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O DIABO DO LIVRO
arte: Hélio Rola / poema: Floriano Martins

Nenhum pressentimento erra por si mesmo.

É efeito de um entusiasmo propenso à sabedoria.

O acaso seria então fruto de um erro clássico: o presságio imprudente.

Porém o que fazer com a prévia escolha de rumores e suspeitas?

Como planejar o esmo se a fortuna é incerta?

O erro está direcionado contra o inimigo.

A flutuação de caráter, a subversão, a dúvida – este joio infesta o jogo,

ao tecer uma constância que não passa de camuflagem.

Um simples erro tipográfico já causou muitas mortes.

Porém a contrafação do erro tem sido um grande negócio,

a fraude como uma inesgotável fonte de energia.

Quanto mais desvairada a doutrina, mais acerto:

moeda sempre apropriada à beatice  e à corrupção.

Não se trata de uma encenação. O erro está escrito.

Lutamos contra ele, mas erramos ao querer preservar

certa ordem de erros. Como confiar nos livros,

se sabemos como foram escritos? Porém como escapar deles,

eliminar a crônica do que somos e não somos,

as falsas atribuições, a crença em reinos intemporais,

brochuras de frustrações e exorcismos?

Haverá livro sem julgamento? Afinal, sua publicação

estabelece uma verdade, e acaba por eliminar as demais.

Não há então uma heresia possível? A narração do erro,

sua indução, um escalpo divino, acaba confirmando

toda sorte de desvario que o inquisidor não soube evitar.

Como pressentir o original, se a cópia é tão perversa?

Como se desfazer da cópia, ante a presunção do original?

   
   

 

 

 


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