REVISTA TRIPLOV
de Artes, Religiões e Ciências
ISSN 2182-147X
NOVA SÉRIE

 

 

 

 
 

A.M. GALOPIM DE CARVALHO

O que eles fizeram pelas ciências da Terra:
Jean Louis Rodolphe Agassiz

Muitos dos leitores das minhas crónicas são professoras e professores que ensinam geologia nas nossas escolas básicas e secundárias e estudantes que têm matérias desta disciplina nos respectivos curricula. É, sobretudo, a pensar neste conjunto de leitores que me pareceu interessante escrever pequenas notas biográficas sobre os homens e mulheres que, pedra a pedra, ergueram o maravilhoso edifício das Ciências da Terra.

Restrinjo-me, como seria de prever, a este ramo do conhecimento científico, porque foi nele que decorreu a minha vida profissional. Os biólogos que falem dos seus antecessores e os químicos, os físicos ou os matemáticos que façam outro tanto.

Qualquer que seja o tema, há sempre um ou mais estudiosos que o trouxeram às páginas dos nossos manuais de ensino e é, pois, de justiça, que procuremos, ainda que postumamente, prestar-lhes a nossa homenagem e manifestar-lhes a nossa gratidão.

Assim, de quando em vez, escreverei sobre o essencial da obra de alguém que colocou uma das referidas pedras no dito edifício do conhecimento. Acontece que a esmagadora maioria das personalidades incluídas neste propósito são homens e isso deve-se unicamente à condição de inferioridade, imposta, no passado, às mulheres, a quem o ensino era praticamente vedado. O século XX acabou com essa indignidade e, assim, são hoje muitas as mulheres, tantas ou mais do que os homens, que ocupam os bancos e as cátedras das universidades e participam na investigação científica e tecnológica.

Comecemos então por falar do médico, geólogo e paleontólogo suíço que ficou na história como grande estudioso dos glaciares.

Jean Louis Rodolphe Agassiz
(1807 - 1873)

Doutorado em medicina pela Universidade de Munique, em 1830, tornou-se especialista em peixes fósseis, no que foi discípulo de Georges Cuvier, sendo notável o seu contributo no domínio da ictiologia. Estudou com o geógrafo alemão Alexander von Humboldt, que lhe abriu as portas à observação da paisagem física. Ficou na história da Geologia como glaciologista.

Em 1836, na companhia do engenheiro de minas alemão, Johan Charpentier, visitou os glaciares (ou geleiras) e as moreias de Diablerts e do Vale do Ródano e ele, que sempre fora céptico relativamente ao glacialismo, converteu-se firmemente a esta problemática formulada por este seu companheiro e pelos seus conterrâneos, Jean-Pierre Perraudin e Ignaz Venetz. Na sequência desta viagem, Agassiz desenvolveu este tema, que generalizou como teoria e que apresentou em 1837, na Sociedade Suíça de Ciências Naturais, de Neuchatel, ao mesmo tempo que divulgava o conceito de Era Glaciária ou Idade do Gelo.

Antes dele, o poeta Wolfgang von Goethe (1749 - 1832), o naturalista Horace-Bénédict de Saussure (1740 – 1799) e outros tinham observado as geleiras alpinas e chegado à conclusão de que os blocos de rochas provenientes da montanha e espalhados nas zonas baixas vizinhas tinham sido arrastados por aquelas línguas glaciárias. Também antes dele, o alemão Albrecht Reinhard Bernhardi (1779 - 1849), professor na Escola de Engenheiros Florestais de Dreissigacker, no norte da Alemanha, revelara que os gelos da calote polar árctica, haviam alastrado para sul e coberto temporariamente o norte da Europa, deixando aí, como testemunhos, moreias e blocos erráticos.

Em 1840, Agassiz publicou a sua monumental memória, em dois volumes, sobre o estudo dos glaciares, na qual discutiu os movimentos das línguas glaciárias, a sua influência na erosão dos respectivos vales, o desgaste e polimento das rochas sobre as quais se deslocavam, a origem das moreias e das rochas estriadas e aborregadas. Em resultado do seu estudo, Agassiz concluiu que, à semelhança de Gronelândia, e num passado recente, uma vasta região a norte do seu país, também estivera sob uma imensa capa de gelo.

Estendeu as suas observações às montanhas da Escócia, na companhia do Decano de Westminster, William Buckland (1784 – 1856) e encontrou aí testemunhos seguros de glaciares antigos, à semelhança dos reconhecidos nos Alpes e na Europa do Norte. Também a Inglaterra, País de Gales e Irlanda lhe revelaram a existência de moreias e outros testemunhos de actividade glaciária na dependência das suas montanhas.

Agassiz foi professor de História Natural na Universidade de Neuchatel que, sob a sua orientação, se tornou uma das principais instituições de investigação científica do seu tempo. Mais tarde, trocou a Europa pelos Estados Unidos da América, onde permaneceu até o fim da sua vida, em 1873, tendo ensinado anatomia comparada, como professor convidado na Universidade Cornell, em Ithaca, Nova Iorque, e na Universidade de Charlestown, no Massachusetts. Ensinou ainda zoologia e geologia na Universidade de Harvard, onde fundou o Museu de Zoologia Comparada, de que foi o primeiro director.

Na continuação do seu trabalho na Europa, como glaciologista, ele foi um dos primeiros a estudar os efeitos da última glaciação (Wisconsin Glacial Episode) na América do Norte.

O Lago Agassiz, de origem glaciária, na região dos Grandes Lagos da América do Norte, o Monte Agassiz, na Califórnia, o Pico Agassiz, no Arizona, e o Glaciar Agassiz, no Parque Nacional dos Glaciares, no Estado de Montana, são alguns dos acidente geográficos que evocam o seu nome. Também em Marte e na Lua o seu nome é lembrado, respectivamente, com uma cratera e um relevo. Agassiz é ainda enaltecido na nomenclatura zoológica, sendo vários géneros e espécies registados com o seu nome.

Agassiz era religioso e fiel seguidor da Bíblia, mas atribuía um padrão de inferioridade aos negros, pelo que as suas palestras sobre poligenismo eram muito populares e bem aceites pelos senhores de escravos, no Sul. Sobre a espécie humana, ele tinha uma visão oposta à de Charles Darwin, que procurou mostrar a origem comum de todas as etnias humanas e a superficialidade das diferenças raciais. Ficou conhecida a sua inabalável oposição às ideias de Darwin no que respeita a evolução. Para ele, vários indivíduos de cada espécie foram criados ao mesmo tempo e, em seguida, distribuídos por todos os continentes, onde Deus queria que eles habitassem.

O racismo deste ilustre geólogo e paleontólogo, hoje abertamente repudiado manchou-lhe o nome, como cidadão, mas não o legado científico. O seu nome em escolas e outras instituições abunda no Estado de Massachusetts. O governo suíço evoca este seu conterrâneo no nome do pico montanhoso Agassizhorn e a Sociedade Geológica de Londres, atribuiu-lhe a medalha Wollaston.

Uma biografia muito pormenorizada de Jean Louis Rodolphe Agassiz foi escrita por sua mulher, Elizabeth Cary Agassiz Cabot, professora universitária americana, com quem casara em 1850.

 
 

A.M. Galopim de Carvalho. Professor jubilado da Universidade de Lisboa. Geólogo e escritor. Foi diretor do Museu Nacional de História Natural de Lisboa.

 
 

 

 

 




 



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