REVISTA TRIPLOV
de Artes, Religiões e Ciências
ISSN 2182-147X
NOVA SÉRIE

 

 

 

 
 

A.M. GALOPIM DE CARVALHO

2015 - ANO INTERNACIONAL DOS SOLOS

Falando dos solos (11)

Epipédon, o horizonte de diagnóstico

       Não tem havido, entre os autores, concordância na definição dos diversos horizontes do solo. Por um lado, há grande dificuldade (se não mesmo impossibilidade) de generalizar a clássica e demasiado esquemática nomenclatura ABC, à totalidade das situações existentes nas mais variadas latitudes e altitudes terrestres. Assim, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos da América criou o conceito de horizonte de diagnóstico, usado na descrição e classificação do solo, com muito pouca ou nenhuma correspondência aos definidos nas nomenclaturas mais antigas atrás referidas. Surgiu, então, o conceito de epipédon (do grego epi, por cima, sobre; e pedón, solo.) descrito como um horizonte do solo gerado à superfície, correspondente à parte superior (A), de tonalidade mais escura (em virtude da presença de matéria orgânica), e ou a parte do horizonte eluvial (E).

        Consoante as características, os epipédons são referidos adjectivando-os com os termos que aqui se transcrevem:

          Fíbrico – horizonte com restos orgânicos reconhecíveis. Do latim fibra, fibra.

          Hístico – horizonte orgânico em solo mineral. Do grego histós, tecido (orgânico), em referência à presença de matéria orgânica pouco ou nada decomposta.

          Mólico - horizonte orgânico, espesso, friável e arejado. Do latim mollis, fofo, macio.

          Ócrico – horizonte orgânico, delgado, pouco humífero e, como tal, pouco corado. Do grego ochrós, pálido.

          Sáprico – horizonte com matéria orgânica intensamente decomposta. Do grego saprós, podre.

          Úmbrico – horizonte de estrutura maciça, espesso e muito escuro. Do latim umbra, sombra.

          Sempre que os horizontes sejam modificados por acção do homem, o que acontece nos terrenos agricultados, usam-se expressões como horizonte antrópico e horizonte ágrico.

          Nesta nova concepção do referido Departamento de Agricultura, são ainda reconhecíveis no perfil do solo outros horizontes subjacentes ao epipédon, no geral coincidentes com o horizonte iluvial (B) da nomenclatura clássica:

          Argílico – com acumulação importante de fracção argilosa.

          Câmbico – com textura fina em resultado de intensa alteração in situ da rocha-mãe. Do latim cambiare, trocar.

          Espódico – com material amorfo orgânico e mineral (hidróxido de ferro). Do grego spodion, cinza ou lava vulcânica.

          Nátrico – horizonte argiloso rico em sódio, com estrutura colunar ou prismática. Do árabe natrun, sódio.

          Óxico – com perda de sílica e enriquecimento em óxidos e hidróxidos de ferro.

          Da nova nomenclatura constam ainda outras qualificações relativas a horizontes cujas características merecem referência especial:

          Álbico – horizonte lavado dos óxidos e hidróxidos de ferro e, portanto, descolorido. Do latim alba, branca.

          Cálcico – com acumulação de cálcio de neoformação, de aspecto pulverulento. No caso de haver cimentação (crosta), usa-se o termo petrocálcico.

          Gípsico – com acumulação de gesso. Do grego gypsós, gesso.

          Sálico – com acumulação de sais.

         Finalmente, há que distinguir os horizontes superficiais mais ou menos endurecidos, cimentados e impermeáveis, isto é, que constituem crostas designadas por durimperme ou duripan, normalmente siliciosas (silcretos), às vezes, carbonatadas (calcretos), outras vezes ferralíticas (lateritos) e outras, ainda, aluminosas (bauxitos), quatro tipos particulares de crostas pedogénicas, um tema a desenvolver mais adiante.

A.M. Galopim de Carvalho. É professor catedrático jubilado pela Universidade de Lisboa, tendo assinado no Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências desde 1961. É autor de 21 livros, entre científicos, pedagógicos, de divulgação científica e de ficção e memórias. Assinou mais de 200 trabalhos em revistas científicas. Como cidadão interventor, em defesa da Geologia e do património geológico, publicou mais de 150 artigos de opinião. Foi diretor do Museu Nacional de História Natural, entre 1993 e 2003, tempo em que pôs de pé várias exposições e interveio em mais de 200 palestras, pelo país e no estrangeiro.
Blogue: http://sopasdepedra.blogspot.com/
 

 

 

 




 



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