REVISTA TRIPLOV
de Artes, Religiões e Ciências
ISSN 2182-147X
NOVA SÉRIE

 

 

 

 
 

A.M. GALOPIM DE CARVALHO

2015 - ANO INTERNACIONAL DOS SOLOS

Falando dos solos (7)

Em condições normais, coexistem no solo uma  componente mineral e uma orgânica, a que se associam
uma fase líquida e uma fase gasosa essenciais
ao bioquimismo e à vida  que nele têm lugar.

 

Componente mineral do solo

A fracção mineral preenche, em média, 80% ou mais do corpo do solo, sendo constituída por pedras, ou seja, fragmentos da rocha-mãe, e por grãos de minerais dessa mesma rocha, ditos primários (1), muito, pouco ou nada alterados, e por minerais ditos secundários (2), tais como, entre outros, os argilosos,  o óxido e os hidróxidos de ferro, os hidróxidos de alumínio e, ainda, substâncias minerais não cristalizadas (amorfas), como é o caso da opala (3) e da alofana (4). Um  outro grupo de minerais secundários do solo é representado pelos que são herdados directamente de uma rocha-mãe de natureza sedimentar, como são, por exemplo, os minerais argilosos de um solo estabelecido sobre um argilito ou sobre um xisto, argiloso.

De entre os grãos de  minerais primários, variáveis consoante a rocha-mãe, destacam-se: (a) o quartzo, inalterado; (b) os feldspatos,  com graus de alteração que dependem da respectiva natureza (potássicos e calco-sódicos) e do clima; (c) as palhetas de mica preta (biotite), também ela num grau de alteração determinado pelo clima; (d) e as de mica branca (moscovite), pouco ou nada alterada. Facilmente alteráveis, a olivina e espécies dos grupos das anfíbolas e das piroxenas são pouco frequentes e raras nos solos.  

Entre os minerais secundários do solo, as argilas (5) têm um papel fundamental e múltiplo: (i) retêm a água e conferem mais ou menos plasticidade ao conjunto, quando húmido, e tenacidade, quando seco; (ii) promovem adesividade entre as partículas; (iii) em virtude das suas propriedades de expansão/retracção; (iv) proporcionam variações de volume no corpo do solo responsáveis pela abertura e fecho de fendas e outros vazios, com consequências evidentes na permeabilidade à água e ao ar; (v) possibilitam trocas de iões entre os constituintes.  

O teor da fracção argilosa do solo depende, sobretudo, da natureza da rocha-mãe e do grau de maturidade que atingiu, Nos solos das regiões de clima quente e húmido a percentagem de argila é, normalmente,  superior a 60 %. Pelo contrário, nos solos das regiões áridas ou das de clima frio e húmido, esta percentagem é inferior a 10 %. Em igualdade de temperatura ambiente, o teor de argila no solo cresce linearmente em função da humidade. Por outro lado, em idênticas condições de humidade, este teor cresce exponencialmente com a temperatura.

Outros minerais secundários, com particular influência nas características do solo, são a calcite e a opala, associadas a crostas pedológicas de natureza, respectivamente, calcárias (caliços ou calcretos) e siliciosas (silcretos).

Mercê da presença de minerais (primários e secundários), o solo dispõe sempre de uma reserva mineral, entendida como o conjunto das  espécies susceptíveis de lhe fornecerem elementos biogénicos, isto é, elementos químicos necessários à vida das plantas (potássio, fósforo, cálcio, ferro, magnésio, enxofre, sódio, ente outros). Esta reserva é tanto mais eficaz quanto maior for a alterabilidade desses minerais e quanto menor for o diâmetro das respectivas partículas, condições essenciais à libertação dos respectivos elementos químicos. Entre as espécies constituintes de uma tal reserva destacam-se os minerais argilosos (caulinite, ilite, montmorilonite e outros), os silicatos ferromagnesianos (olivinas, piroxenas, anfíbolas, biotite), a mica branca e outras, os feldspatos potássicos (ortoclase, microclina, sanidina) e calcossódicos (plagioclases, em especial, albite e oligoclase), os carbonatos (calcite, dolomite), os sulfatos (gesso, anidrite) e os fosfatos (apatite, monazite).

O ferro e o magnésio provêm dos silicatos ferromagnesianos, o cálcio é fornecido pelas plagioclases, anfíbolas, epídoto e apatite, nas rochas primárias, ou pela calcite e dolomite nas rochas carbonatadas (calcários, dolomitos, carbonatitos). O sódio sai facilmente das plagioclases  sódicas e o potássio, dos respectivos feldspatos  e das micas. Finalmente, o fósforo, elemento capital da matéria viva, provém essencialmente da apatite.

O alumínio, o silício e, em parte, o ferro constituintes dos minerais do solo têm alguma dificuldade em abandonar o sistema. Outros, como o sódio, o potássio, o cálcio, o magnésio, o manganês, o titânio e o fósforo são facilmente libertados, primeiro, no decurso da meteorização e, depois, durante a pedogénese. Com efeito, na generalidade e em termos médios, a sílica (no quartzo nos feldspatos e noutros silicatos), a alumina (em especial nos feldspatos) e os óxidos de ferro (sobretudo, hematite, goethite) perfazem 90%, ou mais, da fracção mineral do solo e, entre esta, a sílica representa 50 a 75%. Tão importante é a presença destes três componentes que, com base nas suas proporções relativas, se distinguem três grandes tipos de solos:  

    sialíticos, com SiO2/Al2O3>2 e SiO2/Fe2O3>2,

    fersialíticos, com SiO2/Al2O3>2  e SiO2/Fe2O3<2, 

   ferralíticos, com SiO2/Al2O3<2  e SiO2/Fe2O3<2. 

Nos solos aluviais, a  fracção  mineral, maioritariamente areno-argilosa, não resulta da meteorização do substrato rochoso sobre que assenta. Resulta, sim, da deposição mais ou menos temporária de um material transportado (em especial, areias e argilas) que, assim, fica à mercê da ocupação orgânica que o transforma em solo. Desta realidade resulta a importância das planícies aluviais, de que se destacam, entre nós, as dos vales do Mondego, do Sorraia e do Sado, os sapais de Corroios e de Castro Marim, a campina de Faro, a veiga de Chaves e a lezíria do Tejo.

São ainda exemplos deste tipo de solos, as  imensas áreas vestibulares e os deltas dos grandes rios de todo o mundo, onde os benefícios próprios dos bons solos aluviais são duramente pagos nas frequentes e catastróficas inundações, sempre que ocupadas de modo irracional, contra natura.

(1)  Herdados directamente da rocha-mãe.

(2) Quer transformados, a partir dos minerais primários, quer  neoformados durante a fase de meteorização, ou já no próprio solo.

(3) A opala, em rigor, não é um mineral. É uma forma natural de sílica considerada um mineralóide.

(4) A alofana é um silicato de alumínio hidratado, afim da caulinite, sem a organização triperiódica que caracteriza o estado cristalino próprio dos minerais. É, pois, não um mineral, mas sim um mineralóide.

(5) A naturezas dos minerais argilosos do solo será objecto de um texto a editar mais adiante.

A.M. Galopim de Carvalho. É professor catedrático jubilado pela Universidade de Lisboa, tendo assinado no Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências desde 1961. É autor de 21 livros, entre científicos, pedagógicos, de divulgação científica e de ficção e memórias. Assinou mais de 200 trabalhos em revistas científicas. Como cidadão interventor, em defesa da Geologia e do património geológico, publicou mais de 150 artigos de opinião. Foi diretor do Museu Nacional de História Natural, entre 1993 e 2003, tempo em que pôs de pé várias exposições e interveio em mais de 200 palestras, pelo país e no estrangeiro.
Blogue: http://sopasdepedra.blogspot.com/
 

 

 

 




 



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