazante tinha posto a descoberto a orla mádida e lamacenta do rio, e uma variedade abjecta de moluscos deslocava-se sobre a terra lodosa, aquecendo-se ao calor estuante de Novembro”.

De que versa Auá ? Malam é um fula que trabalha em Bissau, tinha trabalhado como criado de alemães. Frau Wrede não resiste à beleza de Malam e fazem amor. Depois pede a alguém para escrever uma carta ao administrador de Bissau a oferecer os seus préstimos, quando os alemães partiram. Foi admitido ao serviço e agora vai a caminho do Gabu, vai casar com Auá, a mais bonita bajuda do leste da Guiné. É uma viagem longa, atravessam o Impernal, seguem para Mansoa, depois Mansabá, depois Bafatá. Leva na mala muitas prendas para a sua noiva: lenços, panos, bandas, missangas, manilhas de prata, um fio de ouro. Fica a descansar em Bafatá em casa de um tenente de 2ª linha.

Perguntado sobre como está Bissau, responde: “Os brancos fizeram grandes coisas. Ruas largas por onde passam automóveis e grande caminhões; lojas enormes de panos de todas as qualidades que os brancos fabricam na sua terra; contas douradas, bicicletas e até máquinas de lavrar a terra. Há tempos, veio de Lisboa um aeroplano que parece um grande pássaro”.

O motorista da casa Gouveia leva-o para Contubo-El, daqui seguirá para Sare-Sincham onde vivem as suas famílias, a dele e a de Auá. É uma viagem onde Fausto Duarte aproveita para falar de usos e costumes, da religião e até das povoações. Por exemplo, Geba é descrita como uma vila tristonha, outrora berço do catolicismo heróico, tem o aspecto místico habitado por um povo indigente. De um modo geral, as povoações têm uma rua com casas e lojas comerciais, estão cercadas pelas moranças dos indígenas. Nisto, avista-se a tabanca de Sare-Sincham, onde ele vai ficar em casa dos pais, Braima e Tacô. Fausto Duarte polvilha a obra de frases em fula e até mandinga e crioulo. Mostra-nos Auá e o seu amor por Abdulai, os preparativos para o casamento, há grandes descrições das lutas dos fulas durante a festa, Abdulai desafia Malam para o combate, é derrotado.

A critica social também abundante: o colono que vive com indígena, a superstição e a feitiçaria, o peso da religião muçulmana entre os fulas, a profunda simpatia de Malam pela cultura dos brancos. Segue-se o casamento, a chegada de um feiticeiro, um hipócrita e arranjista que acabará por violar Auá. Malam e Auá irão viver em Bissau, cidade que é descrita por Fausto Duarte como um local de sensualidade, um permanente bordel. Em Sare-Sincham, virão os guardas-fiscais que levarão o curandeiro, Issilda, preso. Terminam entretanto as colheitas, Auá está grávida, dará à luz um filho de Issilda. Malam pratica justiça e mata o curandeiro. O conselho dos anciãos reúne-se para ouvir Malam e praticar justiça. Fausto Duarte é primoroso na descrição do choque de civilizações. Abdulai propõe comprar Auá, Malam aceita e deixa Sare-Sincham. As tradições sobrepunham-se a uma grande paixão. Malam vai trabalhar em Dakar e à noite tem saudades de Auá. A velha cultura conseguira vencer os sentimentos transbordantes de Malam, o criado dos brancos.

A despeito de uma escrita laboriosa e quase laboratorial, o escritor Fausto Duarte descreveu a Guiné com um olhar novo de grande desvelo pela paisagem, com rigor no registo das tradições, destacando os contrastes de uma Guiné onde a aculturação se transformou num problema maior da civilização. É uma pequena jóia literária e merecia ser reeditada tanto em Portugal como na Guiné-Bissau.

Notas de L.G.:

(*) Disponível em formato pdf, 18 pp., no sítio do Instituto Camões: Amado, L. - A Literatura Colonial Guineense. Revista ICALP [Instituto de Cultura e Língua Portuguesa], 20-21 (Julho-Outubro de 1990): 160-178.

(**) 5 de Dezembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3565: A literatura colonial (1): Fernanda de Castro ou a Mariazinha em África, romance infantil, de 1925 (Beja Santos)

(***) Vd. Breve resenha sobre a literatura da Guiné-Bissau, por Filomena Embaló (Novembro de 2004)

(...) "I. A fase anterior a 1945

Autores marcados pelo cunho colonial
Luís Graça

"Os primeiros escritos no território guineense foram produzidos por escritores estabelecidos ou que viveram muitos anos na Guiné, muitos deles de origem cabo-verdiana. A maior parte das suas obras têm um caracter histórico, com a excepção da de Fausto Duarte (1903-1955), que se destacou como romancista, Juvenal Cabral e Fernando Pais Figueiredo, ambos ensaístas, Maria Archer, poetisa do exotismo, Fernanda de Castro, cuja obra dá conta das transformações sociais da colónia na época e João Augusto Silva, que recebeu o primeiro prémio de literatura colonial. Porém a maior parte destes autores caracterizam-se por uma abordagem paternalista e/ou próxima do discurso colonial.

"Durante este período apenas uma figura guineense se destaca : o Cónego Marcelino Marques de Barros que deixou trabalhos no domínio da etnografia, nomeadamente 'A literatura dos negros' e uma colaboração com carácter literário dispersa em obras diversas. A ele se deve a recolha e a tradução de contos e canções guineenses em diferentes publicações e numa obra editada em Lisboa em 1900, intitulada 'Contos, Canções e Parábolas'. " (...)

Postado por Luís Graça

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Luís Graça & Camaradas da Guiné
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