REVISTA TRIPLOV
de Artes, Religiões e Ciências
ISSN 2182-147X
NOVA SÉRIE

 

 

 

 
 

A.M. GALOPIM DE CARVALHO

Sobre o ensino da Geologia em Portugal

Onde a geologia permanece subalternizada nos currículos escolares e continua arredada da cultura geral dos portugueses, dos mais humildes e iletrados às elites intelectuais mais iluminadas.

Numa luta pela valorização do ensino da Geologia em Portugal que, de há décadas a esta parte, tem sido a de alguns, entre os quais me incluo, cabe aqui relatar um caso concreto que, posso afirmar por experiência própria, ilustra muitos outros no panorama nacional.

Tive, há dois ou três anos, oportunidade de analisar, em pormenor, o relatório de um trabalho sobre um tema envolvendo noções básicas de mineralogia e geologia, elaborado por um grupo de alunos do 11º ano, de uma das Escolas Secundárias da capital. Enchendo dois volumosos dossiers com centenas de páginas, na imensa maioria fotocópias de imagens e textos acriticamente recolhidos da internet segundo um critério de escolha que deixa muito a desejar (com o único propósito de o procurar valorizar pelo volume), este trabalho permite concluir não ter tido o acompanhamento desejável por parte do(a) professor(a) da respectiva disciplina. Esta mais do que evidente falta de acompanhamento, a que se juntou a não existência de uma desejável e necessária revisão final, fica clara na deficiente correcção dos textos escritos pelo referido grupo de alunos.

Facultado por um dos elementos deste grupo, a sua leitura permitiu-me algumas reflexões que vão ao encontro de convicções que fui somando ao longos dos anos nos múltiplos encontros que tenho tido com as nossas Escolas.

O(a) professor(a) em causa, licenciado(a) em Biologia, sabe muito pouco, ou quase nada, sobre o tema do referido trabalho e desconhece elementos básicos de química que obrigatoriamente constaram da sua formação académica, deixando passar, sem reparo ou correcção, os muitos erros e imprecisões no conteúdo científico, quer nas páginas redigidas pelos alunos, quer nas que reproduzem os documentos retirados da net. Por outro lado, não se dá conta dos imensos erros de sintaxe e de ortografia do texto. Limitou-se a passar os olhos pelo trabalho, numa leitura mais do que rápida, em diagonal, lamentavelmente desinteressada. Em conclusão, este grupo de alunos, praticamente, não beneficiou do trabalho que desenvolveu.

É certo que não podemos generalizar. Nas muitas escolas que continuo a visitar por todo o país, fazendo palestras para professores e/ou alunos, participando em debates ou em outras actividades, conheço professores dignos desse nome. Conheço licenciados em Biologia, tanto ou mais interessados e competentes no ensino da Geologia, quando comparados a muitos dos seus pares licenciados para o efeito.

De há muito que venho dizendo que o ensino da Geologia nas nossas escolas não tem merecido, por parte dos responsáveis, a atenção que esta disciplina merece como motor de desenvolvimento e bem-estar e como componente da formação integral do cidadão. Continua a ser grande a iliteracia dos portugueses nesta área do conhecimento, mesmo nos seus aspectos mais gerais e essenciais à compreensão do seu lugar no mundo. E esta iliteracia é transversal à nossa sociedade desde o mais humilde dos cidadãos, que não passou sequer pelos bancos da Escola, à grande maioria dos que integram as classes sociais ditas cultas. Chamadas de atenção como esta, expendidas ao longo de décadas, por diversos elementos da comunidade dos geólogos, continuam a não despertar as desejáveis preocupações dos que temos elegido para dar destino às nossas vidas.

 

A.M. Galopim de Carvalho. É professor catedrático jubilado pela Universidade de Lisboa, tendo assinado no Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências desde 1961. É autor de 21 livros, entre científicos, pedagógicos, de divulgação científica e de ficção e memórias. Assinou mais de 200 trabalhos em revistas científicas. Como cidadão interventor, em defesa da Geologia e do património geológico, publicou mais de 150 artigos de opinião. Foi diretor do Museu Nacional de História Natural, entre 1993 e 2003, tempo em que pôs de pé várias exposições e interveio em mais de 200 palestras, pelo país e no estrangeiro.
Blogue: http://sopasdepedra.blogspot.com/
 

 

 

 




 



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